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01/01/2007 Que nova estratégia para o Iraque? Immanuel Wallerstein O presidente George W. Bush vem proclamando desde há um mês que está
à procura de uma “nova estratégia” para a “vitória” no Iraque, e que está a
fazer consultas amplas sobre que estratégia deve ser essa. Dadas todas as
pistas e informações que chegam, são poucos os que estão de respiração
suspensa à espera do discurso presidencial que vai revelar as suas decisões.
A nova estratégia promete ser a velha estratégia, talvez com a diferença de
um pequeno aumento de tropas americanas em Bagdade. É verdade que o presidente admitiu pela primeira vez que os Estados
Unidos ainda não estão a ganhar no Iraque, mas, diz ele, também não estão a
perder. O número de pessoas que acredita nisto, nos Estados Unidos e fora, é
cada vez menor. Um sondagem feita no início de Dezembro em seis nações
ocidentais mostra que 66% dos americanos estão a favor da retirada das forças
da coligação, e na Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, estes
números vão de 73% a 90%. Como o Financial Times disse num editorial,
«Raras vezes os Estados Unidos tiveram tanta necessidade de amigos e de
aliados». E, em 7 de Dezembro, aniversário de Pearl Harbour, um senador
republicano, Gordon Smith, que tinha apoiado a guerra desde o início,
anunciou a mudança de posição. «Eu, pela minha parte, estou no fim da linha
quando se trata de apoiar uma política que mantém os nossos soldados a
patrulhar as mesmas ruas, da mesma maneira, fazendo‑se explodir pelas
mesmas bombas, dia após dia. Isto é absurdo. Pode até ser criminoso. Já não
posso apoiar mais isto.» Por que está Bush a fazer esta grande encenação sobre uma nova
estratégia, quando tenciona claramente continuar a antiga? Duas razões: as
eleições de Novembro, e o relatório Baker-Hamilton. As eleições mostraram a
Bush que a política do Iraque causou um sério desgaste na força eleitoral do
Partido Republicano. Será claramente preciso mais do que despedir Donald
Rumsfeld para reverter a actual queda livre dos candidatos republicanos,
particularmente se 2007 trouxer aumento nos números de baixas no Iraque, se
trouxer uma limpeza étnica crescente, uma maior queda do dólar e um maior
declínio dos padrões de vida dos 80% mais pobres da população dos EUA. Quanto ao relatório Baker-Hamilton, a sua frase inicial é «A
situação no Iraque é grave e está a deteriorar‑se». Discutiu-se muito
se este relatório do Grupo de Estudos do Iraque poderia convencer Bush a
seguir as suas inúmeras, e nem todas ousadas, sugestões de mudança. Mas este nunca foi o seu objectivo. Nem Baker
nem Hamilton são bobos. Ambos são velhos profissionais da política dos EUA. O
objectivo do relatório era legitimar as críticas do establishment
tradicional do centro da vida política americana, e claramente conseguiu-o.
Observem a declaração do senador Smith. Observem o crescente arrojo dos oficiais
militares quando tornam público o seu cepticismo. O que vai então acontecer? Bush vai optar pelo plano de ampliar o
número de tropas americanas. Como foi assinalado por todos os comentadores sérios,
isto não vai fazer qualquer diferença. Claro, se os EUA mandassem 300 mil
soldados, talvez conseguissem esmagar tanto a insurgência quanto a guerra
civil. Mas enviar mais 30 mil soldados será uma incrível pressão sobre o
estado e a moral dos militares americanos. Em Junho de 2007, o mais tardar,
ficará claro até para o mais teimoso cego, como George W. Bush e os
neoconservadores sobreviventes, que os Estados Unidos estão num beco sem
saída e feridos de morte. Mas então porque é que Bush não abandona logo esta estratégia que
tanto prejuízo lhe dá? Não pode. Toda a sua presidência gira em torno da
guerra do Iraque. Se ele tentar reduzir as perdas, estará a admitir que é o
responsável por um desastre nacional. Por isso, não tem escolha senão tentar
prosseguir o bluff até 2009, e entregar o desastre a outro. Quer
dizer: não há escolha que seja aceitável por ele. Mas Bush vai aprender uma
coisa nos próximos 18 meses. A situação está fora de controle e até o
presidente dos Estados Unidos pode ser forçado a fazer coisas que acha
abomináveis. Em primeiro lugar, há a pressão do eleitorado dos EUA e
consequentemente dos políticos. O número de republicanos racionais e de
democratas tímidos que querem distância da guerra cresce diariamente. Já
podemos observar este fenómeno nas declarações do senador Joseph Biden – um
dos senadores democratas mais conservadores, e próximo presidente da Comissão
de Relações Exteriores do Senado – de que fará audições (audições claramente
hostis) sobre os objectivos de um aumento de tropas no Iraque. O meu palpite
é que, na acalorada disputa democrata sobre a nomeação presidencial, haverá
um impulso – lento no início e depois muito acelerado – para uma posição
abertamente antiguerra. Vemos isto nas posições que estão a ser assumidas
pelos aspirantes à nomeação Barack Obama e John Edwards. Hillary Clinton não
estará muito tempo atrás deles. E, quando isso acontecer, ou os aspirantes
republicanos seguem o mesmo caminho ou condenam‑se à derrota
eleitoral. Além disso, há os generais. Parece que o novo Secretário da Defesa,
Robert Gates, recebeu o encargo de pôr os militares dissidentes na linha. O
general John Abizaid vai-se “reformar” dentro de poucos meses e o general
George Casey tem atenuado a sua oposição aberta. O próprio Gates teve
provavelmente de engolir muitos sapos para seguir esta política. Quanto tempo
isto vai durar? Seis meses no máximo. A vida é difícil para um comandante-em-chefe que perde as guerras. Isto vale para todos os lados e todos os tempos. Não vai ser diferente nos Estados Unidos da América. |