Informação Alternativa

Estados Unidos da América

01/04/2008

 

Wall Street está realmente baseada na avidez

 

Immanuel Wallerstein

Fernand Braudel Center; retirado de Esquerda

 

Não sou eu que estou a dizer que Wall Street está realmente baseada na avidez, mas sim Stephen Raphael. E quem é Stephen Raphael? É um ex-membro do Conselho do Bear Stearns, o banco de Wall Street que entrou em colapso no mês passado. E onde é que Raphael disse isto? Numa entrevista ao Wall Street Journal, que é mais ou menos o porta-voz de Wall Street. E qual era o propósito de Raphael? Era explicar (ou seria desculpar?) o colapso da empresa. «Isto podia ter acontecido a qualquer firma», disse.

 

Na realidade, podia. E aconteceu. Entretanto, enquanto isto estava a acontecer, o presidente da firma, Jimmy Caines, estava relaxadamente a jogar bridge num torneio. Pouco inteligente para um banqueiro ávido. Resultado: perdeu a maior parte da sua fortuna pessoal, e outra empresa ávida, o JPMorgan Chase, entrou como uma sombra e cometeu um assassinato. Ah, já agora, alguns dos 14.000 empregados do Bear Stearns estão, ou estarão em breve, desempregados.

 

Será, então, que o capitalismo não passa de avidez? Não, também tem outras coisas, mas a avidez cumpre um papel muito importante. E a avidez, por definição, trabalha a favor de uns, à custa dos outros. Assim, algumas empresas vão falir nestes dias – em Wall Street e noutros lugares do mundo – e outras não. Os Estados Unidos, como país, vão falir, e outros não. Os Estados Unidos não lhe chamam assim, mas esta é a verdade.

 

É sempre assim? Não, nem sempre. Só metade das vezes. Relembremos como Wall Street e os Estados Unidos entraram neste desastre particular. Tudo começou bem – para Wall Street e para os Estados Unidos em 1945. A guerra tinha terminado. A guerra fora vencida. E os Estados Unidos eram a única potência industrial cujas fábricas estavam intactas, intocadas pelos estragos de guerra. Nos outros países havia cidades destruídas, e havia fome na Europa e na Ásia.

 

Os Estados Unidos estavam preparados para ter sucesso, e tiveram muito sucesso. Podiam superar a produção mundial, e obter a recompensa. Fizeram um acordo com a União Soviética – chamamos-lhe retoricamente de Yalta – para que não houvesse guerras nucleares que pudessem verdadeiramente prejudicar os Estados Unidos. E, a nível doméstico, os grandes manufactureiros fizeram um acordo com os grandes sindicatos, de forma a que não houvesse greves destrutivas que interferissem na lucrativa produção. Veio um tempo cor-de­‑rosa, e os padrões de vida subiram dramaticamente. Na verdade, os anos do pós-guerra foram um tempo bastante cor-de-rosa para a maior parte do mundo. Foi o momento da maior expansão da produção, do lucro, da população, e do bem-estar geral na história da economia-mundo capitalista. Os franceses chamam-lhe “os 30 anos gloriosos”.

 

Todas as coisas boas necessariamente chegam ao fim? Bem, ciclicamente, nos 500 anos do moderno sistema­‑mundo, temo que isso tenha sido sempre verdade. Quando todos começam a ganhar dinheiro com a expansão económica, a taxa de lucro tem de cair. O lucro da produção depende da relativa monopolização das principais indústrias. Mas se demasiados países têm siderurgias ou fábricas de automóveis (as indústrias principais da época), há demasiada competição. E, apesar de todos os slogans disparatados, a competição não é boa para os capitalistas. Reduz os lucros.

 

E quando os lucros são fortemente atingidos, o sistema-mundo entra numa das suas periódicas fases de estagnação. Isto aconteceu por volta de 1970. Caso não tenha dado por isso, as coisas não andaram cor-de­‑rosa desde então, apesar, mais uma vez, de todos os slogans disparatados. Que acontece num período de estagnação mundial? As fábricas começam a sair dos locais de antigamente (como dos Estados Unidos, mas também da Alemanha, de França, da Grã-Bretanha, e do Japão) para outros países (como a Coreia do Sul, a Índia, o Brasil, e Taiwan) à procura de custos de produção mais baixos. Parece bom para as novas localizações das siderurgias e da produção automóvel, mas significa desemprego nos velhos centros de produção.

 

Mas a fuga de fábricas não é a história toda. O que fazem os grandes capitalistas, se querem ganhar dinheiro, em tempos de baixos lucros da produção? Começam a desviar o seu dinheiro das empresas produtivas para as financeiras. Quer dizer, começam a especular. E, em tempos de especulação, a ganância não conhece limites. Temos assim os junk bonds [1], as tomadas de controlo de empresas, as hipotecas subprime e os hedge funds [2] e todas estas coisas curiosas com nomes curiosos. Parece que até Robert Rubin, um dos verdadeiramente grandes no mundo financeiro, admitiu recentemente não saber o que é um “liquidity put”.

 

A história subjacente – de 1970 em diante – tem sido a da dívida, a cada vez maior dívida. As empresas pedem emprestado, os indivíduos pedem emprestado, os Estados pedem emprestado. Todos vivem acima dos seus rendimentos reais. E, se se está em posição de pedir emprestado (chama-se crédito), pode-se viver acima das posses, high on the hog, como se costuma dizer nos EUA. Mas as dívidas têm um pequeno problema. A certa altura, espera-se que sejam pagas. Se não se paga, há uma “crise de dívida” ou uma falência ou, se se é um país com moeda, um declínio dramático da taxa de câmbio.

 

É o que chamamos de bolha. Se enchermos um balão demasiado tempo, por melhor que pareça, a certo ponto explode. Está a explodir agora. Todos estão assustados, como se supõe que devam estar. Quando a bolha realmente estoura, é verdadeiramente doloroso. E o pior é que normalmente é mais doloroso para uns do que para outros, mesmo que o seja para todos.

 

Neste momento, pode verificar-se mais doloroso para os Estados Unidos – como país, e para os seus capitalistas, e acima de tudo para os cidadãos comuns. Parece que os Estados Unidos têm gasto, não milhares de milhões, mas biliões de dólares numas guerras no Médio Oriente e estão a perder. E parece que nem mesmo o mais rico país do mundo tem nos seus cofres biliões de dólares. Por isso, pediram-nos emprestados. E parece que o seu crédito em 2008 não é tão bom quanto era em 1945. Parece que todos os credores estão hoje relutantes de atirar dinheiro bom para junto de dinheiro mau. Parece que os Estados Unidos podem ir à falência, como o Bear Stearns.

 

Será que os Estados Unidos vão ser comprados pela China, ou pelo Qatar, ou pela Noruega, ou por uma combinação de todos eles a dois dólares ou mesmo a 10 dólares por acção? Que vai acontecer àqueles brinquedos tão caros que os Estados Unidos continuam a comprar, como as bases militares numa centena de países, e aqueles aviões e navios e fantásticas armas que os Estados Unidos constantemente encomendam para substituir os brinquedos de ontem? Quem vai alimentar as pessoas nas filas do pão?

 

Voltem na próxima década, e contem-me.

 

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[1] O termo é usado para as obrigações emitidas por firmas de crédito duvidoso, que atraem investidores devido aos juros elevados. Porém, se o juro é alto, existe também a possibilidade de a firma não poder cumprir as suas responsabilidades financeiras (NT).

[2] Fundos privados de investimento aberto a um conjunto limitado de investidores qualificados (NT).