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11/01/2007 O “gulag” caribenho dos Estados Unidos: Cinco anos de limbo legal Roberto Montoya El
Mundo; traduzido de Rebelión No dia 11 de Janeiro de 2002, o Pentágono transladou
um primeiro grupo de prisioneiros desde o Afeganistão até à sua base em Cuba,
negando-lhes até hoje todo o tipo de direitos. Faz hoje exactamente cinco anos que chegaram ao centro
de detenção da Estação Naval da Base de Guantánamo, após uma viagem
interminável desde o Afeganistão, dezenas de fantasmais figuras anónimas metidas
em fatos-macacos cor‑de‑laranja... não por casualidade a mesma
cor utilizada para os presos do corredor da morte nos Estados Unidos. Nas
imagens que nesse dia percorreram o mundo viam-se ajoelhadas perante as suas
celas de rede do provisório Camp X-Ray sob o inclemente sol do Caribe, com as
suas mãos manietadas e metidas em grossas luvas para lhes impedir o tacto,
orelheiras para que não ouvissem, enormes óculos opacos para que não vissem e
máscaras cirúrgicas para que nem saboreassem nem cheirassem; a conhecida
técnica de privação sensorial. Ao contrário de outras fotos tão terríveis e humilhantes
como estas, que também irromperiam nos ecrãs e nas portadas de todo o mundo
algum tempo depois, no dia 30 de abril de 2004 – as dos prisioneiros
iraquianos da prisão de Abu Ghraib, tiradas, como disse em seu momento Donald
Rumsfeld, por umas perversas maçãs podres da Polícia Militar –, as de
Guantánamo eram fotos oficiais, realizadas e distribuídas pelo mesmíssimo
Pentágono. Como denunciou em seu momento Mary Robinson, então Alta
Comissária da ONU para os Direitos Humanos, com esse simples facto mostrava
já a sua violação de normas elementares das Convenções de Genebra. Contudo,
para George W. Bush, os mais de 700 prisioneiros que passaram por Guantánamo,
tal como todos os capturados no Afeganistão ou os que foram sequestrados e
transladados pela CIA na sua frota de aviões civis para algum centro de
tortura no âmbito da guerra contra o terror, não podem acolher‑se aos
direitos reconhecidos pelas Convenções de Genebra para os prisioneiros de
guerra desde 1950. Dois meses antes da chegada dos primeiros prisioneiros a
Guantánamo, Bush decidiu unilateralmente, por meio da Ordem Militar “Detenção,
Tratamento e Julgamento de certos não cidadãos na Guerra contra o Terrorismo”,
negar‑lhes esse direito, ao estabelecer para eles a nova categoria
jurídica de «combatentes inimigos». Entre outras cláusulas, na número 7 dessa Ordem
estabelece-se que o detido não tem, em nenhum caso, direito a recorrer a
nenhum tribunal «nem nos EUA nem em nenhum outro país nem perante um tribunal
internacional». Só pode ser julgado por tribunais especiais constituídos por
três oficiais, que podem condená‑lo à morte, e é‑lhe atribuído
um advogado militar oficioso, que pode negar‑lhe informação do
próprio sumário que considere sensível para a segurança nacional. Apesar de no
dia 30 de Junho passado todos os meios de comunicação terem anunciado com
grandes títulos a decisão do Tribunal Supremo dos EUA que considerava
«inconstitucionais» e «ilegais» esses tribunais, a Ordem Militar ainda
continua em vigor. Rob Freer, investigador da Amnistia Internacional
especializado nos EUA e autor do documento “Estados Unidos da América, cinco
anos no lado escuro”, hoje publicado, recorda que esse país ratificou o Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos em 1992, na época de Bush pai, e
a Convenção contra a Tortura, em 1994, sob a Presidência de Clinton. «Durante pelo menos os quatro primeiros anos de
detenções no contexto da guerra contra o terror, os advogados do Departamento
de Justiça argumentaram que, devido a ditas reservas, os EUA não tinham
obrigação alguma, em virtude de nenhum tratado, relativamente aos tratamentos
cruéis, desumanos ou degradantes de cidadãos estrangeiros enclausurados fora
do território nacional (incluído Guantánamo) sob custódia estadunidense.
Ainda que o Congresso tenha aprovado a Lei sobre o Tratamento dos Detidos em
2005, que proibia os ditos tratamentos, as reservas continuaram em vigor,
permitindo eludir a dita lei», acrescenta Freer. Apesar da sua débil situação política, o Governo Bush
não está disposto a ceder perante as pressões para que feche o centro de detidos
da base de Guantánamo e no dia 8 de Dezembro passado foi anunciada a
construção do Camp 6, composto por outras 168 celas. Pouco antes, no dia 18
de Outubro, Bush conseguiu também levar por diante no Congresso uma lei que confere
nada menos que a ele, pessoalmente, a capacidade para «interpretar o
significado e a aplicação das normas internacionais para o tratamento dos
prisioneiros».
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