Informação Alternativa

Estados Unidos da América

Junho 2006

 

O exército americano cansado da guerra

 

Anatol Lieven *

Le Monde diplomatique

 

O atolamento do exército americano no Iraque (onde perdeu 2.500 soldados) e a ausência de perspectivas políticas ou militares suscitam um início de revolta no Pentágono e na Agência Central de Inteligência (CIA) que vai ser dirigida por Michael Hayden. As dificuldades de recrutamento reforçam-se com o temor de um conflito no Irão. O grito de alarme lançado por antigos generais começa a incomodar a Casa Branca.

 

Actualmente, o presidente George W. Bush seria mais impopular que Lyndon Johnson após a ofensiva do Tet no Vietname em 1968. Obviamente, as declarações optimistas da administração relativas à guerra do Iraque, tantas vezes reiteradas e assim frequentemente contraditadas, suscitam escárnio e cólera em numerosos americanos patriotas. Como outrora as proclamações do mesmo tipo durante a guerra do Vietname [1].

 

Se a administração do presidente Bush sobreviveu ao furacão Katrina sem que nenhum alto funcionário se demitisse, a incompetência e o diletantismo perante a catástrofe colam­‑se doravante à pele da Casa Branca [2]. O desprezo de que o presidente faz prova em relação ao Congresso e os poderes extra­‑constitucionais que se arroga suscitam vivos protestos por parte de parlamentares democratas mas também republicanos.

 

É no seio das instituições de Estado que a crise é mais manifesta. O director do gabinete do vice­‑presidente Richard Cheney, Lewis “Scooter” Libby, foi inculpado após ter tentado desacreditar o ex­‑embaixador Joseph Wilson [3], opositor à guerra no Iraque, revelando a jornalistas próximos que a sua esposa, Valerie Plame, era um funcionário clandestino da Agência Central de Inteligência (CIA). Tal divulgação constitui um crime federal que ameaça provocar novas inculpações, entre elas a de Karl Rove, principal conselheiro político do presidente e que se demitiu a 19 de Abril do seu posto na Casa Branca. Estas postas em causa seriam contudo apenas a parte visível de uma fractura que se alarga entre a Casa Branca e a CIA, em simultâneo com uma parte importante da hierarquia militar.

 

Os desacordos entre membros da CIA e a presidência a respeito da guerra no Iraque são conhecidos há muito tempo [4]. Já em 2004, comentando o caso Wilson, The Wall Street Journal condenava nestes termos as fugas provenientes da CIA que infirmavam as alegações do presidente: «[A administração Bush] deve fazer face a duas revoltas: uma no Iraque e outra na CIA» [5]. Desde há alguns anos, responsáveis da agência e dos organismos de segurança denunciam uma manipulação presidencial para comprometer os Estados Unidos na guerra. Paul Pillar, antigo responsável da CIA para o Médio Oriente e para a Ásia do Sul, autor de um relatório pessimista sobre o Iraque tornado público por uma fuga em 2004, reafirmou recentemente por exemplo que a administração tinha lançado «uma campanha organizada de manipulação» para desencadear as hostilidades [6].

 

Foi para pôr termo à dissidência e impor um controlo político severo que Bush tinha nomeado Porter Goss para a chefia da CIA em 2004. A desmoralização e as dissensões que agitam a agência de informações foram mais fortes do que ele e provocaram a sua partida forçada. Durante os seus dois anos de funções, dezenas de responsáveis e analistas demitiram­‑se, nomeadamente no serviço responsável pelas operações clandestinas.

 

Além disso, o mal­‑estar no seio exército estoirou à luz dia. Vários prestigiados generais na reforma [7], cujo opinião é claramente partilhada por um grande número de militares no activo, denunciaram publicamente o secretário de Estado da Defesa, Donald Rumsfeld, e a sua gestão da guerra no Iraque. Estes ataques sem precedentes são motivados em parte pela oposição dos militares a uma eventual ofensiva contra o Irão, da qual temem as consequências para os Estados Unidos e para o exército americano. As informações transmitidas do interior a jornalistas como Seymour Hersch, do New Yorker [8], confirmam a vontade de numerosos oficiais de prevenir um novo conflito.

