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27/01/2007 Seis
anos depois: Voltará Bin Laden a ajudar Bush a recuperar a sua popularidade perdida? Roberto Montoya Por ocasião do discurso do Estado da União de George W.
Bush do passado dia 23 de Janeiro, muitos meios de comunicação recordaram que,
salvo dois presidentes dos EUA, Harry Truman, durante a Guerra da Coreia, e
Richard Nixon, em pleno escândalo do Watergate, nenhum tinha antes chegado a
cair 28% no seu nível de popularidade como ele nestes dias. Alguns cronistas
cometeram, no entanto, o erro de valorizar a queda de Bush filho, em mais de
60 pontos em seis anos, tomando como referência de partida o momento em que
assumiu o poder a 20 de Janeiro de 2001 e pronunciou o seu primeiro discurso
sobre o Estado da União, comparando‑o com o que realizou há dias
atrás, em 2007. E aí está o erro nessa tentativa de paralelismo. É verdade
que Bush atingiu 90% de popularidade em 2001, mas não os tinha ainda ao
assumir o poder, obteve‑os somente após o 11-S, depois de anunciar a sua
cruzada antiterrorista planetária e indefinida no tempo. Todos reconhecem que nos EUA, e em boa parte do mundo,
em grande medida há um antes e um depois do 11‑S e isto chega a tal
ponto que muitas vezes se esquece como era Bush filho antes dessa data e como
chegou à Presidência do país mais poderoso do planeta; que imagem tinham dele
boa parte dos seus cidadãos e os próprios líderes dos principais países
aliados dos EUA antes daquele fatídico 11-S. Um dia que, paradoxalmente,
apesar de ter sido um golpe tão terrível para a sociedade norte-americana,
representou ao mesmo tempo uma oportunidade de ouro para esse aspirante a
César do século XXI. George W. Bush foi dado como vencedor das eleições
presidenciais de Dezembro de 2000, apesar de o seu adversário, o candidato
democrata Al Gore, ter obtido mais 300.000 votos populares, graças a ter
beneficiado do polémico e ainda vigente sistema eleitoral norte-americano, e
à controversa e prolongadíssima recontagem de votos que revelou perante a
opinião pública mundial um sistema arcaico, digno de uma república das
bananas, a que se somaram as ensaboadelas pouco claras das autoridades e
tribunais da Flórida, onde – oh casualidade! – Jeb Bush era, e é, governador.
Após cinco semanas de incerteza, o Tribunal Supremo deu a vitória ao actual
presidente, sem convencer um sector muito amplo da população sobre a sua
legitimidade. “Parem o ladrão!” gritavam muitas das 20.000 pessoas que se
manifestaram em Washington, a 20 de Janeiro desse ano, enquanto Bush jurava
como presidente número 43º dos EUA sobre a mesma Bíblia escolhida por George
Washington em 1789. Esse antecedente de irregularidade eleitoral fez com que
nas eleições seguintes, as de finais de 2004, pela primeira vez na história dos
EUA, congressistas democratas solicitassem a presença de observadores independentes
supervisionados pelas Nações Unidas para evitar que se repetisse uma situação
similar. Face a isso, o Partido Republicano aprovou um projecto de lei pelo
qual se proibiu expressamente ao Governo proporcionar fundos à ONU para pagar
o trabalho dos observadores. Finalmente, o subsecretário de Estado, Paul
Kelly, procurou uma postura mediadora, e a 9 de Agosto enviou uma carta aos
13 congressistas democratas notificando‑os que o Departamento de
Estado tinha convidado para as eleições do dia 2 de Novembro (de 2004) um
grupo de observadores da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE),
da qual os EUA são membros. Durante os primeiros meses do primeiro mandato de Bush filho,
quando o mundo ainda estava bem longe de imaginar que nos EUA se pudesse
produzir algo como um 11-S, as anedotas sobre a sua incultura geral e sobre o
desconhecimento sobre política externa que manifestava deram lugar a
numerosos artigos nos meios de comunicação. Compilações das suas gafes mais
sonantes foram publicadas em vários livros. O comentarista do New York
Times Bob Herbert fazia a seguinte comparação entre Bush e Clinton: «O
presidente (Bush), para dizê‑lo da forma mais suave possível, não
parece demasiado comprometido com o difícil trabalho de ser presidente». E
acrescentava: «Quando Clinton tinha algum tipo de problema, sempre podia apoiar‑se
na sua inteligência, no seu instinto político e capacidade de trabalho, de
comunicação». «Mas esses não são precisamente os pontos fortes do senhor
Bush», concluía. Os índices de popularidade de Bush filho não eram,
evidentemente, de 90% quando assumiu o poder a 20 de Janeiro de 2001, nem o
eram meses depois, nem até um dia antes do 11-S. Em concreto, a 10 de
Setembro de 2001, George W. Bush registava 51% de índice de popularidade, e
foi precisamente com os atentados cometidos no dia seguinte pela Al Qaeda, a
organização paradoxalmente criada por Osama bin Laden, aliado da CIA no
Afeganistão nos anos 80 contra as tropas soviéticas, que conseguiu que a sua
popularidade disparasse para 90%. Esse foi um dos níveis mais altos jamais atingidos por
um presidente estadunidense. John F. Kennedy obteve 83% de índice de
popularidade em 1961, também paradoxalmente, depois de fracassar de forma
estrepitosa na sua tentativa de invadir Cuba. Apesar de a invasão da Baía dos
Porcos ter sido feita com cerca de 2.000 mercenários (boa parte deles
pertencentes às tropas do tirano Fulgencio Batista, derrotado dois anos antes
pela Revolução), armados e financiados pelos EUA, apoiados por barcos e
aviões, foram derrotados pelas forças revolucionárias cubanas em apenas 72
horas. A 20 de Janeiro de 2002, um ano depois de chegar ao
poder, o milagre continuava. George W. Bush contava com 83% de popularidade.
