|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
16/11/2005 Os cárceres privados do império Fernando Rosas Alguma imprensa
norte-americana fez-se eco, já há alguns dias, de uma informação
aparentemente colhida, em circunstâncias ainda não muito claras, ao mais alto
nível da Administração Bush: a confirmação da existência de prisões secretas
da CIA. Digo confirmação, porque a notícia do seu funcionamento corria há
mais tempo nos círculos internacionais ligados às associações de defesa dos
direitos humanos e em vários sítios da Internet com elas relacionados. As prisões secretas da CIA
são uma espécie de inferno de Dante, onde misteriosamente desaparecem, sem
deixar rasto, aqueles que a agência considera como "suspeitos" de
ligações ao "terrorismo internacional" ou do que quer que seja.
Isto é, pessoas raptadas em diversos países pelos seus agentes, ou presas e
entregues pelas polícias que ela controla e treina em vários regimes
ditatoriais, satelitizados política e economicamente pelos EUA ou por eles
militarmente ocupados, como o Afeganistão, o Iraque, o Paquistão, o Egipto, a
Jordânia, a Indonésia, etc. As prisões secretas parece
terem localizações fixas e itinerantes. Fala-se em instalações prisionais
clandestinas da CIA em países como a Polónia ou o Egipto, mas igualmente em
navios-prisões circulando em águas internacionais e tocando terra em portos
"seguros". Ainda não há muito tempo se reportou a escala em Lisboa
de um desses alegados navios fantasmas. As prisões secretas permitem
à CIA prender em qualquer lugar do mundo quem quer que ela entenda eliminar
ou espremer extrajudicialmente - sobretudo em países com governos fantoches e
destituídos de sistemas eficazes de defesa dos direitos humanos -, sujeitando
os detidos por tempo indeterminado a torturas e violências de vária ordem,
sem a maçada da interferência de advogados, famílias, juízes, órgãos de informação,
associações cívicas, tudo o que impede os interrogadores de
"trabalhar" eficientemente as vítimas. Em suma, o paraíso dos
torcionários. Não por acaso, as prisões
clandestinas, antros de tortura e assassinato, foram um método a que
recorreram sistematicamente todas as ditaduras militares latino-americanas
instaladas no poder pelos EUA nos anos 60 e 70: no Chile, na Argentina, no
Brasil, no Uruguai, na Bolívia, dezenas de milhares de mulheres e de homens
ligados a sindicatos, associações camponesas, jornais ou partidos de esquerda
foram massacrados e assassinados em prisões secretas por torturadores civis e
militares directamente assessorados pela CIA. A agência sabe o que faz,
quando cria os cárceres clandestinos do império à escala mundial e, naturalmente,
fora do território dos EUA, para evitar complicações legais. Como apontava a
secretária-geral da Amnistia Internacional (AI), Irene Khan, no relatório
anual de 2005 da AI, publicado em Maio passado, as autoridades americanas têm
tentado nos últimos anos retirar o carácter absoluto à proibição da tortura,
"redefinindo-a" por forma a admiti-la em várias situações, o que
teve e tem como efeito inevitável a sua legitimação e prática generalizadas.
Não restam dúvidas, hoje, de que o Governo americano e os seus chefes
militares pretendem tornar o recurso à tortura dos prisioneiros das suas
tropas de ocupação, onde quer que seja, uma prática simultaneamente corrente
e impune. São os efeitos perversos da guerra sem fim. Os horrores cometidos pelos
soldados dos EUA em Abu Ghraib, sabe-se hoje, foram multiplicados, ainda que
sem fotógrafos sádicos a documentá-los, por tropas ocupantes americanas e
inglesas em vários outros centros de detenção no Afeganistão e no Iraque,
sempre sob a complacência, se não sob as ordens dos comandos das forças de
ocupação. Apesar dos julgamentos de alguns militares do fim da escala
hierárquica mais visivelmente implicados nas torturas em Abu Ghraib, o facto
é que os responsáveis ao mais alto nível militar ou na Administração permaneceram
incólumes. O facto, como salienta o relatório da AI, é que nem o Governo nem
o Congresso dos EUA pediram ou promoveram a abertura de um inquérito
aprofundado e independente aos acontecimentos. Guantánamo, o campo de
concentração prisional instalado nessa base dos EUA em Cuba, é já uma
aproximação do inferno das cadeias secretas. Cerca de 500 prisioneiros a quem
o Governo americano recusa aplicar o estatuto de prisioneiros de guerra, sem
quaisquer direitos, sem visitas de advogados ou familiares (a maioria nem se
sabe quem são!), sujeitos a torturas, humilhações e violências várias de
forma continuada e por tempo indefinido (conforme repetidas alegações de
associações de defesa dos direitos humanos), passíveis de ser condenados à
morte ou outras penas por tribunais militares especiais de que não se admite
recurso. Ainda recentemente o Senado adoptou medidas legislativas para manter
esta situação de inadmissibilidade dos recursos contra parecer do Supremo
Tribunal dos EUA. Como refere o relatório de 2005 de AI, «o centro de
detenção de Guantánamo tornou-se o gulag da nossa época». Depois de Abu Ghraib e de
Guantánamo, as cadeias secretas da CIA são um terceiro degrau na escalada de
desprezo pela primazia da lei e dos direitos humanos por parte do Governo dos
EUA. E essa atitude, como salienta a AI, vinda do «país mais poderoso do
planeta», autoriza todos os demais «a infringir despudoradamente as regras,
convictos de ficarem impunes». Convém lembrar que não é só
de cadeias ilegais e da banalização da tortura que falamos. A sua verdadeira
antecâmara legal, sob o argumento de combater o terrorismo, são as leis de
excepção já aprovadas, nomeadamente nos EUA, em Espanha e mais limitadamente
na Grã-Bretanha, autorizando as polícias a prender discricionariamente e
manter presas sem culpa formada, isoladas, sem assistência de advogado e por
longos períodos de tempo (Blair pretendia impor períodos de três meses, mas
os Comuns só aprovaram períodos de cerca de um mês) quaisquer pessoas
consideradas suspeitas. Medidas, é bom não esquecer, que António Vitorino,
enquanto comissário europeu responsável pela justiça e segurança, tentou, com
escasso êxito, implementar nos países da UE. Mas o que este inferno
dantesco dos cárceres privados parece confirmar é algo de mais preocupante e
substancial: é a deriva antidemocrática arrastada pela falência dos modelos e
das políticas neoliberais. Efectivamente, verifica-se que a globalização capitalista
não é um mero processo de reorganização económica do capital. É uma dinâmica
de redefinição do poder político, decorrente da sua própria lógica à escala
mundial. É, se se quiser, uma espécie de contra-revolução politicamente
regressiva e conservadora, que questiona os fundamentos sociais e políticos
da ordem mundial herdada do rescaldo da vitória sobre o nazi-fascismo na II
Guerra Mundial. É o essencial que começa a ser posto em causa. Face a isso, cabe perguntar que iniciativas tenciona o Governo português adoptar para ir ao encontro do pedido do responsável da ONU pelo combate à tortura, no sentido de a UE abrir uma investigação à alegada existência de prisões clandestinas da CIA na Polónia e na Roménia. Cabe perguntar aos candidatos à Presidência da República se não acham indispensável definirem-se sobre este assunto. Cabe perguntar à maioria dos media que sobre ele fez um quase total silêncio, se não é altura de colocar a política, no sentido mais nobre do termo, no centro do debate público. Enquanto é tempo. |