|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
21/06/2006 A administração Bush identifica-se com a Justiça Divina Thierry Meyssan * George W. Bush a título privado e a secretária de Estado Condoleezza
Rice a título oficial participaram na Convenção anual dos baptistas do Sul.
Explicaram a 18.000 «mensageiros de Deus» como governam para propagar a
Justiça Divina sobre a Terra na iminência do fim dos Tempos.
A
secretária de Estado estadunidense Condoleezza Rice na convenção anual dos
Baptistas do Sul 14 de
Junho de 2006, Greensboro Eram mais de 18.000 “mensageiros de Deus” a participarem na Convenção anual da Igreja dos baptistas do Sul, a 13 e 14 de Junho de 2006 em Greensboro (Carolina do Norte). Tratava-se de um dos acontecimentos mais importantes da vida política e social nos Estados Unidos na medida em que esta confissão é o principal reservatório eleitoral do presidente George W. Bush. Os discursos que aí são pronunciados não devem ser tomados como anedotas folclóricas. Não têm nada de tradicionais na história dos Estados Unidos, ainda que aí tenham as suas raízes. São representativos do modo de pensar de uma maioria relativa e não são sem consequências: a teologia dos baptistas do Sul domina doravante o Partido Republicano e serve de fundamento popular à guerra no Iraque.
A
secretária de Estado estadunidense Condoleezza Rice orando antes da sua
entrada em cena Na
convenção anual dos Baptistas do Sul, a 14 de Junho de 2006 em Greensboro Os baptistas do Sul são actualmente a expressão colectiva mais
importante da cultura sulista (na acepção da Guerra de Secessão) e não
hesitam em arvorar as bandeiras dos Confederados. Teologicamente, consideram A
Bíblia como um almanaque que descreve os tempos futuros e defendem as
teorias dispensacionalistas do Armagedão e do fim dos Tempos. Opõem‑se
resolutamente a qualquer forma de ecumenismo. A Convenção foi precedida de um almoço de oração com o general Douglas L. Carver, comandante adjunto dos capelães das Forças Armadas dos Estados Unidos. Em cinquenta anos, os exércitos dos EUA, que tinham a reputação de ser compostos de bêbedos e violadores, foram guiados e ajustados pelos seus pastores de diversas confissões evangélicas que elevaram o grau de moralidade, ou mesmo instauraram um certo puritanismo. Coordenado por uma congregação secreta no Pentágono, a Fellowship Foundation, este esforço de ajustamento deu a parte boa aos evangélicos de todas as confissões, e especialmente aos baptistas do Sul, em detrimento dos padres católicos que perderam o seu controlo tradicional das capelanias militares. Progressivamente, os exércitos dos EUA afirmaram-se como os de Deus. Assim, o Pentágono incorporou missionários evangélicos nas suas tropas no Iraque e o subsecretário da Defesa encarregado da informação, o general Boykin, elevou a conversão dos iraquianos ao nível de objectivo estratégico.
Douglas
L. Carver, comandante associado dos capelães das Forças Armadas dos Estados
Unidos Pouco depois da sua abertura, a Convenção foi interrompida por uma
mensagem surpresa de George W. Bush, exprimindo-se por vídeo de Bagdade, em
terra bíblica. Tendo o presidente falado a título pessoal, a sua intervenção
não consta do sítio Internet da Casa Branca. Depois de ter cumprimentado o
presidente da Convenção na sua dupla qualidade de pastor e antigo combatente
da guerra do Vietname, Bush recordou que numerosos são os baptistas do Sul
que servem sob a bandeira estrelada. Também rendeu homenagem ao pastor Billy
Graham, do qual uma estátua devia ser destapada durante a Convenção. Depois,
recordou aos “mensageiros” o seu projecto de modificação da Constituição dos
Estados Unidos para impedir «juizes militantes» de autorizar o casamento gay.
Por fim, Bush enumerou um conjunto de decisões presidenciais inspiradas pela
sua fé: limitações regulamentares do direito ao aborto, supressão das
subvenções às associações favoráveis ao aborto, campanhas para a abstinência
sexual dos jovens solteiros, proibição das investigações científicas sobre as
células estaminais, e evidentemente a privatização maciça dos serviços
sociais e de saúde com benefício das organizações religiosas.
