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27/04/2006 Caça às bruxas na CIA Anabela Fino Desde o início do ano que dezenas de oficiais da CIA estão a ser
submetidos a exames de polígrafo, também conhecido como ‘detector de
mentiras’, revelou esta segunda-feira o diário The New York Times. A medida foi ordenada pelo próprio director da Agência, Porter Goss,
que juntamente com o seu número dois, o vice‑almirante Albert M.
Calland III, foi dos primeiros a submeter-se ao teste, alegadamente para “dar
o exemplo”. Seguiu-se-lhes, entre outros, o inspector-geral da CIA, John
Helgerson, a quem cabe o controlo interno da organização. Na origem desta insólita actuação está, pasme-se, não a circulação
de mentiras, mas sim a divulgação de verdades. Verdades muito, muito
incómodas, é certo, mas que toda a gente tem o direito de conhecer. Falamos
das prisões secretas que a CIA tem espalhadas pelo mundo, cuja existência
veio a público graças às informações passadas à imprensa pela oficial Mary
MacCarthy, que foi despedida a semana passada. Ou seja, o que preocupa a Agência Central de Inteligência
norte-americana é que os seus membros, a começar pelos principais
responsáveis, possam vir a público dizer a verdade, pelo que os respectivos
responsáveis não encontraram expediente melhor do que submeter toda a gente
ao detector de mentiras. Não se pode dizer, em boa verdade, que haja motivos para surpresa.
Com efeito, desde que nos finais de 2004 o presidente Bush nomeou Goss para a
direcção da CIA que se tornou evidente que a mentira compensa, desde que se
seja a voz do dono. Lembramos, para os mais esquecidos, que Goss foi um dos
principais protagonistas da propagação das informações falsas sobre as
alegadas armas de exterminação maciça no Iraque. Sob a liderança de Goss acentuaram-se os conflitos na Agência, onde
a caça às bruxas não poupou as vozes críticas. Um dos muitos saneados foi o
analista Michael Scheuer, sob suspeita desde que escreveu um livro
questionando as motivações políticas da Casa Branca na chamada guerra ao
terrorismo. Desconhece-se ainda o saldo final da depuração em curso na CIA, mas
não é preciso mais nada para que, quem ainda alimentava dúvidas, conclua de
uma vez que a mentira está transformada em política de Estado nos EUA. Enquanto a administração Bush vai continuando a fazer os seus discursos invocando os valores da democracia e dos direitos humanos, os agentes da CIA treinam a técnica da mentira refinada e são intimados a admiti‑la como a única verdade oficial. Cair na tentação da verdade verdadeira é o único erro que não podem cometer. |