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31/08/2006 Israel nos bastidores de Washington André Levy A recente agressão israelita no Líbano ilustrou claramente a
estreita relação entre o Estado Judaico e os EUA. Quando a maioria no
ocidente apelava para um cessar-fogo, a secretária de Estado norte‑americana,
Condeleezza Rice, declarava tolerar os bombardeamentos israelitas e a morte
de civis durante mais uns dias. E Israel ia recebendo encomendas militares
dos EUA (pelo menos uma passando pelos Açores!). Sabe-se agora que o ataque
ao Líbano estava já planeado e coordenado com os EUA, tendo Israel recebido carta
branca para atingir objectivos e ensaiar tácticas que poderão ser úteis aos
EUA num eventual ataque ao Irão [1]. A ligação entre os dois países tornou-se particularmente íntima
durante a presidência de Reagan, no rescaldo da crise do petróleo e da revolução
islâmica no Irão. Israel tem liderado, desde 1976, a lista de países
beneficiando de apoio financeiro e militar dos EUA e, desde 1949, os EUA
terão oferecido mais de USD$108 mil milhões em apoio financeiro directo a
Israel [2]: anualmente cerca de um quinto do apoio externo directo dos EUA,
ou USD$500 por cidadão israelita. Isto para um país com o PIB per capita equivalente
ao da Espanha ou Coreia do Sul. As economias dos dois países estão também cada vez mais
interligadas. Nos anos 90, a economia de Israel sofreu um processo de
concentração de capital e uma crescente transnacionalização. Em 2005, Israel
ultrapassou o Canadá e tornou-se o segundo país em número de empresas cotadas
no NASDAQ da bolsa de Nova Iorque [3]. Entre 1999-2004, as oscilações da
bolsa de Telavive foram altamente correlacionadas com as do NASDAQ [4] (87%),
isto é, a bolsa foi mais influenciada pela “nova economia global” do que pelo
andamento do processo de paz ou a Intifada. Num sinal de confiança na
economia israelita, recentemente, Warren Buffett, investidor norte‑americano
e a segunda pessoa mais rica do mundo, comprou 80% da Iscar, uma companhia israelita
que produz equipamento industrial, um investimento de USD$4 mil milhões. DIPLOMACIA DE MÃOS DADAS A cumplicidade entre os dois países estende-se à esfera diplomática.
Desde 1982, os EUA vetaram 32 resoluções do Conselho de Segurança das Nações
Unidas censurando Israel, um número que excede o somatório de vetos dos
restantes membros do CS. Por seu lado, Israel tem sido muitas vezes o voto
solitário apoiando os EUA. Por exemplo, desde 1992, todos os anos é
apresentada uma resolução à Assembleia Geral da ONU apelando ao fim do embargo
dos EUA contra Cuba. Israel tem sido o único país que consecutivamente tem
votado ao lado dos EUA contra a resolução. Nos EUA, a intimidade entre os dois países é justificada pela
sobreposição de interesses estratégicos. Contudo, a opressão do povo palestino
é um dos factores unanimemente reclamado pelo mundo árabe como factor de
desestabilização regional, dificultando assim as relações dos EUA com os
membros árabes da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP). E
Israel nem sempre é o aliado leal, ignorando apelos dos EUA para suspender a
construção de colonatos, vendendo tecnologia militar à China, ou conduzindo
uma intensa operação de espionagem contra os EUA. Ainda este ano, o Cor.
Larry Franklin da Força Aérea dos EUA foi condenado por ter passado
inteligência a Israel sobre a política dos EUA contra o Irão. Vários artigos publicados este ano argumentam que o apoio
incondicional dos EUA a Israel, contra o interesse nacional dos EUA, se deve
à força do lobby israelita [5]. A organização mais poderosa deste lobby, a
AIPAC [6], foi eleita como o segundo lobby mais influente de Washington.
Através de contribuições financeiras nas corridas eleitorais, mais de USD$42
milhões para candidatos ao Congresso desde 1978 [7], estas organizações têm
logrado travar qualquer debate no Congresso que insinue ser crítico a Israel.
Organizações como a AIPAC, JINSA [8] e a CoP [9] não representam a maioria
dos judeus nos EUA, favoráveis ao processo de paz e a “concessões” aos palestinianos,
mas antes a ala expansionista do partido de direita Likud. O lobby pró‑Israel
é composto não apenas por organizações de raiz judaica: o recém-formado
Cristãos Unidos por Israel representa um sionismo cristão que pretende
rivalizar com o protagonizado pela AIPAC e tem já grande crédito no Congresso
e na Casa Branca, tendo com sucesso influenciado esta administração a ter uma
postura de confronto com o Irão, recusar apoio aos palestinianos e dar carta
branca a Israel no seu ataque ao Líbano. Para esta corrente evangelista, na
qual se pode incluir o Presidente Bush, os conflitos no Médio Oriente são um
sinal do fim dos dias e da aproximação do arrebatamento. Acolhem assim com
alegria e fervor religioso a destruição e a morte de inocentes. _______ [1] Seymour Hersh, Watching Lebanon,
The New Yorker, 21/08/2006. [2] Washington Report on Middel East
Affairs [3] Israel in Second Place in Nasdaq
Listings, Israel High-Tech & Investment Report, Novembro de 2005. [4] Shimshon Bichler e Jonathan
Nitzan, Israel’s
Global Capitalism (pdf), Junho 2004. [5] John Mearsheimer e
Stephen Walt, The Israel
Lobby, London Review of Books, vol. 28 no. 6, 23/03/2006; Michael
Massing, The storm over the
Israel lobby, New York Review of Books, vol. 53, no. 10, 08/06/2006; Kathleen
e Bill Christison, The power of the
Israel lobby, Counterpunch, Junho
16/18, 2006. [6] American Israel Public
Affairs Committee [7] http://www.washington-report.org/archives/May-June_2006/0605031.html [8] Jewish Institute for
National Security Affairs [9] Conference of
Presidents of Major American Jewish Organizations |