Jack
Wilkerson, vice‑presidente das finanças da organização Apresentando
o projecto “Apoiemos as tropas da América” No segundo dia, os “mensageiros de Deus” foram convidados a ouvir
Condoleezza Rice. Esta exprimia-se ao mesmo tempo em nome próprio e na sua
qualidade de secretária de Estado, de modo que a sua intervenção consta do
sítio Internet do departamento de Estado [1] e foi objecto de despachos do
Serviço de Informação dos Estados Unidos. Antes de mais, Rice pôs-se em comunhão com o seu auditório
recordando a educação que lhe foi dada pelo pai, pastor presbítero. Mostrou
claramente a sua adesão à crença do «arrebatamento» fazendo alusão à
iminência do fim dos Tempos: retomando as expressões dos pastores
evangélicos, identificou o período actual como o tempo de prova no decurso do
qual os cristãos devem afirmar a sua fé em Cristo antes que Este venha
arrebatá‑los e os eleve à Sua glória. Isto estabelecido, a secretária
de Estado definiu a missão que cabe aos Estados Unidos no plano divino e que
constitui o objectivo da sua acção diplomática e militar. Prosseguindo o seu
discurso, apanhou em contrapé o seu auditório, tradicionalmente isolacionista
e racista, para pregar em prol do intervencionismo evangelizador e da
igualdade racial. Reproduzimos os principais extractos de uma intervenção de
uma meia hora. «[...] o presidente Bush e eu própria partilhamos a vossa convicção
de que a América pode e deve ser uma força para o bem no mundo. O presidente
e eu acreditamos que os Estados Unidos devem continuar empenhados como líder
em acontecimentos fora das nossas fronteiras. Acreditamos nisto porque nos
guiamos pelo mesmo princípio duradoiro que deu nascimento à nossa própria
nação: a dignidade humana não é um dom do governo aos seus cidadãos, nem um
dom dos seres humanos uns aos outros; é uma graça de Deus a toda a
humanidade. Estes são tempos críticos e importantes, e mesmo de prova para a
América, mas são tempos em que devemos afirmar o que defendemos como nação e
qual o papel que devemos desempenhar no mundo. E é sobre isso que vos queria
falar aqui em Greensboro esta manhã. Nós, na América, somos abençoados com vidas de tremenda liberdade: a
liberdade de nos governarmos por nós próprios e de eleger os nossos líderes;
a liberdade de propriedade; a liberdade de educar as nossas crianças, os
nossos rapazes e as nossas raparigas; e, claro, a liberdade de pensar como
queremos e de celebrar o culto que desejamos. A América encarna estas
liberdades, mas a América não possui estas liberdades. Defendemos ideais que
são maiores do que nós próprios e percorremos o mundo não para pilhar, mas
para proteger, não para subjugar, mas para libertar, não como mestres de
outros, mas como servidores da liberdade. [...] Então aqui, senhoras e senhores, está uma escolha perante o nosso
país, perante nós como americanos. Iremos conduzir o mundo ou iremos retirar-nos?
Iremos elevar-nos à altura dos desafios do nosso tempo ou iremos afastar-nos?
A América é um país de vasta riqueza e poder, certamente. Mas igualmente
importante, somos uma nação de grande compaixão e consciência, e de
princípios democráticos. Assim, ao considerarmos o nosso papel futuro no
mundo, devemos reflectir em algumas questões importantes. Devemos
perguntar-nos: se não for a América, quem reunirá as outras nações à
consciência da defesa internacional da liberdade de religião? O presidente Bush tornou claro que as melhores relações com os
Estados Unidos são reservadas àqueles governos que respeitam as crenças do
seu povo. Quando vão a uma região como a China como eu, e vos sentais numa
igreja com cristãos chineses, não podeis evitar maravilhar‑vos com a
sua fé e a sua coragem. Se a América não reunir apoios para as pessoas em
qualquer lugar que desejem celebrar o culto em paz e liberdade, então
pergunto-vos: quem o fará? Vós sabeis, a liberdade religiosa é um assunto que exige clareza
moral. E, senhoras e senhores, a mensagem da América não poderia ser mais
clara. Os governos simplesmente não têm nenhum direito de se interporem entre
os indivíduos e o Todo‑Poderoso.»
