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21/09/2006 Nova Orleães continua em ruínas – No primeiro aniversário da passagem do furacão
Katrina – John Catalinotto;
Monica Moorehead Um ano depois da passagem do Katrina pela cidade de Nova Orleães,
centenas de milhares de norte‑americanos continuam à espera da
reconstrução das suas casas, primeiro passo, dizem, para recuperarem pedaços
da vida que o furacão levou. O governo dos EUA esforça-se por vender
promessas e oculta as ruínas, mas a realidade demonstra que além das grandes
empresas de construção, contam-se pelos dedos os que receberam fundos da
administração Bush. A assinalar o primeiro aniversário da catástrofe, as organizações
de solidariedade com os sobreviventes do Katrina deslocaram-se à cidade, no
passado dia 29 de Agosto, para lembrar os que não sobreviveram e exigirem
medidas que respondam ao drama das famílias afectadas. Monica Moorehead,
activista do movimento, descreveu ao Avante! o cenário que encontrou e
explicou os motivos do protesto popular. – Porque razão estiveste em Nova Orleães no primeiro aniversário da
passagem do furacão Katrina? Viemos de vários pontos do país não só para deixar patente que não
nos esquecemos da tragédia e continuamos solidários com os sobreviventes do
Katrina, mas também para voltar a exigir do governo ajuda para as populações
e medidas que permitam integrá-las no processo de reconstrução de Nova
Orleães e da região do Golfo do México. O meu objectivo foi, para além de protestar, falar com as famílias,
tentar perceber quais os principais problemas que enfrentam e se no seu caso
em concreto já se iniciou algum tipo de reconstrução. A informação, as fotos
e os vídeos que recolhi são materiais que conto distribuir pelo máximo de
pessoas, se possível divulgar não apenas no território norte-americano, mas
pelo mundo fora. Uma das coisas que descobrimos foi que apesar do governo ter
canalizado 9,7 mil milhões de dólares com o objectivo de colmatar a
destruição do Katrina, a esmagadora maioria dos fundos encontram-se
previamente destinados a grandes empresas de construção e manutenção sem
sequer terem decorrido concursos para adjudicação de empreitadas. Algumas destas companhias contrataram trabalhadores imigrantes,
aproximadamente 100 mil, aos quais foram dadas as tarefas mais duras, o
trabalho mais pesado e perigoso, recebendo remunerações muito baixas. Somente
uns poucos tostões chegaram às mãos dos residentes pobres da área citadina, precisamente
os que foram identificados como os mais necessitados. – O Katrina atingiu de forma brutal uma área equivalente a mais do
dobro do tamanho de Portugal continental. Quantas pessoas se estima que foram
afectadas pelo furacão? Se considerarmos o impacto de ambos os furacões, podemos dizer que
no total estes forçaram o êxodo de cerca de dois milhões e meio de pessoas,
incluindo os que viviam na costa do Golfo ou perto dela. Mudou radicalmente a
vida de milhares de famílias do Mississipi até ao Texas. Qualquer coisa entre
600 mil e um milhão de cidadãos foram obrigados a deslocar-se e permanecem
nesta situação. 250 mil crianças foram transferidas das respectivas escolas.
