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11/05/2006 Imigrantes levam 1.º de Maio aos EUA John Catalinotto Nunca houve na história dos Estados Unidos um 1.º de Maio como o
deste ano. Cerca de três milhões de trabalhadores imigrantes não se
apresentaram ao trabalho, fecharam as lojas e desfilaram com as respectivas
famílias e apoiantes em pelo menos 60 cidades em todo o país exigindo a
legalização do direito de permanecer e de trabalhar no país. Quando a Câmara dos Representantes deixou passar a lei
anti-imigrante designada por HR4437, em Dezembro último, os reaccionários que
a propuseram não imaginavam que isso iria desencadear um poderoso movimento
que abalaria o situacionismo e inspiraria a classe trabalhadora. Como parte da sua estratégia anticomunista, o governo dos EUA há
muito que transferiu o feriado do Dia do Trabalhador para o início de
Setembro, de forma a separá-lo do feriado do Dia Internacional do
Trabalhador. Como o 1.º de Maio não é feriado nos EUA, isso significa que
quem não vai trabalhar para participar na manifestação está também em greve.
Em muitas cidades os grupos de imigrantes apelaram também ao boicote ao
consumo nesse dia. Assim, pela primeira vez na história dos EUA, houve não
apenas manifestações de massas mas também um boicote e uma greve geral
parcial no 1.º de Maio. Entretanto, a luta no Congresso continua sem sinais aparentes de
resolução. O movimento de contestação continua a crescer, mas os imigrantes
indocumentados enfrentam ainda a ameaça de novas leis severas e de
deportação. Estamos perante um novo movimento pelos direitos cívicos por
parte da população que não tem direito de voto, e para quem será extremamente
importante conseguir mais apoio do movimento organizado dos trabalhadores,
que tem agora a oportunidade de assistir a uma luta que ajudará todos os trabalhadores. Dezenas de milhões de imigrantes entraram nos EUA desde 1990, com e
sem autorização legal. Actualmente há no total cerca de 36 milhões de
imigrantes nos EUA. O Pew Hispanic Center estima que em Março de 2005 o
número de imigrantes ilegais oscilava entre os 11,5 e os 12 milhões de
pessoas. Destes, cerca de 56 por cento são originários do México, 22 por
cento do resto da América Latina e das Caraíbas, e 10 por cento da Ásia. UM FACTOR DE DESENVOLVIMENTO Pelo menos 7,2 milhões dos imigrantes trabalham, representando cerca
de cinco por cento da força de trabalho de um total de 148 milhões. Sucede no
entanto que estes trabalhadores estão concentrados em indústrias específicas.
«Representam 24 por cento do total de trabalhadores da agricultura, 17 por cento
dos trabalhadores de limpeza, 14 por cento da construção civil, e 12 por
cento na indústria alimentar», segundo o Pew, e estão concentrados nos
trabalhos mais difíceis e perigosos, como por exemplo na colocação de
telhados. Esta concentração significa que em certas partes do país todas as
indústrias fecharam no 1.º de Maio. Nenhum dos 175 trabalhadores sazonais
apareceu nos 150 acres dos campos de cebolas de Vidalia, no sudeste da
Geórgia. Noventa por cento dos trabalhadores portuários de Los Angeles e Long
Beach não foram trabalhar. O maior produtor mundial de alimentos, Tyson
Foods, Inc., fechou pelo menos 10 das suas mais de 100 fábricas, sobretudo no
Iowa e no Nebrasca. Oito dos 14 aviários Perdue Farms estiveram igualmente
encerrados. Mais de metade dos 1147 trabalhadores da construção no Dulles
International Airport, em Washington, DC, boicotaram o trabalho. Jack Kyser, economista-chefe do Los Angeles Economic Development
Corp., disse que um dia de boicote poderia custar qualquer coisa como 200 milhões
de dólares à comarca de Los Angeles, que tem a mais elevada concentração de
imigrantes mexicanos do país. Alguns dos grupos de imigrantes apelaram fortemente à greve/boicote
no 1.º de Maio. Outros apoiaram simbolicamente as acções de luta, receando enfrentar
a repressão. Alguns grupos – incluindo alguns sindicatos – pressionaram no
sentido de adiar o protesto de forma a não coincidir com o 1.º de Maio. Nos
dias que antecederam a data, a generalidade dos média enfatizou as
divergências e tentou dar uma imagem de isolamento dos defensores da luta. Nada disto fez grande diferença no 1.º de Maio. A esmagadora maioria
dos activistas imigrantes queriam uma acção forte e queriam muito que ela
fosse no 1.º de Maio. Saíram à rua em todo o país e trouxeram consigo as
famílias. O PROTESTO DE TODAS AS COMUNIDADES O Avante! recolheu alguns testemunhos que ilustram o que
aconteceu nos EUA. Segundo o jornalista político Lou Paulson, «foi o maior protesto da
história de Chicago, estimado pelos organizadores em 700.000 pessoas. Um mar
de trabalhadores imigrantes confluiu para a baixa de Chicago durante três
horas consecutivas. Uma floresta de bandeiras de todas as nacionalidades da
comunidade de imigrantes de Chicago assinalava a cabeça da manifestação.
