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15/02/2007 Fuga em frente de Bush
para o Irão? Immanuel Wallerstein Os franceses têm a expressão fuite en avant
(...). Uma fuite en avant é algo que alguém faz quando está numa
situação de perda, e espera salvar-se fazendo mais do mesmo ou ainda pior,
criando assim uma situação na qual se espera que as pessoas sintam que têm de
apoiá-lo. Será esta a intenção de Bush em relação ao Irão? Sabemos duas coisas sobre o regime de Bush. A sua
posição no Iraque é impossível e está actualmente sob enorme contestação
mesmo no interior dos Estados Unidos. O apelo para a retirada cresce
diariamente e vem de todo o mundo. E sabemos que, desde 2001, os neocons e
Cheney estão a fazer pressão para um ataque militar ao Irão, com o objectivo
de mudar o regime do país. Por isso, poderia ser este o momento. Os Estados Unidos enviaram a sua frota para a região, e
puseram no comando um almirante conhecido pela sua competência em ataques
mar-ar. Os Estados Unidos estão a fazer declarações praticamente todos os
dias acerca de alegados delitos iranianos. Em poucas palavras, os Estados
Unidos estão a tinir os sabres. Além disso, um grande número de pessoas
parece levar isto muito a sério. Três dos militares americanos de mais alta
patente na reforma fizeram advertências públicas contra a loucura de atacar o
Irão. O mesmo fez Zbigniew Brzezinski, que dificilmente poderia ser
classificado de pomba. O mesmo fizeram inúmeros políticos e diplomatas de
todo o mundo. Mas Cheney deixou claro que o governo dos Estados Unidos vai
fazer o que lhe apetecer, seja qual for o número de opositores, ou sejam eles
quem forem. Alguém vai apoiar os Estados Unidos nesta aventura? Na
verdade, muito poucos. O Congresso dos Estados Unidos não vai, apesar de Bush
e Cheney poderem estar a contar com o facto de que será mais difícil aos
democratas oporem-se-lhes em relação ao Irão do que em relação ao Iraque. Vão
ter o apoio do governo de Israel. E parecem estar a contar com o apoio dos
sauditas. Mas isto é não compreender a posição saudita. Os sauditas estão
evidentemente preocupados em limitar as pretensões iranianas à hegemonia na
região, assim como em conter as possibilidades da militância xiita nos
Estados dominados pelos sunitas, e antes de tudo na Arábia Saudita. Mas os
sauditas também deixaram claro que um ataque militar ao Irão vai prejudicar
mais que ajudar os seus objectivos políticos. A activa mediação saudita na
disputa Hamas-Fatah na Palestina indica que estão a tentar distanciar-se
claramente da estratégia dos Estados Unidos no Médio Oriente. E, na Europa,
até os britânicos estão a tornar público o seu desacordo em relação à ideia
de um ataque ao Irão. Vamos então supor que, apesar de tudo isto, Bush e
Cheney decidem fazer a sua fuga em frente para a guerra, a fuite en avant
para tentar salvar a sua situação desastrosa. O que iria acontecer, e por que
fariam isso? O que aconteceria, parece claro. Um ataque aéreo ao Irão não vai
cumprir o objectivo de desmantelar o programa nuclear iraniano, apesar de
poder causar-lhe danos. Mandar tropas, se os Estados Unidos conseguirem
reuni-las, levaria a um muito alto índice de mortalidade americano. O governo
iraniano seria fortalecido politicamente – em casa e em todo o mundo
islâmico. Os russos e os chineses iriam apoiar o Irão de facto. E, pior de tudo para os Estados Unidos, aqueles que
consideram os seus maiores aliados iraquianos iriam começar a vociferar pela
retirada imediata dos Estados Unidos do Iraque. O ex-primeiro-ministro
Ibrahim al‑Jaafari já começou a seguir esse caminho. Ninguém no
Iraque, ninguém, quer que os Estados Unidos ataquem o Irão, e ninguém
emocionalmente está do lado dos Estados Unidos nesta questão. Ora eu penso que Cheney é um político inteligente, que
consegue ver tudo isto. Se isso é verdade, por que estaria ele, mesmo assim,
empurrando para a guerra? Poderíamos nós trabalhar com a ideia de que criar
um ainda maior desastre para os Estados Unidos parece-lhe a melhor opção
disponível para completar os seus reais objectivos políticos? Cheney (e Bush) sabem que vão controlar o governo dos
Estados Unidos por apenas mais dois anos. Depois disso, não sabem quem estará
no poder, mas têm todas as razões para duvidar que sejam os seus clones. A
última coisa que querem é uma transferência pacífica de poder para alguém que
possa desmantelar o que eles construíram e tentar, sequer tentar, trazer os
Estados Unidos de volta onde estavam – doméstica e internacionalmente – nos
anos de Nixon a Clinton. Eles procuram aumentar, não reduzir, o conflito interno
nos Estados Unidos. Querem desmantelar ainda mais o quadro de liberdades
civis, que nunca foi perfeito mas que permitiu alguns constrangimentos ao
poder governamental. Querem mais retrocessos na arena dos direitos sociais.
Querem uns Estados Unidos mais escuros num mundo mais escuro. Alguém pode pará-los? Possivelmente. Existe hoje uma resistência bastante espalhada e barulhenta dentro das forças armadas. Pela primeira vez na minha vida, vi especulações na imprensa sobre um golpe militar. Duvido que ocorra, mas o próprio facto de haver especulações mostra quão extenso é o problema. E há a resistência dos políticos, que são essencialmente, na sua maior parte, centristas moderados cuja maior preocupação é manter as suas posições eleitorais e que acompanham a direcção para onde soprar o vento dos seus eleitores. Será isto suficiente? É difícil dizer, mas vamos vê-lo mais claramente nos próximos dois ou três meses. |