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04/10/2006 EUA e barbárie André Levy «Os EUA não transportaram ninguém, e não
transportarão ninguém, para um país onde cremos será torturado.» Condeleezza
Rice, secretária de Estado dos EUA «Não aceitamos a tortura.
Eu nunca ordenei a tortura, eu nunca ordenarei a tortura. Os valores no nosso
país são tais que a tortura não é parte da nossa alma.» George W.
Bush, presidente dos EUA A 26 de Setembro de 2002, Maher Arar, cidadão canadiano e natural da
Síria, fazia escala no aeroporto Kennedy em Nova Iorque, ao regressar de
férias com a família na Tunísia. Foi chamado de parte para ser questionado e
só voltou a ver a família 374 dias depois. Durante as primeiras semanas, a
família não sabia do seu paradeiro. Arar foi transportado para a Jordânia e
depois para a Síria, onde foi repetidamente torturado. Na semana passada, um inquérito oficial no Canadá concluiu que Arar
era totalmente inocente, e que a decisão dos EUA de prender Arar foi baseada
em informações falsas e sem fundamento providenciadas pelas autoridades do
Canadá. O primeiro-ministro canadiano Stephen Harper admitiu a injustiça mas
recusou-se a pedir desculpas a Arar. Não deixa de ser surpreendente que os
EUA tenham optado por enviar Arar para a Síria, país que tem acusado de
atentados aos direitos humanos e de financiar terrorismo, e sabendo que Arar
seria aí torturado. No final de 2003, o alemão Khaled El-Masri, durante as suas férias na
Macedónia, é retirado de um autocarro de turismo, detido pelas autoridades
locais durante 23 dias, e interrogado sobre a sua ligação a um centro
cultural islâmico na Alemanha. Passado este período foi levado para o
aeroporto, tendo sido informado que iria ser deportado para a Alemanha. Em
vez disso, arrancaram-lhe a roupa do corpo, algemaram-no, cobriram-lhe a
cabeça, bateram-lhe, deram-lhe um sedativo e transportaram-no para uma prisão
em Cabul, Afeganistão. Aí um interrogador libanês disse-lhe: «Você está num
país sem leis. Podemos prendê-lo durante 20 anos ou enterrá-lo, e ninguém
saberá.» Em Março de 2004, iniciou uma greve de fome, juntamente com outros
presos em protesto contra as condições prisionais. Em Maio é finalmente vendado
e algemado, e liberto num local remoto, perto da fronteira albanesa. Nunca
foi formalmente acusado de qualquer crime. Em Abril de 2002, o etíope Binyam Mohamed, residente em Inglaterra,
preparava-se para regressar a casa no aeroporto de Carachi, no Paquistão. Foi
entregue às autoridades estadunidenses, que lhe recusaram comunicação com um
advogado. Perante a sua falta de cooperação, o FBI ameaçou deportá-lo: «Não
podemos fazer o que queremos aqui. Os nossos amigos árabes saberão tratar de
ti», recorda Mohamed. Em Julho é rendido para Marrocos num voo da CIA, isto
é, transportado entre estados sem supervisão judicial. Aí foi acusado de
pertencer à Al Qaeda e torturado, incluindo repetidos cortes ao órgão sexual,
até confessar várias falsidades. Em Janeiro de 2004, é transferido para a
chamada Prisão Escura, em Cabul, onde os presos permanecem na escuridão 24
horas por dia. Aí foi interrogado diariamente. «Não sei que dizer»,
protestava. «Diz-nos o que queremos», respondiam os seus interrogadores.
Mostravam-lhe fotos e indicavam nomes e histórias, que Mohamed então
confirmava. Em Maio, é transferido para a prisão de Bagram: quatro meses mais
de interrogação. Em Setembro, vai por fim para Guantánamo, em Cuba, onde
permanece ainda. Só em Janeiro de 2005 é que a sua família é notificada do
seu paradeiro. Só em Novembro desse ano é que Mohamed é formalmente acusado
pelos EUA de conspiração para cometer terrorismo. Estes casos são apenas uma pequena amostra [1]
das centenas de inocentes enrolados na teia da Polícia Internacional dos EUA
(PIDE, porque não), ao serviço de um «regime ditatorial global» (nas palavras
de El‑Masri). Estes casos ilustram também como prisões arbitrárias e
tortura são sobretudo formas de subjugação e opressão, pois como forma de
angariar inteligência utilizável são notoriamente imprestáveis. A promessa de
apoio financeiro, militar e material pressiona os serviços de inteligência de
meio mundo a produzirem resultados que justifiquem esse apoio, mesmo que a
inteligência não seja fidedigna. Veja-se a revelação do presidente Pervez
Musharraf de que a CIA pagou milhões de dólares ao Paquistão em troca de 350
alegados membros da Al Qaeda. O Congresso dos EUA prepara-se para aniquilar o princípio
constitucional de habeas corpus. Este mandado judicial, que data da
Magna Carta de 1215, obriga o governo a explicar publicamente as razões de
detenção de um preso. Estamos perto da barbárie, onde um inocente pode ser
preso, transladado pelo mundo fora, numa prova de tortura, sem que sejam
dadas quaisquer satisfações a ninguém. E nesta rede de tortura, o Estado
português é também cúmplice, como demonstra o recente relatório da
Eurocontrol e o relatório à Comissão Europeia de Junho. ______ [1] Sobre o caso de Khaled El-Masri e Binyam Mohamed aconselho o visionamento do documentário Outlawed, produzido pela organização de direitos Humanos Witness, e disponível em http://video.google.com. |