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Estados
Unidos da América |
01/12/2006
Lições? Vietname, Indonésia, Iraque Immanuel Wallerstein George W. Bush acabou de
visitar o Vietname e a Indonésia. Tanto ele quanto a imprensa em geral usaram
a ocasião para reflectir sobre as “lições” da guerra do Vietname,
referindo-se às suas implicações na política americana para o Iraque. Teria
sido mais útil reflectir sobre as lições da Indonésia, e as diferentes
recepções que Bush teve nos dois países. O Vietname é hoje um dos
poucos países no mundo onde os Serviços Secretos americanos permitem que Bush
se desloque em cortejo automóvel público. Durante a estadia, Bush disse que a
guerra do Vietname deveria ensinar os Estados Unidos a ter paciência. Numa
frase citada por todas as agências de notícias, ele acrescentou: «Vamos ter sucesso,
a menos que desistamos». Só George W. Bush poderia ter
dito que a lição que retirou do Vietname para o Iraque foi que os EUA vão ter
sucesso, a menos que desistam. Porque, como até ele devia saber, os Estados
Unidos realmente desistiram no Vietname. Será que o comentário de Bush
pretendia ser uma denúncia de Gerald Ford por ter desistido, por não ter tido
a paciência de vencer? Ou terá sido apenas uma tola insistência na sua linha
de “manter o rumo” no Iraque, apesar do que aconteceu no Vietname? Quais são as mais óbvias
lições a retirar da longa guerra do Vietname? Uma é que os Estados Unidos
foram derrotados por uma pequena nação que não podia nem de perto
equivaler-se a eles em equipamento militar. A segunda é que a longa guerra
com o Vietname dividiu o povo americano e enfraqueceu de muitas formas a
força da economia dos Estados Unidos a longo prazo. A terceira é que, apesar
de tudo isso, ou talvez precisamente porque o Vietname derrotou os Estados
Unidos, ele é hoje um dos países do mundo mais amigáveis com Washington, na
verdade um dos poucos países amigáveis. A razão ostensiva do combate
americano no Vietname foi a oposição ao comunismo e assegurar-se de que não
haveria “efeito dominó” do comunismo no Sudeste asiático. Bem, o Partido
Comunista ainda governa no Vietname de hoje, e eles são realmente amigáveis
com os Estados Unidos. E não houve efeito dominó. Porque é que então os
Estados Unidos sacrificaram todas aquelas vidas e recursos financeiros?
Talvez tivesse feito mais sentido, em primeiro lugar, nunca ter-se envolvido. O presidente Bush prosseguiu
a viagem para a Indonésia, onde passou algumas horas escondido num palácio de
governo. Nada de cortejo automóvel – muito perigoso; nada de ficar sequer uma
noite – muito perigoso. Passemos então em revista a política dos EUA para a
Indonésia. Lá, diferentemente do Vietname, a intervenção dos EUA foi
“bem-sucedida”. A CIA ajudou a derrubar Sukarno, o líder de uma potência mundial
“não‑alinhada” – alguém que os Estados Unidos achou demasiado amigável
com a União Soviética. No seu lugar, subiu ao poder um general de direita,
Suharto, que prontamente desencadeou o massacre do Partido Comunista
Indonésio, o maior do mundo fora dos estados onde Partidos Comunistas
governavam. A Indonésia é também o estado
de maior população muçulmana do mundo. O Islão indonésio tem sido, pelos
padrões mundiais, uma variante bastante “moderada”. Mas depois da queda do
secular Sukarno, o governo indonésio sentiu a necessidade de levar em conta
as visões políticas dos partidos muçulmanos. E na Indonésia houve o efeito
“dominó” que nunca aconteceu no Vietname. Só que este efeito dominó veio da
política americana no Iraque. Os Estados Unidos são vistos hoje por muitos,
possivelmente a maioria dos muçulmanos indonésios, que estão muito zangados,
como inimigos do Islão. Se tivesse havido um cortejo automóvel em Jakarta,
provavelmente teria sido apedrejado. Por isso, os serviços secretos não o
quiseram fazer. Que lições podiam ser
retiradas? Em 2006, um dos últimos poucos governos comunistas do mundo é
amigo, falando relativamente, dos Estados Unidos. E o país onde demos um
jeito de varrer o Partido Comunista é um país no qual é fisicamente perigoso
que o presidente dos EUA ponha os pés. Será que o presidente dos EUA que visitar o Iraque daqui a 20 anos vai receber o tipo de recepção que George W. Bush recebeu no Vietname, ou o tipo de recepção que Bush recebeu na Indonésia? |