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18/08/2006 Guerra do Iraque em tribunal Eli Sanders * Um oficial do exército que se recusou a cumprir serviço no Iraque
vai a tribunal com um novo argumento: ele tinha o dever de desobedecer porque
a guerra é ilegal. Quando se recusou a ser mobilizado para o Iraque, em Junho, o
tenente do exército Ehren Watada disse estar a agir segundo a sua consciência
e a cumprir o seu dever de não obedecer a ordens ilegais. Mas isso não
impressionou os oficiais militares, que logo o acusaram de violar as regras
do exército e o puseram na calha para o tribunal marcial. Assim fazendo, desencadearam uma confronto pouco habitual entre um
homem que se crê ser o primeiro oficial a recusar servir no Iraque e um
sistema de justiça militar que agora vai ter de deliberar sobre a legalidade
da guerra. Esta quinta-feira, numa sala de audiência pejada, na base do
exército a sul de Seattle, os advogados do tenente Watada utilizaram a
oportunidade para levar a julgamento a própria guerra, tentando provar que
ele tinha razão para considerar a guerra «manifestamente ilegal» e,
consequentemente, para se recusar a participar nela. «Um soldado tem o dever
de desobedecer às ordens ilegais», disse Francis Boyle, professor de direito
internacional formado em Harvard que testemunhou a favor do tenente Watada e
cujo orientador foi o autor do manual de campo para a guerra terrestre do
exército. «Atendendo às circunstâncias desta guerra, se ele tivesse aceitado
a mobilização, teria sido cúmplice de um crime de Nuremberga contra a paz». Boyle, juntamente com um subsecretário-geral das Nações Unidas e um
coronel reformado do exército, defenderam que a decisão dos EUA de atacar o
Iraque em 2003 sem a autorização da ONU tornou a guerra ilegal desde o
começo. Foi mais longe, argumentando que o falhanço da Administração Bush em
encontrar quer armas de destruição maciça quer uma ligação provável entre o
Iraque e os atentados de 11 de Setembro, mostrava que o Congresso fora
persuadido «por meios fraudulentos» quando votou para autorizar a guerra. O tenente Watada, de 28 anos, nasceu em Honolulu e fazia parte duma
unidade Stryker que foi para o Iraque em 22 de Junho – sem ele. Alistou-se no
exército a seguir ao 11 de Setembro e prestou inicialmente serviço na Coreia
do Sul, onde recebeu as estrelas da patente dos seus superiores. Ainda no
verão passado tinha vontade de ir para o Iraque. Mas quanto mais ia sabendo
acerca da guerra, mais dúvidas tinha, segundo as suas declarações públicas. Em Janeiro, depois de se ter convencido de que a guerra era ilegal,
preferiu demitir-se a ir para o Iraque, mas o exército não lho permitiu. Como
um compromisso, pediu para ser antes enviado para o Afeganistão, uma guerra
que apoia. O seu pedido não foi atendido. Na audiência de ontem – precursora de um tribunal marcial conhecido
por “audiência do Artigo 32” – Watada, com o seu uniforme de licença,
sentou-se calmamente, sem fazer declarações, e durante os intervalos não
respondeu às perguntas dos numerosos repórteres presentes para seguir o
processo. Todavia, os acusadores militares apresentaram vários vídeos do
tenente Watada a falar em público das suas razões para não comparecer à
chamada. Num dos vídeos, de um encontro dos Veteranos pela Paz realizado em
Seattle no último fim-de-semana, Watada explicava que está a tentar avançar
com uma “ideia radical” que nasceu durante a guerra do Vietname. «A ideia é a
seguinte», disse. «Que para parar uma guerra ilegal e injusta, os soldados e
funcionários do exército podem optar por parar de combater nela». Isso, disseram os acusadores, é precisamente o que mais temem. Dar
crédito ao argumento do tenente Watada, disseram, provocaria uma quebra na
ordem e na disciplina militares. «É simplesmente perigoso permitir que isto aconteça
no nosso exército», disse o capitão Dan Kuecker, um dos acusadores. «Não
compete a um tenente decidir», disse, «se uma guerra é legal ou não – compete
aos políticos e aos legisladores». O comportamento de Watada, disse o capitão
Kuecker ao tribunal, «é desonroso e ignominioso». Ao coronel Mark Keith, que presidiu à audiência, competirá decidir nos próximos dias se há motivo para enviar Watada a tribunal marcial. Se tiver lugar, e Watada for condenado, poderá enfrentar até sete anos de prisão. |