|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos |
|
06/08/2004 Marty Logan Cedo se soube: a informação
que alimentou o alerta de Ridge, que acordou temor em todo o país e motivou a
mobilização de centenas de soldados e polícias em Nova York, Washington e Nova Jersey, tinha três anos de
antiguidade. A imprensa aclarou isso na
terça-feira, e mostrou Ridge negando que o alerta fosse parte de uma
estratégia do governo para distrair a atenção da nomeação do senador John F.
Kerry como candidato do opositor Partido Democrata para as eleições
presidenciais de Novembro. – Mas não teria sido melhor que os mídia fossem um
pouco mais cépticos à partida? «Cobrimos o anúncio de Ridge
no domingo ao vivo, mas também informámos no dia seguinte que parte dos dados
tinha alguns anos», assinalou a vice‑directora de cobertura
jornalística da cadeia CBS, Marcy McGinnis. «Temos que lograr um
equilíbrio entre o direito do público a saber quando o governo faz alertas, e
um pouco de cepticismo saudável sobre os motivos», acrescentou numa
entrevista por email. Mas, direito a saber o quê? O
que o governo diz de supostas ameaças terroristas ou se há, verdadeiramente,
uma genuína ameaça terrorista? «É muito
claro que a informação de inteligência foi manipulada pelo governo de Bush (no passado). E parte do trabalho dos
mídia, além de repetir o que dizem as autoridades, é avaliar a credibilidade
dessas declarações», sustentou Jim Naureckas, editor da revista Extra,
publicada pelo grupo Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR). «É por
isso que a liberdade de imprensa está garantida na Constituição. Trata-se
de uma função vital para a
democracia», adicionou. Faz apenas
dois meses, o diário The New York Times admitiu que alguns dos seus
jornalistas se tinham deixado levar por declarações de fontes oficiais
segundo as quais havia armas de destruição em massa no Iraque, principal
argumento de Bush para atacar o regime do presidente Saddam Hussein em Março
de 2003. As armas
nunca apareceram. «Em alguns casos, informação que era então
polémica, e que hoje parece questionável, não foi avaliada de forma
adequada», escreveram os editores do Times. «Olhando para trás, desejaríamos
ter sido mais agressivos no exame da informação quando surgiram novos dados
ou quando faltaram». Mas,
poderia um diário como The New York Times ignorar informação como a dada pelo
governo no domingo, em especial considerando que novos ataques como os do 11
de setembro de 2001 são ainda
possíveis? «Se és um
chefe de polícia», diz Naureckas «e tens que tomar decisões difíceis, como
onde e quando mobilizar o teu pessoal, então estás num terrível dilema se tens
um governo pouco confiável que faz alertas como este. Há vidas em jogo». «Mas no
caso dos mídia é diferente. É pouco provável que a população de Nova Jersey
possa fazer algo para impedir um atentado depois de que se inteire de uma
advertência do governo pelo The New York Times», adicionou. Mas nem
todos estão de acordo. «Se não
advertes as pessoas e algo sucede depois, e tu o sabias, terás um grande
problema», declarou ao Times esta semana a senadora democrata Diane
Feinstein, da Comissão de Inteligência da câmara alta do Congresso. «A outra
opção é que, advertindo a população e mantendo-a alerta, talvez se detenha
alguém que se esteja a esconder num portal perto do Banco Mundial ou da
bolsa», adicionou. Os
editores dos diários The New York Times e Los Angeles Times, e do noticiário
televisivo Fox News não acederam a responder às perguntas de IPS. Os
jornalistas que receberam a informação dada pelo secretário Ridge – que, num
gesto inusual, comunicou directamente com os directores dos diários e dos
noticiários televisivos – deveriam ter escutado uma voz interior que pelo
menos pusesse em questão o que
escutavam. Os
estadounidenses devem «entender que a informação que temos disponível hoje a
devemos à liderança do presidente na luta contra o terrorismo», afirmou
Ridge, quase três meses antes das eleições. Naureckas
sustenta que neste período pré‑eleitoral, quando o público está
dividido entre os ”amedrontados” pelas ameaças terroristas e entre ”os que
não têm fé no governo de Bush”, os jornalistas devem pressionar mais os
servidores públicos que fazem declarações. «Especialmente
quando há problemas de confiança com o governo, é preciso que a imprensa faça
mais para discernir entre os factos e o discurso político ou a manipulação.
Creio que os jornalistas não fizeram o suficiente ainda neste sentido»,
sustentou. No
entanto, McGinnis assegura que a CBS «comprova a informação e a divulga
de maneira actualizada, agrade ao
governo ou não». |