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02/04/2007 – Entrevista com Seymour Hersh – Matt Taibbi Durante quarenta anos, Seymour Hersh tem sido o principal repórter de
investigação americano. O seu último alvo? O plano secreto da Casa Branca
para bombardear o Irão A 29 de Maio de 1975, um assessor do então Chefe de Gabinete da Casa
Branca, Donald Rumsfeld, sentou‑se com um bloco amarelo e em cuidadosa
caligrafia esboçou uma lista de possíveis respostas a uma prejudicial
reportagem de investigação do The New York Times. «Problema», escreveu
o assessor. «Revelação não autorizada de informação classificada de segurança
nacional por Sy Hersh e o NYT». Enumerou então cinco opções, da mais
agressiva (uma investigação do jornal pelo FBI e uma acusação em tribunal) à
menos ofensiva («conversar informalmente com o NYT» e «Não fazer nada»). O
número três da lista, no entanto, dizia «mandado de busca: ir atrás dos
papéis de Hersh no seu apart». O autor da nota? Um viperino homem do aparelho chamado Dick Cheney,
que estava a ganhar reputação fazendo controlo de danos para a Casa Branca
Republicana após o desastre do Watergate. Surgindo tão pouco tempo após Nixon
ter sido queimado publicamente por fazer o mesmo tipo de ataque a inimigos
políticos, o memorando de Cheney era a prova de que a próxima geração de
líderes republicanos tinha emergido do escândalo Watergate lamentando apenas
uma única coisa: serem apanhados. Este ano, uma nota quase idêntica, com a mesma caligrafia apertada de
Cheney, surgiu como prova central no julgamento de outro poderoso assessor da
Casa Branca, Scooter Libby. As considerações escritas pela mão do vice‑presidente
sobre a melhor forma de se livrar de um crítico da guerra do Iraque chamado
Joe Wilson, são uma sinistra lembrança do pouco que a América mudou nas
últimas três décadas. Então como agora, fomos arrastados para um massacre
sangrento no Terceiro Mundo, pagando a conta da operação com as almas e os
corpos da próxima geração da nossa juventude. É a mesma velha história, e
muitas das mesmas pessoas estão outra vez no comando. Mas algumas das mesmas pessoas estão também no outro lado. Na mesma
semana em que Libby foi condenado num tribunal de Washington, Seymor Hersh
revelou, em The New Yorker, os contornos dos planos secretos da Casa
Branca para uma possível invasão do Irão. Por espantoso que seja o facto de
Cheney ainda andar entre nós, um elo vivo com o nosso escuro passado
nixoniano, é ainda mais espantoso que Hersh continue a ser a maior pedra no
seu sapato, publicando relatos de conversas a que, aparentemente, apenas uma
pessoa escondida na gaveta da secretária do vice teria acesso. «O acesso que
tenho – estou lá dentro», diz Hersh orgulhosamente. «Estou lá, mesmo quando
ele está a falar com pessoas confidencialmente». Proeminente repórter americano de investigação do último meio século,
Hersh expôs a história do massacre de My Lai no Vietname e estava atento,
cerca de quatro décadas depois, quando demos por nós a contemplar no espelho
a mesma cara doente, depois de Abu Ghraib. Com setenta anos de idade, ele
ainda ama claramente a sua profissão. Durante uma longa entrevista no seu
escritório apinhado de Washington, Hersh raramente conseguiu parar quieto, saltitando
pelo escritório como uma criança, para desenterrar velhos artigos, passagens
de livros obscuros e papéis enterrados nas suas múltiplas caixas de arquivos.
Incorrigível obcecado pela informação, ele fica permanentemente excitado pela
ideia de que a corrupção e o poder invisível estão sempre à espera de ser
descobertos pelo próximo telefonema. Algures lá fora, Eles continuam a
esconder‑Nos a história – e isso deixa Hersh furioso. – Durante os anos do Watergate, dedicou muito tempo a Henry Kissinger.
Se escrevesse um livro sobre esta administração, centrar-se-ia na figura de
Dick Cheney? Absolutamente. Se há uma pessoa [tipo] Kissinger hoje, é Cheney. Mas
o que digo sobre Kissinger é: quem dera que tivéssemos um Kissinger hoje! Se
tivéssemos, saberíamos que a loucura de ir para o Iraque teria sido explicada
por alguma coisa – talvez um acordo clandestino sobre petróleo – que
faria algum tipo de sentido. Kissinger sempre teve uma agenda de retaguarda.
