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01/05/2008 Immanuel Wallerstein Fernand Braudel Center; retirado de Esquerda Em todo o mundo, o 1º de Maio é comemorado como o dia internacional
do trabalhador. A única excepção é nos Estados Unidos. A ironia é que o 1º de
Maio é comemorado em memória de um evento americano – a revolta de Haymarket
em Chicago. No dia 1 de Maio de 1886, em muitas cidades americanas, os
trabalhadores lançaram‑se numa greve geral pela jornada de oito horas
de trabalho. Em Chicago, 80 mil trabalhadores marcharam pela avenida
Michigan. No quarto dia de manifestações, mesmo no final de um comício na
praça Haymarket, explodiu a violência. Discute-se até hoje qual foi a sua
origem, mas morreram alguns polícias. Na sequência, foram presos líderes da greve e quatro deles foram
executados pelo que foi designado de assassinato. Apesar de serem imigrantes
alemães, morreram cantando, não o The Star-Spangled Banner [hino
nacional dos Estados Unidos], mas La Marseillaise, uma expressão da
solidariedade internacional de classe. Apesar disso, os políticos nos Estados
Unidos sempre tentaram desvalorizar a importância do conflito de classe como
uma questão definidora da política dos EUA, e é por isso que os Estados
Unidos não comemoram o 1º de Maio. Em 2008, existe uma eleição ferozmente disputada para a presidência
dos Estados Unidos. Há uma disputa nas primárias do Partido Democrata entre
uma mulher e um afro-americano. O candidato republicano é um homem branco. No
início, todos negavam que raça e género estivessem em causa. Mas à medida em
que a disputa se prolongava e ficava mais acirrada, os temas tanto da raça
quanto do género ganharam a ribalta. Todos continuam a negar que a questão de
classe é importante. A intersecção entre raça, género e classe é uma velha história no
moderno sistema-mundo. Foi uma questão central para a história política dos
Estados Unidos. Em 1848, um ano de grande sublevação política pelo mundo, a
França estava a viver a primeira revolução social séria na história moderna,
e em grande parte da Europa ocorriam levantamentos nacionalistas, que os
historiadores chamaram de “Primavera das Nações”. Nos Estados Unidos, o
acontecimento mais importante foi a Convenção de Seneca Falls, normalmente
vista como o momento fundador do feminismo norte-americano. A sua famosa “Declaração
de Sentimentos” de 19-20 de Julho de 1848, ecoando a “Declaração de
Independência”, começa: «Sustentamos estas verdades como sendo auto‑evidentes:
que todos os homens e mulheres são criados como iguais». Entre as injustiças
listadas estavam o facto de as mulheres não terem o «primeiro direito de um
cidadão, o direito electivo», um direito que era dado (e esta queixa prenunciava
futuros conflitos) aos «homens ignorantes e degradados – tanto nativos quanto
estrangeiros». A principal figura afro-americana deste período, Frederick Douglass,
foi a Seneca Falls para oferecer o apoio da comunidade afro-americana – que
na altura era constituída principalmente por escravos – à causa dos direitos
das mulheres. Mais tarde, em 1872, Douglass seria o candidato a
vice-presidente do Partido dos Direitos Iguais, numa lista liderada por
Victoria Woodhull. Foi a primeira vez que tanto uma mulher quanto um afro‑americano
se candidataram a estes cargos. Contudo, quando, depois da Guerra Civil, o Congresso dos EUA adoptou
a Décima Quarta Emenda à Constituição, que tornou inconstitucional o
impedimento de voto aos cidadãos masculinos afro-americanos, as mulheres
ficaram consternadas por não terem sido incluídas. Wendell Phillips, um dos
líderes do movimento abolicionista dos EUA, disse em Maio de 1865 algo que
ficou célebre: que a reivindicação de direito de voto para as mulheres não tinha
pressa no momento, porque «esta é a hora dos negros». Muitas mulheres
sufragistas não ficaram caladas. Como resposta, Elizabeth Stanton e Susan B.
Anthony apoiaram a campanha presidencial de George Francis Train, um
conhecido racista, que sempre defendera o direito de voto das mulheres. O
resultado foi uma profunda divisão do movimento feminista. À medida que o movimento das mulheres se tornava mais conservador em
relação a todas as questões sociais/laborais na segunda metade do século XIX,
o mesmo aconteceu em relação às questões étnicas/raciais. No curso deste
desvio conservador, muitas feministas abandonaram o argumento dos direitos
naturais. Começaram a argumentar que as mulheres deviam ter o direito de voto
para «equilibrar o impacto dos nascidos no estrangeiro». Em 1903, o principal
movimento de mulheres defendeu um “requisito educacional” para o voto (com o
notável, mas solitário desacordo de Charlotte Perkins Gilman). No ponto mais
alto desta tensão, algumas sufragistas recorreram mesmo ao puro racismo. Por
exemplo, publicaram um cartaz de um porteiro negro de olhar embrutecido
sentado ao lado de uma senhora branca de aspecto requintado com uma legenda
que dizia: «Ele pode votar; porque é que eu não posso?» Em todo este conflito entre as vítimas da desigualdade (raça versus
género), nada se disse sobre classe, apesar de a vasta maioria tanto dos
afro-americanos quanto das mulheres serem da classe trabalhadora, como o são
ainda hoje. É assim que um candidato republicano abertamente conservador, que
em toda a sua carreira sempre votou em apoio aos interesses das classes altas
e contra qualquer legislação que fosse favorável às classes trabalhadoras (chamadas
nos Estados Unidos de “classe média”), pode esperar atrair alguns eleitores
da classe trabalhadora que não estão dispostos a aceitar a ideia de que uma
mulher ou um afro‑americano possa ser o presidente dos Estados Unidos. Há alguma novidade nisto? Bem, sim, há. A própria ideia de que os
dois possíveis candidatos do Partido Democrata são uma mulher e um
afro-americano é algo que era impensável há apenas uma década. A eleição de
uma ou de outro ainda se pode demonstrar impensável. Mas isso depende do grau
em que o Partido Democrata possa organizar a sua campanha em torno de
questões de classe, que delicadamente são chamadas de questões sobre “a
economia”. Se o fizer, vai provavelmente varrer as eleições. Se não o fizer,
a disputa vai ser apertada. |