Informação Alternativa

Estados Unidos da América

23/03/2006

 

Estado de guerra

 

André Levy

Avante!

 

Em Maio de 2003, Bush aterrava num caça no porta-aviões USS Abraham Lincoln, na costa da Califórnia, para anunciar com grande fanfarra e teatralidade que “a missão estava cumprida”. Passados quase três anos, os EUA estão atolados num cenário que não logram compreender nem controlar. O dirigente da resistência iraquiana Jabbar al Kubaysi assegurou, durante a sua recente visita a Lisboa, que a ocupação será derrotada, pois os EUA enfrentam uma cultura de resistência em todo o território. Os custos da aventura acumulam­‑se, e Bush enfrenta uma crescente oposição doméstica à presença no Iraque e dificuldades em recrutar jovens para servirem numa guerra sem perspectiva de fim ou vitória. O número de militares dos EUA mortos no Iraque ultrapassa já os 2300 [1] e o número de feridos excede os 16 mil. Uma estimativa conservadora aponta para cerca de 35 mil o número de mortos civis iraquianos, mas os verdadeiros custos são inestimáveis. Há quem, contabilizando a batalha de Falluja, aponte para mais de 250 mil mortos.

 

Longe de dar mostras de conter as suas operações ou retirar-se, como o exige o povo do Iraque, a maioria do povo do mundo e a razão, a administração Bush reforça as suas operações. A agência Knight Ridder noticiou recentemente que o número de raides aéreos dos EUA aumentou dramaticamente nos últimos 5 meses, como ilustrado pelo recente ataque massivo a Samarra. Até à data foram gastos quase 250 mil milhões de dólares nas operações militares no Iraque [2], muito além das mais ousadas estimativas iniciais, e o novo orçamento federal dos EUA compreende um aumento de 44% na despesa militar no Iraque e Afeganistão. O Gen. John Abizaid, que coordena as operações militares no Iraque, em declarações à Casa de Representantes, não pôde excluir a possibilidade dos EUA manterem uma presença militar permanente naquele país: «Trata-se no fundo de garantir a livre circulação de bens e recursos da qual depende a prosperidade da nossa nação e do mundo.»

 

Nem tão pouco se verifica o abandono da noção de “guerra preventiva”. Na versão 2006 da Estratégia de Segurança Nacional [3], o relatório presidencial apresentado ao Congresso que esboça a sua visão estratégica, a administração Bush reafirma os ataques preventivos como legítimos e destaca o Irão como o país que constitui o «maior desafio» aos EUA. Além do alegado programa de desenvolvimento de armas nucleares, os EUA acusam o Irão (e a Síria) de «albergarem terroristas no seu território e patrocinarem actividades terroristas fora de fronteiras», e enuncia claramente que o objectivo dos EUA é alterar o regime iraniano.

 

AMEAÇA NUCLEAR

 

Consta que no gabinete do secretário de Defesa Donald Rumseld está emoldurada a seguinte frase: “Quando confrontado com um problema irresolúvel, alarga­‑se o problema”. Os paralelos entre as acusações ao regime de Saddam Hussein, que se vieram a provar falsas, e o crescendo de acusações ao regime iraniano devem inquietar o mundo. Os EUA não têm contingente para uma nova invasão, nem o farão certamente contra um país que não se encontra enfraquecido por anos de bloqueio. Mas existe a real possibilidade de ataques “cirúrgicos” que excederão a dimensão do ataque israelita a Osiraq em 1981. Mais preocupante, esses ataques podem vir a envolver armas nucleares.

 

Desde Junho de 2005 que os EUA e seu aliados militares na região – Israel e Turquia – estão em “estado de prontidão” para lançar ataques aéreos ao Irão. Alguns analistas sugerem que armas convencionais poderiam ser usadas inicialmente e que em caso de retaliação iraniana a contra­‑resposta poderia consistir no uso das chamadas armas nucleares tácticas [4]. A nova doutrina nuclear dos EUA [5], enunciada em 2005, vai ainda mais além da Revisão de Postura Nuclear que em 2001 já havia contemplado o uso de armas nucleares de forma preventiva. Este novo documento admite “acções antecipatórias” usando armas nucleares contra «armas ou capacidades que existem ou venham a existir a curto prazo, mesmo que não exista um imediato cenário de guerra».

 

Contrariamente à escalada contra a guerra no Iraque, os EUA contam agora com o apoio do eixo Franco-Alemão, tanto no conceito de guerra preventiva como, mais escandalosamente, no uso de armas nucleares. O presidente francês, Jaques Chirac, intimou em Janeiro que as armas nucleares francesas deveriam ser usada em ataques concentrados contra países que estivessem a considerar o uso de armas de destruição massiva. Não estaria certamente a referir-se ao uso pelos EUA de fósforo branco e quantidades massivas de urânio empobrecido no Iraque.

 

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[1] icasualties.org/oif/

[2] nationalpriorities.org/index.php?option=com_wrapper&Itemid=182

[3] The National Security Strategy, Março 2006.

[4] Ver por exemplo textos de Michel Chossudovsky em www.globalresearch.ca.

[5] Ver Doutrina de Operações Militares Conjuntas (inglês, pdf, 1,76 Mb). 15/03/2005.