Ainda hoje, centenas de milhares de pessoas estão dispersas pelo território
norte‑americano, muitas das quais nas cidades vizinhas de Atlanta e
Houston, isto apesar de conservarem a vontade de regressar a Nova Orleães. CENÁRIO DE DESTRUIÇÃO – E aqueles que conseguiram regressar, em que condições estão a
viver? O que pudemos observar, por exemplo, na zona baixa de Ninth Ward
[bairro habitacional nos arredores do centro de Nova Orleães], foram blocos
atrás de blocos completamente destruídos, e esta é precisamente uma das zonas
onde vivia parte da população mais pobre. Na maior parte da área da cidade, vimos apenas algumas casas com
sinais de estarem ocupadas, de terem retomado a vida, nas quais os escombros
haviam sido removidos, cujas paredes, estruturas e telhados antes esventrados
começavam a ser reparados e em cujos quintais fora colocado um contentor que
evidencia a presença da FEMA [agência federal norte-americana responsável
pela preparação e resposta a catástrofes naturais. Equivalente à protecção
civil em Portugal]. Os que regressaram às suas residências receberam pouca ou
nenhuma ajuda por parte dos diferentes órgãos da administração governamental
para reconstruírem o respectivo património perdido. De todo o modo, salvo muito escassas excepções, o cenário deixa
patente que quase nada mudou um ano passado sobre a catástrofe. A única
diferença é que logo após a passagem do Katrina cerca de 80 por cento da
cidade de Nova Orleães estava submersa, mas entretanto o nível das águas
começou a baixar. Se passarmos pelas ruas que ficam situadas junto ao dique de sustentação
que cedeu há um ano – o qual é suposto ser reconstruído e melhorado –
percebemos que os edifícios então existentes pura e simplesmente
desapareceram. O abandono é total. A vegetação cresce descontroladamente
cobrindo as “cicatrizes” do furacão, entre pilares de ferro e cimento que
resistiram ao impacto e pedaços da rede de canalização donde ainda sai água a
céu aberto. Mesmo para aqueles que por iniciativa própria decidiram reconstruir
as suas casas, é praticamente impossível viver um quotidiano normal e com um
mínimo de conforto. Em muitos bairros não existe fornecimento de energia
eléctrica, esgotos ou outras estruturas sanitárias e de serviços básicos. Das
117 escolas que existiam em 2005, apenas 57 se preparam para voltar a abrir
as portas. Com os serviços de saúde passa-se o mesmo. Antes havia 22
hospitais, actualmente somente metade se encontra em funcionamento. – Como decorreu a acção de protesto promovida pelos movimentos de
solidariedade? Um milhar de pessoas veio de Atlanta e Houston em autocarros. Outras
deslocaram-se por meios próprios provenientes de cerca de uma dúzia de
estados e cidades. Juntos marcharam durante cinco quilómetros desde o Ninth
Ward até à Avenida do Congo, local onde foram colocadas listas com os nomes
das vítimas da inundação. Os participantes pediam «justiça para os
sobreviventes do Katrina», exigiam que fosse respeitado o direito de
regressarem às suas casas e apelavam à total reconstrução da costa do Golfo
do México. George Bush visitou Nova Orleães nesse mesmo dia numa acção
meramente propagandística. Trouxe consigo tamanho aparato policial, um número
tão grande de soldados e veículos militares que a baixa do Ninth Ward mais
parecia um território ocupado. Aos que queriam juntar-se ao protesto, a
partir de dado momento, foi vedada a passagem para a zona. Aconteceu comigo.
Felizmente, eu e uma ex-trabalhadora da indústria automóvel, Dianne
Mathiowetz, viajámos até Nova Orleães com um dirigente sindical da ILWU
(Sindicato Nacional dos Estivadores e Trabalhadores dos Armazéns Portuários,
na sigla inglesa), Clarence Thomas, cuja esposa, Delores Thomas, conhecia
muito bem a cidade e levou-nos até ao ponto da concentração. «Talvez
consigamos escapar sem levarmos um tiro», lembro-me de ela ter dito a dada
altura. À parte a minha experiência pessoal na iniciativa, o que importa
salientar é que um ano depois torna-se por demais evidente a natureza do
capitalismo norte-americano. A passagem do Katrina deixou a nu que o sistema
é incapaz de assegurar as necessidades mais elementares das pessoas, neste
caso com particular incidência nas camadas mais desfavorecidas da população
de Nova Orleães, sobretudo os de origem afro-americana. Viemos para a manifestação com uma mensagem clara: Os milhões de dólares que a administração Bush está a gastar nas guerras de ocupação do Iraque e na agressiva política externa no Médio Oriente deviam ser canalizados para a reconstrução de Nova Orleães e de toda a costa do Golfo. Não é por falta de dinheiro que ainda nos encontramos neste estado, é por falta de vontade política e desprezo pelas pessoas que viviam na região. |