Mas no caso de Bush e da sua guerra, só há o que se vê. Compramos muito do
nosso petróleo ao Médio Oriente e ainda assim estamos em guerra com o Médio
Oriente. Não faz sentido. O génio de Kissinger, se quiser, foi que ele conseguiu descobrir uma
forma de sair. O seu problema foi que, tal como com este presidente, ele
tinha um presidente que apenas conseguia ver a vitória à frente. É preciso
dar crédito a Kissinger: ele teve muitas dificuldades com o Nixon para fazer
passar todo o pacote de paz, mas fê‑lo. Agora, muitas pessoas por
dentro sabem que o Iraque acabou, mas não há planos sobre como sair. Nem
sequer é permitido pensar dessa forma. Assim, o que temos agora é um governo
que está numa terrível embrulhada, sem qualquer ideia de como sair. Excepto,
como dizia um dos meus amigos, a ideia de “fuga para a frente” de ir para o
Irão. Portanto, estamos mesmo em grandes apuros. Problemas verdadeiramente
sérios. – O que se tem passado com a administração Bush é comparável ou pior
do que se passou na administração Nixon? Oh, meu Deus. Muito pior. Bush é um verdadeiro radical. Ele acredita
muito avidamente no poder executivo. E também acredita que está a fazer a
coisa certa. Penso que é um revolucionário, um Trotsky. É um crente na
revolução permanente. Por isso, ele é muito perigoso, porque é um míssil
desgovernando, é um rocket sem capacidade de aprendizagem. Não se
consegue mudar o que ele quer fazer. Ele não se consegue desviar da sua
política, e isso é assustador quando alguém tem tanto poder como ele tem, e é
tão radical como ele é, e está tão empenhado na democracia – o que quer que
isso queira dizer - como ele no Médio Oriente. Eu realmente acredito que é
isso que o move. Isso não quer dizer que ele não esteja interessado em
petróleo. Mas eu penso realmente que ele acha que a democracia é a resposta. – Muitas pessoas interpretaram o seu último artigo na The New Yorker como uma previsão de que
vamos entrar no Irão. Mas também deixa claro que os sauditas têm razões para
nos impedir de atacar o Irão. Eu nunca disse que vamos – apenas que o planeamento está a ser feito.
Planear é planear, claro. Mas, nas últimas semanas, tornou-se ininterrupto.
Eles estão numa posição neste momento em que o Presidente podia acordar e
coçar o seu, uh... – O seu, quê? O seu nariz, e dizer, “vamos”. E eles iam. Isso é novo. Tornámos a
coisa mais próxima. Temos grupos de transporte lá. Não se trata de entrar por
terra. Se bem que, se avançássemos, teríamos de levar marines para as áreas
costeiras do Irão para aniquilar as suas bases de mísseis anti-navios. – Então, a noção de que seria apenas uma campanha de bombardeamentos,
não é de todo verdadeira? Oh, não. Não se esqueça de que se teria de destruir um sistema de
radar muito sofisticado e o sistema de controlo dos seus mísseis. Teria de se
acabar com a capacidade dos iranianos de atacar os nossos navios. – Então este é o plano de “fuga para a frente”? Penso que Bush quer resolver a crise iraniana. Pode não ser uma
crise, mas ele quer resolvê-la. – A outra implicação do seu artigo é que nós fomos para o Iraque em
resposta ao extremismo sunita, e agora estamos a realinhar-nos com os
extremistas sunitas para lutar contra os xiitas. É realmente assim tão
simples? Somos assim realmente tão estúpidos? Pelo que pude perceber, não há nenhum mecanismo concreto na
administração para ver o lado negativo das coisas. No exército, quando fazem
um estudo aprofundado, dizem qualquer coisa como: "Entregamos-lhe com os
prós e contras». Habitualmente mostram-lhe os pontos negros e tudo. Mas estas
pessoas na Casa Branca não querem os pontos negros. Querem apenas o lado bom.
Acho que eles não conhecem todas as consequências. – Isso parece ser algo que Bush e Nixon têm em comum: A Casa Branca
ignorando toda a gente e a tentar governar para si mesma. Uma das coisas que esta administração mostrou foi como a democracia é
frágil. Todas as instituições que pensávamos que iam proteger-nos –
particularmente a imprensa, mas também o exército, a burocracia, o congresso
– falharam. Os tribunais... o júri ainda não entrou nos tribunais. Portanto,
todas as coisas que pensávamos que normalmente nos iam salvar, não o fizeram.
A maior falha, eu diria, é a imprensa, porque é a mais chocante. – Nos anos de Nixon, a imprensa voltou-se contra a guerra do Vietname
depois da Ofensiva de Tet, houve o Watergate, houve todas aquelas razões
pelas quais a imprensa se envolveu em levar ao fim da administração Nixon.
Mas não tem tido essa função no caso de Bush. Porque pensa que isto acontece? Não sei. É muito desencorajante. Tive conversas com pessoas em altos
cargos do meu antigo jornal, o Times, que sabem que há aí sérios
problemas. Não é que eles não devessem publicar as histórias que publicam.
Eles publicam artigos que representam a visão do governo, porque há pessoas
no Times que têm acesso a pessoas em altos cargos no governo. Eles
encontram-se com a Conselheira de Segurança Nacional, encontram-se com
Condolezza Rice e têm de reflectir a sua visão. É o seu trabalho. O que não é
reportado é o outro lado. O que eu sempre gostei no Times, quando
trabalhei lá, é que podia escrever o que os miúdos do fim da linha diziam.
