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21/09/2004 Tiago Soares Sentados frente a frente, o
repórter e o candidato presidencial tentam quebrar o gelo antes da
entrevista. «E a família?», pergunta o político. «Ah, vão bem. A minha mulher
e a minha cunhada estão firmes fazendo campanha pelo senhor», responde,
casualmente, o jornalista. Entusiasmado, segue: «Elas estão rodando o Estado
todo. No início, a minha esposa estava meio receosa, mas, agora, está
entusiasmadíssima». O candidato ri, e ri de novo. Comenta: «A sua esposa tem
uma alma muito boa. Muito boa». E a entrevista começa. A situação, exemplo pouco
recomendável de postura jornalística, é real. Aconteceu em meados de 2000,
protagonizada pelo analista político da rede de TV norte‑americana Fox
News, Carl Cameron, e o então candidato à presidência dos EUA, George W.
Bush. A cena faz parte de Outfoxed (EUA, 2004) [1], documentário do
norte-americano Robert Greenwald que analisa os subterrâneos dos grandes
mídia corporativos. Rodado com apenas 300 mil
dólares, orçamento baixíssimo para os padrões norte‑americanos, Outfoxed
(trocadilho com o nome Fox e expressão que, em inglês, significa algo
como “passado para trás”), destrinça os efeitos políticos e sociais do
controle da informação pelos grandes grupos de mídia. Para isso, usa o
exemplo dos mecanismos de produção da rede jornalística de TV por cabo Fox
News, do magnata das comunicações – e Republicano – Rupert Murdoch. Da
sala de redacção para o marketing As restrições orçamentárias enfrentadas
pelo documentário aparecem com nitidez. Mas a qualidade da análise fala mais
alto. Ela está baseada no trabalho de críticos de mídia, ex-funcionários da Fox,
políticos e académicos – um grupo que inclui gente como o mitológico
jornalista Walter Cronkite, o veterano crítico cultural James Wolcott, e o
analista político/agitador cultural Al Frenken. Este “elenco” dá fôlego a um
minucioso escrutínio dos circuitos pelos quais a informação é produzida
dentro dos mídia corporativos e a sua relação com as prioridades das agendas
de governo e o jogo de forças da política partidária. Há motivos para a escolha da Fox
News como caso de estudo. Além do viés abertamente pró-republicano, a Fox
é exemplo emblemático de uma “escola” de jornalismo cada vez mais atraente
para as grandes corporações de mídia. Ela se define por dois factores-chave:
a crescente intimidade nas relações entre os poderes público e corporativo, e
uma dificuldade geral em definir os limites que separam a informação
jornalística do puro (e lucrativo) entretenimento. «Ficava abismada em perceber
como as pautas migravam da sala de redacção para o departamento de
marketing», afirma, no documentário, uma ex-funcionária da rede de Murdoch. E
dá exemplos de reportagens embaladas como presente, entrecortadas por
vinhetas vibrantes e apresentadas por locutores que, deixando de lado
qualquer fiapo de objectividade e carregando no apelo emocional, atingem os
telespectadores no que têm de mais vulnerável. Tudo sempre acompanhado, para
que não dê muito na vista, do slogan “fair and balanced” – “justo e
equilibrado”, em português. Uma fórmula lucrativa que pode causar ainda mais
estragos quando coordenada com posições políticas entusiasmadas. Repetir,
repetir, repetir Australiano de nascimento,
arquitecto de um império editorial que se estende pela Austrália e Reino
Unido, Rupert Murdoch, tornou-se cidadão norte-americano (e ferrenho defensor
das causas do Partido Republicano) em meados da década de 80. A sua
naturalização foi, em boa parte, estimulada pelo interesse em adentrar o nada
desprezível mercado televisivo norte-americano. Nos EUA, tornou-se partidário
entusiasmado de Ronald Reagan, e em pouco tempo já contava com influência
política suficiente para montar a sua própria rede de TV. Aquando da fundação
da Fox News, em 1996, Murdoch não foi tímido ao alinhar a linha
editorial do canal à agenda Republicana. Para homem forte da rede, o
escolhido foi Roger Ailes, ex-consultor de comunicação dos ex-presidentes
Richard Nixon e Ronald Reagan. A ideia de corporações de
mídia alinharem estratégias de produção a interesses políticos e económicos
encontrou na Fox News uma fronteira inexplorada. O canal é o pioneiro
numa nova espécie de jornalismo, altamente carregado de agendas, pouco
reverente à objectividade e obsessivamente preocupado em vender-se como
entretenimento. «Nunca vi rede alguma tratar o jornalismo do modo como a Fox
trata», constata, no documentário, Walter Cronkite, um dos pais do
telejornalismo norte-americano. Para as corporações de mídia,
a fórmula é como matar os proverbiais dois coelhos de uma só cajadada.