Só Harry Truman tinha conseguido um índice semelhante após 12 meses no poder. Bin Laden, considerado um “lutador pela liberdade” duas
décadas antes por Ronald Reagan, transformava‑se duas décadas depois
num boomerang contra os EUA, passava a ser supostamente o seu pior
inimigo, mas ao mesmo tempo no “balão de oxigénio” para Bush. Foi a partir do
11-S que Bush atingiu pela primeira vez esses 90% de popularidade, que lhe
vão permitir, a galope do espírito patriótico e da frente unida nacional
contra o inimigo comum, levar por diante uma série de medidas na ordem
interna impensáveis sem essa ajuda que Bin Laden de novo prestava a um
presidente republicano. Assim, não somente Bush não encontraria uma só fissura
no interior do seu próprio partido, como também não encontraria oposição no
Congresso da parte do opositor Partido Democrata para levar avante os seus
mastodônticos orçamentos militares, as suas repressivas leis antiterroristas,
como a Patriot Act, que de disposições temporárias acabaram transformando‑se
em leis permanentes, retalhando drasticamente as leis democráticas mais
elementares dos cidadãos. A elas seguir-se-iam também a luz verde dada pelos
democratas a Bush para a guerra no Iraque; a não oposição a esse campo de
concentração do século XXI que é a base de Guantánamo; aos sequestros e
traslados de numerosos prisioneiros para centros de tortura nos sinistros
voos na frota da CIA; e a um larguíssimo etc. A nível externo, o acentuado unilateralismo que
caracterizou o primeiro mandato de Bush desde o próprio momento em que assumiu
o poder, quase oito meses antes do 11-S, tinha provocado o alarme e as
críticas dos principais líderes de países europeus tradicionalmente aliados
dos Estados Unidos. Nos últimos dias do seu mandato, Bill Clinton quis dar um
toque multilateralista ao seu Governo, que na realidade nunca teve tais
características e eludiu assinar os tratados mais comprometidos tanto de
defesa do meio ambiente, como da infância, ou da justiça universal, e nem
sequer saldou as enormes dívidas dos EUA com a ONU. Mas nos últimos dias,
Clinton deixou mais que uma batata quente ao seu sucessor. Foi assim que se
mostrou partidário de que se ratificasse o Protocolo de Roma com base no qual
avançaria o Tribunal Penal Internacional (TPI, para julgar genocídios, crimes
de guerra e contra a humanidade); decidiu proteger 60 milhões de acres de
bosques nacionais, irritando a grande indústria madeireira nacional;
mostrou-se partidário de assinar o Protocolo de Quioto, e outra série de
medidas que provocariam a ira de Bush. Este faria exactamente o contrário
desde o primeiro momento. Não só recusou terminantemente a ratificação do TPI,
como se transformou num feroz inimigo dele, e John Bolton (posteriormente seu
embaixador perante a ONU) criou a fórmula perfeita para sabotá‑lo e
evitar que qualquer dos cerca de 200.000 soldados, agentes da CIA ou
mercenários ao seu serviço a trabalhar no estrangeiro, pudessem ser em algum
momento levados perante o banco dos acusados do TPI por ter cometido algum
dos delitos da competência desse tribunal. Para isso criou os BIA, os acordos bilaterais dos EUA
com dezenas de governos que fazem parte do TPI, chantageando‑os para
que em caso algum denunciassem as suas tropas ou agentes assentados nesses
países, ainda que cometessem esse tipo de delitos. Aqueles países que
aceitaram assinar tais acordos conseguiram em troca um tratamento
privilegiado nas relações com os EUA. Os que se negaram a assiná-lo perderam no
entanto acordos de cooperação comercial e/ou de ajuda militar e,
paradoxalmente, inclusive de ajuda na luta contra o terrorismo. Mas todo este tipo de medidas adoptadas nos primeiros
de governo de Bush, com anulações de importantes acordos de segurança
internacionais, ou tratados comerciais que provocaram sérias fricções com
países aliados, diluíram‑se com o 11-S. A invocação da luta do “Bem”