 

Os militares consideram com efeito que um ataque americano contra locais nucleares iranianos correria o risco de desencadear uma espiral de confrontações e de represálias, susceptível de conduzir a uma conflagração de grande envergadura. Não somente temem os desgastes incorridos pelas forças americanas, mas também a perspectiva de uma outra grande guerra que obrigue os Estados Unidos a restabelecer o recrutamento. Ora a experiência do Vietname recorda que um exército de recrutas é mais frequentemente presa do ressentimento e da desmoralização. Protestos em massa sobre solo americano contra as aventuras internacionais de Washington poderiam então precipitar o fim do “império americano” no Médio Oriente.

 

O presidente dos Estados Unidos subestimou a capacidade de instituições como o exército e as agências de informações para contrariar a política da Casa Branca, não por uma revolta aberta, mas por um fluxo regular de demissões e de fugas – táctica que os esforços inábeis de Goss para restabelecer a “disciplina” só incentivaram. Estas “armas”, às quais estas instituições conservadoras frequentemente recorreram contra governos democratas, são hoje em dia voltadas contra uma equipa que não cessou de pôr à frente a sua prioridade securitária. E, paradoxalmente, é porque a administração em funções incentivou a população a venerar o exército que vozes dissidentes procedentes desta instituição, como as de generais na reforma, são difíceis de asfixiar através de intimidações e de calúnias.

 

Para a democracia, a intervenção política do exército e das agências de informações não é a priori tranquilizante. Mas, se estas forças representam a oposição mais eficaz ao poder, é devido a uma dupla incapacidade: a do Congresso de exercer as suas funções constitucionais de vigilância e de controlo, a do Partido Democrata de se opor à Casa Branca sobre as questões de defesa e de política externa. Uma eventual vitória dos democratas aquando das eleições legislativas de Novembro de 2006 incitá-los-ia talvez a fazer encaixar o chapéu do fiasco iraquiano à administração Bush, e lançar uma série de inquéritos parlamentares desembocando em inculpações e destituições em níveis elevados. No entanto, o comportamento dos Estados Unidos no mundo não seria necessariamente afectado por isso.

 

PASSIVIDADE DO PARTIDO DEMOCRATA

 

É seguro que certos responsáveis democratas desejam mais contenção e pragmatismo do que os demonstrados pelo governo Bush. Contudo, os dirigentes não põem fundamentalmente em causa as abordagens americanas em relação ao resto do mundo. Do mesmo modo que a dos republicanos, a direcção democrata é parte integrante dos organismos de segurança que os desenvolveu, em particular, com Harry Truman (1945-1953), e depois John Fitzgerald Kennedy e Johnson (1961-1969).

 

A versão da hegemonia global que o presidente William Clinton defendia era menos ofensiva que a dos republicanos. Preferia as alianças supervisionadas por uma liderança americana aos diktats unilaterais. Mas tinha a mesma ambição. Porque os dois principais partidos partilham a visão de um nacionalismo “exceptionalista” pelo qual a “natureza bondosa” do poder americano e a legitimidade da sua posição dominante no mundo constituem artigos de fé mal discutidos.

 

A proximidade entre os dois partidos é particularmente grande onde as coisas são mais graves, nomeadamente sobre a questão do Médio Oriente. Como demonstrou Clinton, democratas e republicanos querem garantir a hegemonia americana na região, via a supremacia de Israel, mesmo que tal objectivo aumente a probabilidade de guerras repetidas. Os dois partidos recusam também qualquer compromisso com os Estados que qualificaram de “párias”.

 

Acusa-se frequentemente, a justo título, o governo Bush de ter rejeitado duas vezes, em 2001 e em 2003, a proposta iraniana de abrir negociações globais. Mas já a administração Clinton não tinha sabido aproveitar a eleição do reformista Mohammad Khatami para a presidência da República Islâmica do Irão, em 1997, para reatar negociações directas. Também não foi capaz de impor um acordo de paz entre Israel e a Síria. E, actualmente, o discurso sobre o Irão de senadores democratas como Hillary Clinton e Evan Bayh não difere no essencial do da Casa Branca [9].

