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Estados
Unidos da América |
15/11/2006
“Mãe de todas as derrotas” Immanuel
Wallerstein George W. Bush é um jogador
de apostas altas. Quando os jogadores de altas apostas perdem, perdem muito.
George W. Bush perdeu muito – no Iraque e nos Estados Unidos. Quando os Estados Unidos
invadiram o Iraque em 2003, parecia que, apesar do esmagador poder militar,
os Estados Unidos podiam até perder a guerra. Não demorou muito para se ver
que os Estados Unidos estavam realmente a perder a guerra. Hoje, é óbvio que
os Estados Unidos perderam irremediavelmente a guerra. O objectivo dos Estados
Unidos era pôr no poder um governo estável e amigável, e que permitisse a
instalação de bases militares americanas. Hoje, é claro que se for estável,
não será amigável. E se for amigável não será estável. Em 7 de Novembro, o Partido
Republicano perdeu as eleições intercalares. Como o próprio Bush disse, em
todas as disputas mais apertadas, a margem foi pequena, mas globalmente foram
uma “pancada”. O nível da pancada foi sublinhado pelo facto de que, depois
das eleições, as sondagens de Bush caíram ainda mais. A causa número um foi que a
maioria dos americanos sentiu que a guerra estava a correr mal e queria
trazer os soldados para casa. Mesmo em distritos onde o candidato democrata
não levantou esta questão, ela teve o seu papel no fundo. Evidentemente que
houve muitos outros motivos. Muitos eleitores centristas votaram contra a
direita cristã, e o facto de haver alguns candidatos democratas que assumiram
posições mais centristas nas questões “sociais” ajudou. A questão é o que vai
acontecer agora. Bush não é, e nunca foi, um ideólogo. Ele é um político
pragmático de direita, que faz o que pensa ser necessário para ganhar
eleições. Nisto, tem sido bastante bom e ele tem consciência dos erros que
cometeu nos anos recentes – não em geopolítica (onde ele basicamente não
entende nada e pouco se importa), mas na política americana, onde ele apanhou
uma “pancada”. Está a fazer ajustes. Despediu Rumsfeld, vai reduzir a
importância de Cheney, e (sem dúvida seguindo o conselho de Karl Rove) pediu
ajuda à velha ala “realista” do Partido Republicano – o seu pai, James Baker
e o próximo secretário da Defesa, Robert Gates. Espera cooptar a liderança
democrata para o seu ressuscitado verniz bipartidário. Vai conseguir fazê-lo?
Especificamente, o que pode fazer em relação ao Iraque? E o que pode fazer em
relação ao crescimento dos democratas? A resposta curta é que é difícil ver
qualquer forma de se desenvencilhar elegantemente, a ele e aos Estados Unidos,
do fiasco iraquiano. A comissão Baker-Hamilton vai-nos dizer em breve que
“novas direcções” propõe, mas duvido que possam vir com alguma ideia que
funcione. Alguns falam na divisão do
Iraque em três partes. É uma ideia impossível de concretizar. Nem a Turquia
nem o Irão podem tolerar um Curdistão independente, e os curdos estarão muito
melhor na sua actual autonomia de facto do que numa guerra com vizinhos. A
maioria dos xiitas não quer um estado separado. Por um motivo: porquê a
separação se eles podem mais ou menos dominar um Iraque unido? E, em qualquer
caso, o que iria acontecer a Bagdade? Além de que, obviamente, os sunitas
opõem-se mortalmente à separação. Assim como, obviamente, todos os vizinhos
do Iraque, sem excepção. Tal como vimos na Jugoslávia, estados separados não
acabam com os conflitos étnicos; a verdade é que os aumentam. Basicamente, há apenas duas
formas de os Estados Unidos retirarem do Iraque com perdas mínimas de vidas e
de danos políticos. Podem pedir ao Irão que seja o seu intermediário para
amortecer o conflito interno no Iraque, o que pode funcionar. Ou, em
alternativa, a facção al-Sadr dos xiitas e a resistência sunita podem juntar
forças numa plataforma anti-americana e pedir educadamente aos Estados Unidos
que saiam imediatamente (quer dizer, correr com os Estados Unidos), o que
também pode resultar. Nenhuma destas alternativas é
minimamente palatável por Bush ou pelo Congresso dos EUA. Mas estas duas
alternativas representam provavelmente o melhor negócio que os Estados Unidos
podem fazer nesta altura. Qualquer outro caminho quase certamente levará a um
fim em que os helicópteros terão que retirar as pessoas da Zona Verde para o
Kuwait. A única coisa que é certa é
que não haverá tropas americanas no Iraque quando estivermos próximos das
eleições de 2008. Os eleitores e os militares deixaram isso claro nas
eleições de 2006. Claro que vai haver um grande jogo de atirar culpas para as
costas do outro – entre os republicanos sobre quem perdeu as eleições de
2006, e entre os democratas e os republicanos sobre quem perdeu o Iraque. Mas
a palavra que está na mente de todos é “derrota”. Podemos também ter a certeza
de que bombardear a Coreia do Norte ou o Irão está fora da agenda real
(incluindo a de Israel). As Forças Armadas dos EUA e o eleitorado americano
não vão tolerar uma acção como essa (já para não falar do resto do mundo).
Onde é que isto vai levar os Estados Unidos enquanto potência mundial?
Provavelmente, num grande impulso no sentido de virar-se para dentro. Já nas
eleições de 2006, muitos candidatos venceram por se terem oposto ao “livre
comércio”, e o Iraque era um palavrão. A tentação política será dar a ênfase
ao local. Um dos principais efeitos laterais será uma importante redução no
apoio dos EUA à política externa israelita, o que será doloroso para Israel. Os democratas estão unidos na
legislação económica interna – aumento do salário mínimo, melhores e mais
baratos serviços de saúde, ajuda financeira aos estudantes secundários.
Também vão impulsionar as questões ecológicas e os avanços na medicina
(investigação das células estaminais, por exemplo). Se os republicanos
esperam recuperar forças, terão que mover o seu programa económico, assim
como o programa sobre as questões sociais de alguma forma na direcção
centrista. O resultado, como já é óbvio, é criar mais confusão no Partido Republicano, e reduzi-la no Partido Democrata – o exacto oposto do que aconteceu na última década. E, no início de 2009, George W. Bush sairá do poder, lembrado (se nos dermos ao trabalho) por ser a vanguarda da mãe de todas as derrotas – no Iraque, no sistema‑mundo, e em casa no Partido Republicano. |