contra o “Mal” feita por Bush logrou o seu efeito, a NATO fez frente comum, o
aspirante a César sentiu que estava bem mais perto do seu objectivo. Depois,
os seus aliados secundaram‑no no Afeganistão, alguns também no Iraque,
e os que o não fizeram limitaram‑se a criticá-lo somente antes de se
iniciar a guerra, mas depois calaram a sua voz. Paradoxalmente, quando a própria ONU reconhece agora,
em 2007, que anualmente morrem 35.000 civis no Iraque, quando o país já está
totalmente fora de controle, e ninguém sabe como fechar a caixa de Pandora
aberta pelos EUA, não se ouvem já críticas de países como a França, a Alemanha
ou a Rússia, que no início de 2003, com razão, alertavam sobre os perigos e a
ilegalidade de uma intervenção no Iraque. Agora não dizem nada. Os iraquianos
estão abandonados à sua sorte. Estes países parecem agora preocupados em observar os
próximos passos dos EUA relativamente ao Irão, só para saber quanto podem
afectar os seus próprios interesses energéticos, as suas próprias empresas e
as sua própria segurança. Pode-se confiar que o facto de que as duas Câmaras nos
EUA estejam agora nas mãos do Partido Democrata fará mudar realmente as
coisas de forma radical, para lá desta ou daquela medida adoptada pontualmente
por este partido com claro propósito eleitoral? Parece fácil criticar agora
Bush pelos erros cometidos no Iraque, golpear a árvore caída, quando está com
28% de popularidade, mas o facto de, durante os últimos seis anos, os
democratas terem sido cúmplices de uma política tão nefasta para o mundo, não
se pode esquecer ao ouvir o seu discurso e as suas promessas. Também não se pode esquecer o que foi o último mandato democrata,
o de Bill Clinton, em termos de política externa. Foi ele precisamente quem
cedeu à chantagem, às acções provocadoras da gusanera Irmãos ao
Resgate e do lobby de Miami no Congresso norte-americano, e quem acabou
por assinar em 1996 a cruel Lei para a Liberdade e Solidariedade Democrática
Cubana, conhecida como Lei Helms-Burton, contra Cuba. Dita lei, por outro
lado, foi elaborada não só pelo senador republicano de extrema-direita Jesse
Helms, da Carolina do Norte, como também pelo senador do Partido Democrata
pelo Illinois Dan Burton. Apesar de outra lei anterior contra Cuba, a Lei
pela Democracia em Cuba, mais conhecida como Lei Torricelli, ter sido
promulgada durante o Governo de Bush pai em 1992, em plena campanha
eleitoral, Bill Clinton, depois de votar a favor dela, declarou: «É um dia
importante na causa da democracia em Cuba». E não é caso para menos do que
estar orgulhoso. O projecto de lei não tinha sequer sido apresentado neste
caso por senadores dos dois partidos, como depois aconteceria com a
Helms-Burton, mas nada menos do que por dois senadores do Partido Democrata,
Robert Torricelli, de New Jersey, e Bob Graham, da Flórida. Foi também durante o mandato de Bill Clinton, em 1994,
que se puseram em marcha as Cimeiras das Américas e o lançamento da ALCA,
como forma de renovar em finais do século XX os laços de dependência da
América Latina com o Império. O que foi a intervenção dos EUA na Somália em 1993 sob
o Governo de Clinton senão uma mostra do que nunca se pode fazer, ir a uma
missão humanitária entrando em combate abertamente a favor de uma das partes,
sair derrotado militarmente (como mostrou o filme Black Hawk Down), e
abandonar o país precipitadamente deixando‑o entregue à sua sorte, afundado
no caos mais absoluto? Estas e outras aventuras de Clinton no exterior,
convenientemente revestidas de intervenções humanitárias, parecem hoje em dia
pequenezes comparadas com o terrorismo de Estado planetário que o Império vem
levando a cabo desde 2001, sob a era Bush, mas nem por isso podem ser
passadas por alto. Um genocídio não pode deixar de fazer com que um simples assassinato ou a cumplicidade com ele também seja condenável. |