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Estados
Unidos da América |
23/12/2006
A mãe de todas as batalhas José Manuel Pureza O ano de 2006, para os
Estados Unidos, viveu-se no Iraque. A guerra e a derrota política e militar
norte‑americana foram não só o facto maior da agenda política
norte-americana mas o catalisador das crescentes contradições que atravessam
aquele país. Essas contradições têm três expressões principais que se
acentuaram dramaticamente ao longo de 2006: um ataque inédito às liberdades
fundamentais do povo americano, um sentido fortemente regressivo nas
políticas económicas e sociais e uma política externa desvairada. Os resultados eleitorais de 7
de Novembro, com uma derrota em toda a linha dos Republicanos, dão voz ao
repúdio pela hiper-concentração de poder nas mãos da direita mais
conservadora e pelas políticas que conduziram a América ao bloqueamento que
agora vive e que dão corpo a uma situação de estado de emergência continuado.
Bush e o ultra-conservadorismo pagaram também pela arrogância das políticas
discriminatórias que tinham tido na incompetente resposta ao Katrina a sua
expressão mais drástica. A esse autoritarismo
castigado nas urnas tem-se associado – e 2006 só acentuou essa tendência – uma
condução da política económica profundamente ambivalente. De um lado, uma
lógica globalizadora traduzida no domínio, de escala mundial, de fontes de
energia e outras matérias-primas e dos eixos fundamentais da sua circulação.
Os depósitos petrolíferos e as grandes redes de distribuição (no Cáucaso, no
Médio Oriente, etc.) são hoje o eixo prioritário da geoeconomia mundial
conduzida por Washington e motivação maior da sua estratégia política
imperial. Mas, a par desta estratégia de globalização dos mercados, os
Estados Unidos evidenciam traços de fechamento muito claros, decorrentes da
deriva securitária adoptada desde 2002. A política de imigração materializa este
traço: da obstaculização à concessão de autorizações de residência às
políticas de expulsão em massa, passando pela construção do muro na fronteira
com o México, é a mesma lógica de criminalização da imigração que se insinua,
dando azo a uma contestação pública de dimensões inéditas como a que trouxe
para a rua centenas de milhares de imigrantes e activistas de direitos
humanos em Março. Apesar de tudo, como diagnosticou
Immanuel Wallerstein, «os que estão dispostos a olhar de frente as falácias
das políticas dos Estados Unidos são uma minoria – mais ainda, uma minoria
sem uma agenda clara e certamente sem um líder político de peso para
expressar uma visão alternativa». Nesse sentido, o alcance da vitória democrata
de Novembro tem que ser matizado. Sendo uma importante mudança, é uma
evidente mistificação afirmar que ganhou a esquerda. Para além das vitórias locais
de candidatos democratas com uma agenda profundamente conservadora, importa
vincar a convergência entre as duas direcções partidárias em torno da
convicção no excepcionalismo americano e na conveniência de uma alteração de
forma (concretizada em mais habilidade diplomática e mais procedimentos
multilaterais), em detrimento de mudanças substantivas (uma agenda política
diferente). Ora, a derrota na guerra do
Iraque radicaliza as contradições na sociedade americana e confronta os norte‑americanos
com a necessidade de algo bem mais denso do que a simples mudança cosmética.
Porque a questão de fundo com que se depara hoje o povo americano é a de
saber se se opera ou não uma ruptura com o messianismo americano – a crença
numa espécie de missão sagrada de civilização atribuída por Deus aos Estados
Unidos para promoverem os seus valores e ideais por todo o mundo,
incendiando-o se necessário for – de que esta Administração foi protagonista. Rumsfeld, saído de cena
depois das eleições de Novembro, era o protagonista da resposta negacionista
a esta pergunta. Para ele e para o seu grupo, os Estados Unidos não só não
estão em decadência como o seu poder é uma força do bem para o mundo. E sobre
essa convicção messiânica construíram uma dupla estratégia. Externa em
primeiro lugar: guerra preventiva e apologia grosseira do estado de excepção,
com violação grave das regras básicas do direito humanitário, designadamente
da proibição da tortura e do respeito pela dignidade essencial dos
prisioneiros de guerra. Interna depois: exacerbação dos poderes
presidenciais, no quadro de uma suposta guerra contra agressores da América. O trauma de mais uma derrota
militar séria (quando o síndrome do Vietname não tinha sido resolvido na
sociedade americana) traz consigo um dilema que Wallerstein enunciou: ou o
país se deixa dominar pela raiva da impotência e faz do cercear das
liberdades a sua resposta, ou assume uma tomada de consciência colectiva, um
sobressalto cívico que proporcione um regresso à melhor América, a dos
valores cívicos da liberdade, da crítica e da insubmissão. Essa é já a mãe de todas as batalhas para os Estados Unidos. |