|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
07/12/2005 EUA enredados na sua política belicista – Ocupação do Iraque divide classe dirigente norte-americana – John Catalinotto A guerra do Iraque abriu uma
brecha entre os militares e a Casa Branca. Os oficiais querem sair para
evitar a derrota, Bush quer ficar para não perder a face. A persistente campanha da
resistência iraquiana e o crescimento da oposição interna nos Estados Unidos
abriu uma batalha nos círculos dirigentes de Washington. Esta batalha
tornou-se evidente em meados de Novembro no Congresso dos EUA com uma
resolução exigindo ao presidente que marque um calendário para a retirada das
tropas do Iraque. Por detrás da resolução está uma importante diferença
táctica entre departamentos do alto comando militar e da administração Bush. A persistência dos confrontos
no Iraque e o seu impacto negativo no recrutamento militar forçou esses
oficiais que comandam as tropas no terreno a exigir mudanças de política. Mas
o gang Bush-Cheney-Rumsfeld recusou-se a ouvi-los. Os oficiais viraram-se
então para Jack Murtha, um aliado no Congresso, um experiente falcão da
guerra e amigo dos militares. Murtha, um democrata da Pensilvânia, é
tenente-coronel no corpo de reserva da Marinha, condecorado pelo seu papel de
combatente na guerra reaccionária contra o Vietname. Foi durante décadas
dirigente do subcomité de despesas militares da Câmara de Despesas Militares. TEMPESTADE NO CONGRESSO Murtha causou uma tempestade
no Congresso e nos média quando apresentou uma resolução na Câmara dos
Representantes para que os EUA saiam do Iraque «o mais depressa possível»,
estimando que isso seria num prazo de seis meses. Apelou a um «reposicionamento»
das forças da Marinha num país vizinho como o Kuwait onde estariam prontas
para intervir, e exigiu basicamente que as forças fantoches do Iraque
tomassem o lugar das norte-americanas. Durante uma conferência de imprensa e
no debate na Câmara sobre esta resolução, a 17 de Novembro, Murtha explicou a
sua posição. «É tempo de os trazer para casa [aos soldados]», afirmou. «As
nossas tropas tornaram-se no principal alvo da resistência. Eles estão unidos
contra a forças dos EUA e nós tornámo-nos num catalisador da violência. O
futuro dos nossos militares está em risco», disse Murtha. «Muitos afirmam que
o Exército está dividido». Murtha disse ainda que os
comandantes lhe tinham garantido que não dispunham de tropas suficientes. Ele
acha que eles não podem conseguir mais tropas. «O recrutamento não está a
atingir as suas quotas, apesar de ter baixado o nível de quotas». A única solução
seria o recrutamento obrigatório – o destacamento –, acrescentou, mas isso
"é impossível" porque é tão impopular que ninguém no Congresso o
apoiará. As sondagens de Novembro
mostram que 63 por cento da população está contra a política de Bush no Iraque. Dirigentes do Partido
Democrático como John Kerry e Hillary Clinton, contudo, recusam-se a apelar
ao fim da ocupação. Deixaram esta batalha a militaristas como Murtha que
estão a actuar com medo de um revés que ponha em causa a máquina militar dos
EUA. BUSH NUM BECO SEM SAÍDA A 30 de Novembro, George W.
Bush atacou a posição de Murtha com um discurso no fórum mais seguro que
conseguiu encontrar, perante cadetes da Academia Naval. Em Maio de 2003, Bush
falou perante uma bandeira onde se lia «Missão cumprida». A 30 de Novembro,
na bandeira lia-se «Plano para a Vitória». O seu único novo acrescento foi a
descrição da resistência iraquiana como «uma combinação de rejeicionistas,
saddamistas e terroristas». Mas a sua explicação deixou de fora um largo grupo:
os vulgares cidadãos iraquianos que, ultrajados pela brutal intervenção
anglo-americana, juntaram esforços, apesar das suas divergências, para
combater e derrotar a ocupação imperialista. No essencial, Bush disse que as
tropas dos EUA devem ficar até que as forças fantoches iraquianas possam
ocupar o seu lugar. Prometeu mais anos de guerra no Iraque, mais morte e
sofrimento para os iraquianos, mais soldados norte-americanos mortos e
feridos, e mais fundos desviados dos reduzidos programas sociais para o complexo
militar-industrial. O GRANDE DESAFIO Bush argumenta que, se os EUA
saírem, isso será uma vitória para a resistência, uma humilhação para os EUA
[imperialismo], e um encorajamento para a resistência em todo o mundo. Murtha
e os seus amigos oficiais defendem que, se os militares norte-americanos
ficarem, agindo como um ocupante, isso só estimulará a resistência e
contribuirá para unir os países contra as forças dos EUA. O dilema insolúvel
para a classe dominante norte-americana e os seus militares é que ambos os
lados têm razão. A primeira reacção popular
face a esta controvérsia é a falsa esperança de que o Congresso conseguirá de
algum modo pôr fim à guerra. Mas a recusa dos jovens a alistarem-se continua. As manifestações de 1 de Dezembro – este ano o dia dedicado a comemorar as lutas de Rosa Parks e do movimento pelos Direitos Cívicos, apoiado pelos Concelhos Municipais em dezenas de cidades norte-americanas – mostram a unidade crescente entre as exigências dos movimentos contra a guerra e anti-racistas. O desafio que agora enfrenta o movimento norte-americano contra a guerra é o de ser capaz de tirar vantagem da brecha Murtha-Bush para conseguir uma luta mais activa, militante e independente contra a ocupação. |