Mas isso agora não acontece. Não estamos a ter uma cobertura alargada da Casa
Branca que represente qualquer coisa que se pareça com oposição. E há
oposição – a imprensa apenas não sabe como lidar com ela. – Mas porque não há uma maior revolta da opinião pública face às
atrocidades cometidas pelas tropas americanas? As pessoas tornaram-se
insensíveis a essas histórias ao longo dos anos? Penso que é apenas porque eles são iraquianos. Temos de dar a Bill
Clinton o que lhe é devido: quando ele bombardeou o Kosovo em 1999, tornou-se
o primeiro presidente desde a Segunda Guerra Mundial a bombardear brancos.
Pense nisso. Quer isso dizer alguma coisa? É apenas um acaso, ou é um
subproduto inevitável da supremacia branca? O fardo do homem branco? Diga-me
você o que é, eu não sei. – Fala bastante sobre as semelhanças entre o Iraque e o Vietname: como
Lynndie England é a nova Te. Calley, como se trata de miúdos brancos
americanos de classe média-baixa a matar pessoas não‑brancas no
estrangeiro. Sim, há esta semelhança – mas porque está este mesmo tipo de
guerra a acontecer outra vez? É um padrão intrínseco à forma como o nosso
governo funciona? Não sei. Porque iríamos para a guerra quando não temos de ir para a
guerra? É preciso muito pouca coragem para entrar em guerra. É preciso muita
coragem para não entrar em guerra. Uma vez tive um amigo – isto foi há trinta anos – de uma grande
universidade. Ele estudava o problema científico que o governo tinha na
detecção de testes subterrâneos de mísseis na Rússia. Levou-lhe um par de
anos, mas ele resolveu o problema. Nessa altura, a Junta de Chefes de Estado-Maior
era contra qualquer tratado com os russos sobre os testes, porque não
podíamos detectar quando eles faziam batota. O meu amigo foi a uma reunião da
Junta de Chefes de Estado-Maior e demonstrou de forma conclusiva que havia
uma forma técnica de monitorizar explosões de mísseis dentro da Rússia, mesmo
sem estar no local. Mas quando a reunião acabou, eles apenas suspiraram e
disseram: «Bom, agora é melhor voltarmos a uma objecção política ao tratado».
Onde tinha havido uma objecção científica a um tratado, havia agora uma
objecção política. Então começa‑se a ver que lutar pela paz é muito
difícil. A segurança está nos bombardeamentos, em vez de nas negociações. É
muito triste. – A América aprendeu alguma coisa com o Vietname? Houve alguma lição
na forma como a guerra acabou, que poderia ter evitado o início desta guerra? Quer dizer aprender com o passado? A América? – Sim. Não. Fizemos o mesmo erro estúpido. Um dos argumentos para entrar no
Vietname era que tínhamos de travar os comunistas chineses. Os chineses
estavam por detrás de tudo – víamo-los a eles e ao Vietname do Norte como uma
e a mesma coisa. Na realidade, é claro, os chineses e os vietnamitas
odiavam-se – tinham lutado uns contra os outros ao longo de 1.000 anos.
Quatro anos após o final da guerra, em 1979, eles entraram numa feia
guerrinha entre si. Portanto, estávamos completamente errados sobre toda a
premissa da guerra. E é a mesma estupidez nesta guerra, com Saddam e os
terroristas. Por outro lado, eu concordaria que alguns dos principais
operacionais, os tipos Cheney, aprenderam muito sobre como gerir a situação e
sobre como esconder coisas ao longo destes anos. – Da imprensa? Oh, vá lá, até que ponto é difícil esconder coisas da imprensa? Eles
não se preocupam muito com a imprensa imparcial. O que estes homens
descobriram foi que enquanto tiverem a Fox e a imprensa radiofónica, estão
bem na opinião pública. Controlam-nos fortemente. Foi o que manteve a “bola
no ar” no Iraque por mais dois anos do que devia, e custou a Kerry a presidência.
Mas agora acabou – o Iraque está arrumado. Muitos dos conservadores que
promoveram a guerra estão agora fortemente contra ela. Muitos dos colunistas
desta cidade que fizeram soar os tambores da guerra, devem realmente um
pedido de desculpas. É um período triste para a imprensa americana. – O que pode ser feito para reparar a situação? [Longa pausa] Teria de se despedir ou executar noventa por cento dos
editores e directores. Teria realmente de se começar a promover a editores pessoas
das redacções, não consideradas controláveis. E eles não vão fazer isso. – Qual é a principal lição que tira, recordando a história americana
dos últimos 40 anos? Não há nada para recordar. Estamos agora a lidar com os mesmos
problemas com que lidávamos então. Sabemos pelos documentos do Pentágono – e
para mim eles foram os documentos mais importantes jamais escritos – que a
partir de 1963, Kennedy e Johnson e Nixon nos mentiram sistematicamente sobre
a guerra. Lembro‑me de como fiquei chocado quando os li. Portanto...
nada mudou. Eles apenas se tornaram melhores a lidar com a imprensa. Nada
mudou de todo. |