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04/05/2006 Muda a imagem André Levy «Como sabemos, existem conhecidos conhecidos; há coisas que sabemos
que sabemos. Também sabemos que existem conhecidos desconhecidos; quer dizer
sabemos que existem coisas que não sabemos. Mas também existem desconhecidos
desconhecidos – coisas que não sabemos que não sabemos.» Este é um exemplo da
clareza de comunicação de Donald Rumsfeld, Secretário da Defesa dos EUA, uma
das figuras ideológicas e estratégicas centrais na Casa Branca desde que Bush
II assumiu a presidência. Esta instância de poesia evasiva foi recitada, em
2002, após perguntas sobre a existência de armas de destruição massiva no
Iraque. À semelhança de outros membros do círculo de Bush, Rumsfeld fez uso
da oclusão, jogos de palavras e mentira para promover falsos motivos para
invadir o Iraque, camuflando objectivos geoestratégicos que ele e o capital
que representa vêm ambicionando de longa data. O 11 de Setembro serviu de pretexto não só para trazer o Iraque para
a esfera de influência directa dos EUA, como para conduzir reformas profundas
na estrutura dos serviços militares, reforçar o domínio da DIA – Agência de
Inteligência de Defesa, sob coordenação do Pentágono – no seio da comunidade
de serviços de inteligência dos EUA, e estabelecer políticas militares explicitamente
imperiais e beligerantes, tais como o objectivo de Domínio de Espectro Total
e o uso de armas nucleares em combate convencional e de forma preemptiva. Algumas das decisões de Rumsfeld foram contra a opinião e
recomendações militares. Críticos internos foram premiados com reformas
antecipadas ou afastamentos. Em 2003, o Gen. Eric Shinseki, então Chefe de
Estado Maior do Exército, testemunhou perante o Congresso que a ocupação do
Iraque necessitaria de mais de 300 mil tropas, enquanto Paul Wolfowitz, o
falcão neo-conservador, então o número dois no Departamento de Defesa e agora
presidente do Banco Mundial, rejeitou essa estimativa e recomendou menos de
metade de contingente. Shinseki foi empurrado para a reforma antecipada em
retaliação pela discórdia pública, num sinal claro à hierarquia que dissensão
teria consequências. Depois da invasão, quando já era evidente que a ocupação
iria enfrentar a resistência do povo iraquiano, o Gen. Anthony Zinni, ex‑chefe
do Comando Central, acusou Washington de não ter preparado efectivamente o
pós-guerra, e pediu a demissão de Rumsfeld. CONTESTAÇÃO SEM PRECEDENTES Em Março deste ano, Shinseki e Zinni voltaram a público. E nos
últimos dois meses, cinco outros generais na reserva tiveram igual postura,
numa demonstração de desagrado pelo Secretário de Defesa por parte das
patentes militares sem precedentes. O Major-General Paul Eaton, que treinou
os militares iraquianos no primeiro ano de ocupação, argumentou nas páginas
do New York Times que Rumsfeld «demonstrou ser estratégica,
operacional e tacticamente incompetente». O Tenente-General da Marinha
Gregory Newbold, oficial encarregue de operações antes da invasão, repreendeu
as altas patentes, na revista Time, por terem agido «timidamente
quando as suas vozes necessitavam urgentemente de serem ouvidas», e que em
consequência do conformismo militar «executou-se um plano com falhas
fundamentais para uma guerra inventada». Os militares estão furiosos com a administração. O número de
soldados mortos e feridos em combate acumulam‑se. Os recrutadores
militares enfrentam dificuldades em atrair jovens, e são frequentemente confrontados
com protestos quando se dirigem a escolas e universidades. Rumsfeld foi
inclusivamente processado por vários adolescentes de Nova Iorque alegando que
o Pentágono tem uma lista ilegal de estudantes para serem abordados. O exército recebeu ordens para executar tortura e quando tal vem a
público foi este o responsabilizado. Rumsfeld não assume o seu nível de
conhecimento e responsabilidade pela tortura de prisioneiros por si ordenada
e conduzida em Guantanamo, Abu Ghraib, Bagram e dezenas mais de prisões
militares estadunidenses. Segundo um recente relatório da Human Rights Watch,
Rumsfeld recebeu comunicações regulares quando Mohammad al-Qahtani foi
abusivamente interrogado em Guantanamo, e como tal deveria ser não só
demitido mas processado, ao abrigo do princípio de Nuremberga que atribui a
responsabilidade aos superiores por crimes cometidos, com o seu conhecimento,
pelos seus subordinados. Bush recusa-se, porém, a demitir Rumsfeld. É demasiado central para a sua política, e a sua demissão representaria admitir uma derrota política incomportável num ano de eleições para o Congresso e com a sua popularidade abaixo dos 35%. Em típica estratégia dos republicanos, não se muda a política, muda‑se a imagem, substituindo o porta-voz da Casa Branca, Scott McCennan, por Tony Snow, um simpático jornalista conservador da cadeia televisiva Fox. |