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04/10/2006 Cada vez mais desertores nas fileiras Aaron Glantz Um soldado dos EUA que entrou em ausência sem licença por causa da sua oposição à guerra do Iraque foi preso na prisão militar estadunidense em Mannheim na Alemanha na terça‑feira, estando pendente de um apelo em Washington neste Novembro. O encarceramento de Augustin Aguayo vem menos de uma semana depois
de ele se ter entregue no Fort Irwin no Deserto Mojave da Califórnia. Aguayo,
de 34 anos, tinha estado escondido desde o início de Setembro. Ele primeiro fez um pedido para ser dispensado como objector de
consciência em Fevereiro de 2004, cerca de um ano depois de ter começado o serviço
no exército e enquanto estava a iniciar a sua primeira missão no Iraque. O pedido
foi negado pelo Pentágono em 2005 e ele apelou dessa decisão para os
tribunais federais em Washington, que têm jurisdição sobre casos apresentados
por militares estadunidenses estacionados no estrangeiro. «Eles disseram que podem permitir-lhe ligar-me [da Alemanha] e, se o
fizer, isso será óptimo», declarou a sua esposa Helga Aguayo à IPS.
«Disseram-me em Fort Irwin que ele ligaria e disseram-me que poderia
ligar-lhe, mas nada disso aconteceu. Eu assumiria que eles vão tentar isolá-lo
o mais possível». Aguayo estava estacionado na Alemanha quando escapou por uma janela dos
aquartelamentos da base e fugiu antes de enfrentar uma segunda missão no
Iraque. Ele mantém que os seus comandantes lhe disseram que o enviariam para
o Iraque algemado, se necessário. «Ainda não se pode descartar que o enviem para o Kuwait ou para o
Iraque. Não parece que vá acontecer, mas ainda poderá. Ninguém me deu um
definitivo “não, isso não acontecerá”», disse Helga Aguayo. «Por isso ainda
tenho algum medo no meu coração de que isso possa acontecer». Os registros militares estadunidenses mostram que existem entre
8.000 e 10.000 soldados cujo paradeiro se desconhece. Não se sabe quantos se
ausentaram sem licença por motivos políticos (durante a guerra do Vietname,
por exemplo, George W. Bush abandonou sem permissão a sua unidade na Guarda
Nacional Aérea do Texas para trabalhar numa campanha para o Senado no Alabama). No entanto, acredita-se que centenas de soldados contrários à guerra
estão ausentes sem licença no Canadá. Alguns pediram asilo publicamente, e na
terça-feira o primeiro soldado estadunidense que fugiu para o Canadá entregou‑se
em Fort Knox. O especialista Darrell Anderson, condecorado com um Coração Púrpura
por se ter exposto a fogo para proteger o resto da sua unidade de uma bomba numa
estrada, afirmou que desertou do exército no ano passado porque já não podia
lutar no que acredita ser uma guerra ilegal. «Sinto que ao resistir compensei as coisas que fiz no Iraque», disse
Anderson durante uma conferência de imprensa pouco antes de se entregar.
«Sinto que compensei os pecados que cometi nesta guerra». Em Abril de 2004, conta Anderson, ordenaram‑lhe que abrisse
fogo contra uma automóvel cheio de civis inocentes. O carro tinha acelerado
através de um posto de controle militar estadunidense e o seu comandante afirmou
que era procedimento do exército disparar contra qualquer veículo que
passasse por uma barreira de trânsito. Anderson recusou a ordem. «Factos como esse continuaram a ocorrer, até que um dia vi dois dos
meus companheiros serem atingidos», contou no programa Democracy Now! da
rádio Pacifica, «e apertei o gatilho enquanto apontava para uma criança
inocente. Mas a minha arma estava travada, e então dei‑me conta do que
estava a fazer, e subitamente dei‑me conta de que não importa quão bom
penses que és, quando estás lá, vais eventualmente – sabes, o mal nisto vai
dominar, e vais matar pessoas». Anderson regressou do Iraque emocionalmente ferido, com um caso severo
de stress pós-traumático. Quando a sua unidade chegou a casa, ele fugiu
para o Canadá em vez de regressar ao Iraque. Ficou lá até este fim‑de‑semana,
quando a sua mãe, Anita Dennis, o foi buscar a Toronto e o levou de volta ao
Kentucky. Ela afirmou que foi uma viagem difícil. «No Iraque, ele circulava em veículos Humvee e tanques, com pessoas
a atirar contra ele o dia todo», contou ela à IPS. «Por isso, não se sente
bem em veículos e, definitivamente, não dorme neles. Os soldados não podem
dormir quando estão a patrulhar a cidade em busca de minas terrestres e IED [artefactos
explosivos improvisados]». Anna Dennis contou à IPS que concorda com o seu filho de que a
guerra no Iraque é moralmente errada. «Acredito em tudo o que meu filho me contou», disse. «Darrell disse
que as pessoas que combateu estavam a matar soldados americanos porque não
sabem quem somos. Tudo o que sabem é que estamos a atravessar as suas cidades
com tanques. Os nossos soldados estão a prendê‑los. Quando levamos
pessoas para Abu Ghraib, não dizemos às suas famílias. Darrell disse que eles
levavam rapazes e pais, e as suas esposas e irmãs nunca sabiam o que tinha acontecido
durante semanas. Nós ficaríamos indignados se isso acontecesse nos EUA». Porque sofre de stress pós-traumático, Darrell Anderson
recebeu um tratamento diferente de Augustin Aguayo quando se entregou. Sob um
acordo conseguido com os advogados de Anderson, as autoridades não levarão a
julgamento o especialista do exército, mas em vez disso dar‑lhe‑ão
tratamento pelo seu trauma e permitirão que viva com a sua família no
Kentucky. Enquanto isso, Helga Aguayo está a tentar juntar dinheiro suficiente
para voar para a Alemanha para testemunhar no julgamento do seu marido.
Conquanto trabalhe, ela e as suas duas filhas gémeas de 10 anos vivem em casa
dos pais, em Los Angeles. «Não somos uma família rica», disse. «Todos os nossos parentes
trabalham duro. Existe um fundo de defesa e também um fundo para ajudar a minha
família com os gastos, e espero poder viajar para ver o meu marido e
testemunhar. Disseram‑me que isso é crucial». «Sabe que este homem defende a sua consciência», acrescentou. «Se a sua família não está ao seu lado para o apoiar, será um golpe duro para toda a sua defesa». |