Apesar de cerca de 90 por cento dos manifestantes serem oriundos do México,
houve um contingente notável de outros países da América Latina e também das
comunidades palestiniana, irlandesa, polaca, coreana, indiana e
paquistanesa». De acordo com Paulson, «apesar de a maioria dos organizadores da
região de Chicago não ter apelado ao boicote ao trabalho, aos negócios e às
aulas, o boicote foi claramente assumido pela comunidade. Muitos restaurantes
e distribuidores de comida fecharam; muitos empregadores da comunidade mexicana
encerraram voluntariamente as portas ou dispensaram os trabalhadores para que
se pudessem manifestar». Em Los Angeles, falámos com John Parker, activista da comunidade
afro‑americana, que recentemente organizou uma conferência de
solidariedade com os imigrantes. «A organização estima que a manifestação de
City Hall teve mais de um milhão de pessoas», disse Parker. «Foi anunciado que 72.000 estudantes faltaram à escola. A marcha de
City Hall mostrou mais unidade do que nunca. A Nação do Islão providenciou a
segurança. Os oradores incluíram o sacerdote Tony Muhammad do NOI, e o pastor
Louis Logan da igreja Baptista Bethel, bem como dirigentes do Concelho
Distrital de Trabalhadores do Sudeste da Califórnia, do Grupo Parlamentar PRI
e muitas organizações mexicano‑americanas». Hempstead, Nova Iorque, em Long Island, próximo da cidade de Nova
Iorque, nunca viu uma tão massiva manifestação de trabalhadores. Mas foi um
grupo activo de trabalhadores imigrantes, encabeçado por veteranos da FMLN de
El Salvador, que combateram a mobilização racista anti-imigrantes. Quando Carlos Canales pediu ao mayor de Hempstead autorização
para uma manifestação de 800 pessoas, nunca esperou que fossem aparecer 5.000.
«Trabalhadores e imigrantes de Long Island mudaram hoje a história», afirmou.
«Os imigrantes trouxeram de volta o 1.º de Maio». Os organizadores estimam que mais de 60 empresas de Long Island
estiveram encerradas. E ainda enviaram cinco autocarros cheios de gente à
manifestação na cidade de Nova Iorque. SOLIDARIEDADE DOS OPRIMIDOS Em Nova Iorque, centenas de milhares de imigrantes concentraram-se
nos arredores de Washington Heights e Chinattown em Manhattan até Jackson Heights
em Queens e Flatbush em Brooklyn, encheram o Union Square Park e desfilaram
mais de três quilómetros pela Broadway. Como no resto do país, a maioria dos
manifestantes era do México e América Central, mas as comunidades de
imigrantes enviaram representantes e oradores virtualmente de todos os países
da América Latina e das Caraíbas, da China e Coreia, um grande grupo das
Filipinas, do Senegal e de outros países de África, do Paquistão – cujos
comerciantes fecharam as suas lojas por uma hora – e Sul da Ásia, Polónia e
Irlanda. O porta-voz do movimento Afro-Americano deixou clara a sua
solidariedade. Dirigentes nacionais e locais como Jesse Jackson e Al
Sharpton, e o membro do conselho Municipal Charles Barron falaram à multidão
na Union Square. «São as grandes corporações que ameaçam os postos de
trabalho, não os imigrantes», disse Jackson. Os dirigentes sindicais negros
também estiveram presentes. Como Roger Toussaint, presidente do Transport
Workers Union Local 100, de Trinidad, acabado de ser libertado da prisão onde
cumpriu cinco dos 10 dias da pena que lhe foi imposta por ter dirigido a
greve dos transportes em Dezembro. O dirigente do Teamster Black National
Caucus, Chris Silvera, que ofereceu as instalações do sindicato em Queens
para quartel‑general da Coligação 1.º de Maio de Nova Iorque, esteve
também presente, tal como Brenda Stokely, da Marcha de Um Milhão de
Trabalhadores. É interessante registar que a grande imprensa atacou Jesse Jackson
por apoiar a marcha dos imigrantes. Os média exageraram as divergências entre
a população afro‑americana e latina. Aparentemente, a classe dirigente
quer impedir qualquer possível coligação entre os dois sectores oprimidos da
população. Na marcha de Nova Iorque, contudo, a maioria dos trabalhadores
religiosos afro‑americanos deixaram alegremente os seus escritórios e
saudaram a passagem das centenas de milhares de manifestantes. Este novo movimento enfrenta muitos desafios, sendo o imediato saber como impedir que a legislação reaccionária passe no Congresso. Mas já conseguiu mudar a atmosfera que se vive no centro do mundo imperialista. Ruth Vela, jovem dirigente mexicana de San Diego, resumiu assim o histórico 1.º de Maio: «Hoje mostrámos que o chamado ‘gigante adormecido’ não está a dormir, mas a trabalhar activamente. Se os trabalhadores não receberem o respeito, a dignidade e a justiça que pedem, então irão buscá-los.» |