Garante às companhias, por um lado, audiência e lucros; por outro, manutenção
de influência política. No entanto, isso traz, em médio prazo, o risco de
deixar “encurralados” os grandes grupos de mídia. Limitados pela sua
estrutura monolítica e desesperados por audiência, acabam adoptando práticas
mais apelativas que as dos concorrentes – algo que, invariavelmente, nivela
por baixo o que é oferecido ao espectador. Mais do que ofender o bom
senso dos telespectadores, essa homogeneização pode acabar perigosamente
reflectida no processo político. Ou, como posto no filme pelo autor e
analista político David Brock: «Quando entram na cabine de votação, as
pessoas já foram submetidas a uma campanha, e a uma série de informações
falsas, distorcidas, caricaturais. Além disso, há um eco, uma câmara de
ressonância em outros veículos, que faz com que essa informação seja
repetida, e repetida, e repetida. É bem possível que, no fim, elas nem saibam
de onde essa informação veio – e isso põe a democracia em risco». Além
da propaganda Apesar de transformado em
arma de contra-propaganda pelo Partido Democrata – o DVD do filme vem sendo
vendido a preços promocionais por publicações ligadas ao partido, além de
exibido em encontros promovidos pela MoveOn –, Robert Greenwald (que,
entre outros filmes, dirigiu também o polémico Uncovered, sobre a
guerra no Iraque) faz questão de deixar claro que o seu objectivo era outro
quando pensou o documentário. «Outfoxed é sobre controle dos mídia,
pretende dialogar com o facto de que hoje cinco companhias virtualmente
controlam os mídia norte-americanos. O seu foco é na Fox News por ser
este um exemplo do que acontece quando se tem o controle extremo dos mídia»,
declarou o realizador em entrevista ao website I Want Media. Para rastrear e analisar o
conteúdo da programação do canal, Greenwald contou com o auxílio de painéis
reunindo dezenas de voluntários, gente que depurou toda a informação
veiculada pela Fox News 24 horas por dia ao longo de vários meses,
analisando o que – e como – era veiculado. Foi desse “olhar colectivo” que o
realizador pinçou o mosaico de exemplos que costura a argumentação – o que, no filme, acaba resultando numa
edição mais equilibrada, algo “blindada” contra maiores tentações
maniqueístas. Outfoxed ainda não tem previsão de estreia em Portugal. O barulho causado pelo
documentário nos EUA transformou-o num dos azarões da temporada, levando-o a
fazer caminho inverso ao normal – do DVD para os cinemas – e a figurar na
lista de títulos mais vendidos na internet pela gigante Amazon. Além disso, o
filme vem sendo disponibilizado por internautas para download em redes p2p
(peer to peer), como Bit Torrent ou E-Donkey. Licença
Creative Commons Greenwald tornou disponíveis
ainda os takes “crus” do filme na internet para serem “remixados” por
interessados. Gratuito, o material filmado não editado (excepto pelos takes
dos noticiários da Fox News, de propriedade da Fox) foi posto à
disposição sob licença Creative Commons, através da qual o detentor dos
direitos permite a outros que reutilizem a sua obra em outros trabalhos. Uma iniciativa que não pára
por aí. Afinal, a intenção do realizador, como declarado em entrevista ao Los
Angeles Times, é «criar agora um pequeno grupo de pessoas que possa continuar
a fazer documentários, curtas metragens, vídeos, coberturas de conferências,
coisas que ajudem organizações que necessitem desse tipo de material. Tenho
vontade de fazer isso não só nas iniciativas relacionadas com as grandes
questões, mas também com aquelas ligadas às questões dos movimentos
populares». |
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[1] Página oficial: http://www.outfoxed.org