 

Similarmente influenciados pelo lobby israelita, os dois partidos deram mostras de uma mesma falta de vontade para levar a cabo uma acção resoluta a fim de pôr termo ao conflito israelo­‑palestiniano. Longe de incentivar a presente administração a fazer esforços em prol da paz, os responsáveis democratas, entre eles as Sr.as Clinton e Nancy Pelosi, tentam mesmo ultrapassar Bush mostrando-se ainda mais incondicionalmente pró­‑israelitas do que ele [10].

 

Clinton passou sete anos a dilapidar as conquistas do processo de Oslo, e só se comprometeu seriamente na procura de um acordo no final do seu segundo mandato, quando era demasiado tarde para poder chegar ao fim. Pelo seu lado, Bush não parece longe de aceitar um “acordo” israelita unilateral, inaceitável para os palestinianos, o mundo muçulmano e a maioria dos europeus.

 

Se os democratas são cada vez mais numerosos a reclamar uma retirada antecipada do Iraque, o alcance dos seus apelos é pois singularmente diminuído pela sua incapacidade de propor uma estratégia diferente da de Bush para o conjunto do Médio Oriente. Noutro lugar no mundo, a política que preconizam não é menos ambiciosa que a da Casa Branca, sobretudo quando se trata de fazer face à Rússia na esfera de influência da ex­‑União Soviética.

 

Em suma, se decidir atacar o Irão, o presidente Bush pode contar que muitos americanos e alguns dirigentes democratas aderirão à sua decisão, enquanto outros democratas se mostrarão ambíguos, silenciosos ou simplesmente oportunistas. Tal ofensiva poderia então aparecer aos olhos dos republicanos como um bom negócio no plano interno.

 

Numerosos militares propõem-se contudo impedir este novo conflito. A sua resistência não encontrou ainda saída política. O campo dos “realistas” inclui muitas personalidades públicas, mas trata-se sobretudo de universitários ou responsáveis políticos retirados, como Brent Scowcroft (conselheiro para a segurança dos presidentes Gerald Ford e George Herbert Walker Bush), Gary Hart (que foi candidato à investidura democrata aquando das eleições presidenciais de 1984 e de 1988), e Zbigniew Brzezinski (conselheiro para a segurança do presidente Carter entre 1977 e 1981). Não encontram contudo eco suficiente nos dois principais partidos.

 

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* Investigador da New America Foundation de Washington, DC. A sua última obra foi publicada em francês sob o título Le nouveau nationalisme américain (Jean-Claude Lattès, Paris, 2005; Gallimard, col. “Folio”, Paris, 2006).

 

[1] Para uma comparação entre a guerra do Vietname e a guerra do Iraque, ler Gabriel Kolko, Avisos da CIA descartados pela Casa Branca, Le Monde diplomatique, Abril de 2006.

[2] Mike Davis, A la Nouvelle-Orléans, un capitalisme de catastrophe [ed. brasileira: O capitalismo da catástrofe], Le Monde diplomatique, Outubro de 2005.

[3] Encarregado de inquirir no Níger a fim de determinar se o Iraque tinha comprado urânio neste país, Wilson acusou ulteriormente a administração Bush de ter manipulado as informações sobre os programas de armamento de Saddam Hussein.

[4] Philip S. Golub, Aux Etats-Unis, du consensus au doute [ed. brasileira: Do sonho imperial ao lamaçal iraquiano], Le Monde diplomatique, Junho de 2004.

[5] The Wall Street Journal, Nova Iorque, 29 de Setembro de 2004.

[6] Entrevista publicada em El País, Madrid, 4 de Maio de 2006.

[7] Entre eles os generais Anthony Zinni, Wesley Clark e Paul D. Eaton.

[8] Seymour Hersh, “The Iran plans”, The New Yorker, 17 de Abril de 2006.

[9] Cf. Hillary Clinton, “Challenges for US foreign policy in the Middle East”, colóquio na universidade de Princeton, a 19 de Janeiro de 2006 (www.votehillary.org/CMS/node/108); e Evan Bayh, “A new approach to the national security debate”, 2 de Fevereiro de 2006, www.csis.org.

[10] Serge Halimi, Aux Etats-Unis, M. Ariel Sharon n’a que des amis [ed. brasileira: Os amigos de Ariel Sharon], e Joel Beinin, Un “think tank” au service du Likoud [ed. brasileira: O aparelho do Likud em Washington], Le Monde diplomatique, Julho de 2003.

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