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09/11/2006 Colar os cacos Daniel Oliveira Mais do que demissão de Donald Ramsfeld do lugar de
Secretário da Defesa, a escolha de Robert Gates para seu substituo é o mais
claro sinal do recuo de George Bush em relação ao Iraque. Se o seu antecessor
representa a guerra ideológica dos neocons, Gates é o regresso à velha
tradição da real politik na política externa norte-americana. O novo homem do Pentágono fez quase toda a sua carreira na CIA, onde esteve 26 anos, e acompanhou várias administrações, desde 1966. Passou por vários presidentes republicanos e democratas, esteve envolvido em quase todas as guerras e alianças variáveis dos EUA das últimas décadas. Robert Gates fez parte do National Security Council da Casa Branca entre 1974 e 1979. O seu nome chegou a ser proposto para director da CIA, em 1987, mas foi retirado por suspeitas de envolvimento no escândalo Irão‑Contra (venda de armas ao Irão para financiar os “contra” que combatiam os sandinistas na Nicarágua), de que teria conhecimento directo. Disse-se mais tarde que o facto de ter passado informações para o Iraque durante a guerra Irão-Iraque também pesou nas reservas que o Senado apresentou para não se mostrar disponível para aprovar o seu nome. Acabaria por lá chegar em 1991, pela mão de Bush pai. Foi o primeiro funcionário da CIA a fazer toda a ascensão dentro da agência. Foi, por isso, um elemento chave na primeira guerra do Golfo. Aí trabalhou com Colin Powell, James Baker, Dick Cheney e toda a entourage do pai do Presidente. Conhece a realidade da região. Esteve directamente ligado à estratégia americana de financiamento e armamento dos mujahideen no Afeganistão, aquando da invasão soviética. Ali acabariam por florescer os taliban. Em 2005, chegou a falar-se do seu nome para “czar” dos serviços de informação, o que não se confirmou. É um homem muito próximo de James Backer, o conselheiro de sempre da família Bush, e faz parte da sua task force (Iraq Study Group) que tenta encontrar uma nova saída para o atoleiro iraquiano. O relatório (“Estabilidade primeiro”) deste grupo será conhecido brevemente, mas os jornais norte-americanos deram a conhecer algumas conclusões preliminares. Estabilizar para poder retirar, faseadamente, parece ser a quadratura do círculo que procuram. A vitória na guerra do Iraque terá sido completamente posta de parte por este grupo, que considera que a resistência iraquiana deve ser integrada na política iraquiana e abre pontes para conversações com a Síria e o Irão. Maior prioridade: minimizar as baixas militares americanas. O que Bush pretende com esta escolha é chegar a um
acordo com os democratas, que basearam toda a sua campanha no fracasso iraquiano
mas que, na realidade, não têm qualquer estratégia para o conflito. Gates é o
rosto que permite o entendimento e dá alguma respiração a Bush na sua
política externa, sem no entanto apontar para uma saída segura. Mas é a mais
tremenda das confissões. Bush filho rende-se e procura nos homens do seu pai
e na política fria o contrário do que os delírios dos seus homens lhe deram.
Suspeito que já vem tarde. |