Roy
Fish, professor de evangelismo no seminário teológico baptista do Sudoeste Convenção
anual dos Baptistas do Sul, 14 de Junho de 2006, Greensboro Ora, na dupla tradição dos “pais peregrinos” (os adeptos de seitas
puritanas expulsos do Reino Unido e da Holanda que fundaram as colónias do
Novo Mundo) e da filosofia da religião natural, os estadunidenses têm uma
definição particular da neutralidade do Estado. Trata-se por um lado de
rejeitar os privilégios atribuídos a uma Igreja em detrimento das outras,
logo de denunciar as Igrejas de Estado, mas também de fundar o vínculo social
no exercício do culto e no direito ao proselitismo. Enquanto os voltairianos
franceses distinguem um espaço público regido pela Razão de um espaço privado
onde florescem as convicções particulares, os rousseauistas americanos
colocam a linha de separação entre por um lado um espaço público que
compreende ao mesmo tempo a Razão e o culto, e por outro lado um espaço
privado limitado às crenças. O sistema laico francês garante a liberdade de
consciência, ou seja, a liberdade de crer ou não crer, enquanto o sistema
estadunidense defende a liberdade religiosa, a qual não é aplicável aos
agnósticos, livres-pensadores e ateus. Em outros termos, os governos que se interpõem entre Deus e os
homens são tanto as teocracias que não são nem judaicas, nem cristãs como a
Arábia Saudita, como os Estados laicos, como a França. Recorde-se por exemplo
declarações do departamento de Estado condenando a lei francesa que proíbe o
porte de sinais religiosos ostensíveis na escola. Um vasto dispositivo foi instaurado sob a presidência Clinton sob a
instigação dos neoconservadores e da maioria parlamentar da época. Compreende
uma Comissão para a liberdade internacional de religião, inicialmente
presidida por Elliott Abrams [1] (actual conselheiro adjunto de segurança
nacional), e um gabinete especial no departamento de Estado. Este entrega um
relatório anual ao Congresso sobre o estado da liberdade religiosa no mundo.
Este dispositivo público é duplicado com um segundo de aparência não
governamental. A Freedom House, pseudópode da CIA, realiza os seus próprios
estudos sobre a liberdade de religião, que são tidos em conta para a
atribuição da ajuda dos EUA ao desenvolvimento. A Freedom House estigmatiza
21 Estados como violadores da liberdade religiosa, incluindo a França, ainda
que isso não tenha consequências concretas no seu caso.
David
Jeremiah, pregando sobre o tema “Alcançar o mundo de hoje por Jesus Cristo” Convenção
anual dos Baptistas do Sul, 14 de Junho de 2006, Greensboro «Finalmente, senhoras e senhores, devemos considerar uma pergunta
mais, que é esta: se não fosse a América, quem reuniria nações amantes da
liberdade para defender a liberdade e a democracia no nosso mundo? Quase
cinco anos após a tragédia do 11 de Setembro, os Estados Unidos lideram uma
grande coligação de países numa guerra global contra o terrorismo. Quando
possível, levamos os terroristas à justiça. E quando necessário, levamos a
justiça aos terroristas. Este é o destino que as nossas tropas reservaram a
semana passada ao terrorista Zarqaui e agora ele não mais fará mal, não mais matará,
nunca mais aterrorizará pessoas inocentes. É isso que a América defende. Contudo, devemos fazer mais do que simplesmente capturar e matar terroristas
individuais, e estamos a fazê‑lo. Estamos a golpear a verdadeira fonte
do próprio terror indicando uma visão de esperança que ultrapassa qualquer
ideologia de ódio. Os Estados Unidos estão a apoiar as aspirações
democráticas de todas as pessoas, independentemente da sua cultura, da sua
raça ou da sua religião. Não conduzimos a causa da liberdade porque acreditamos
que os povos livres concordarão sempre connosco. Não o farão. É o seu direito
e a América defenderá esse direito. Fazemos isto porque acreditamos, e porque
estamos a ver a nossa crença confirmada, que todas as pessoas merecem e
desejam viver em liberdade.»
Escultura
do pastor Billy Graham Inaugurada
na convenção anual dos Baptistas do Sul, a 14 de Junho de 2006 em Greensboro Nesta óptica, os Estados Unidos recusam ser os polícias do mundo
encarregados de fazer respeitar o direito internacional. São investidos por
Deus para ser os seus justiceiros. Não perguntem qual a base legal que reivindicam para terem bombardeado
a residência de Zarqaui no Iraque, eles eram apenas os instrumentos de Deus
aplicando o castigo supremo. Perguntem antes o que a sua exaltação os levará
a fazer amanhã. É tempo que os Aliados de Washington se interroguem sobre a irracionalidade
do governo dos Estados Unidos e as suas consequências. _____ * Jornalista e escritor, presidente da Rede Voltaire. [1] Condoleezza Rice, Remarks at the
Southern Baptist Convention Annual Meeting, Departamento de Estado dos
EUA, 14/06/2006. A tradução dos
excertos foi feita a partir do original e não a partir da tradução francesa.
(NT) [2] Ver Thierry Meyssan, Elliott Abrams, le “gladiateur” converti à la
“théopolitique”, Voltaire, 14/02/2005. |