|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
20/11/2005 A tortura? Aonde? Na China? Ana Sá Lopes Público Não saber, não perguntar. É
desta maneira que o mundo "livre" tem optado por reagir às notícias
sobre as práticas de tortura autorizada pela administração de Washington para
o combate ao terrorismo. A "guerra suja contra o
terrorismo" – como lhe chama o El Pais, que nesta análise acaba
por estar mais próximo da imprensa americana do que da light imprensa
europeia – coloca os Estados Unidos fora do direito internacional que emergiu
da segunda guerra mundial sem que, aparentemente, trema qualquer nervo
aliado. Para George Bush, o direito internacional é matéria de exportação e a
Europa, contente, convive com a "aliança". Na "suja" prisão da
baía de Guantánamo, a ONU foi, na sexta-feira e mais uma vez, impedida de
entrar. Os Estados Unidos recusaram que qualquer dos inspectores viessem a
ter contacto directo com os prisioneiros – o que, obviamente, tornava inútil
a missão das Nações Unidas. Para Washington, a guerra é a guerra e a ONU não
tem que ter voto na matéria. A China, onde os inspectores das Nações Unidas
se deslocam a partir de 3 de Dezembro, aceitou essa condição básica que os
Estados Unidos recusaram. Quando George Bush decidiu
que os presumíveis terroristas não podiam estar protegidos pela convenção de
Genebra – em nome do valor mais alto da segurança americana – abriu o caminho
para toda a espécie de iniquidades. As técnicas de interrogatório de
Guantánamo, Abu Grahib, as prisões secretas em países estrangeiros (alguns
europeus) foram uma decorrência da guerra suja, tolerada pelos aliados
europeus. Alguns americanos – mais do
que os europeus, alertava recentemente em entrevista ao Público a
filósofa americana Susan Neiman – combatem a tortura promovida pela
administração americana. O senador republicano John McCain, que fez aprovar
no senado americano uma proibição do uso da tortura (ameaçada desde já com o
veto do presidente, que não quer restrições ao poder de torturar) é, neste
momento, o principal rosto dos direitos humanos nos Estados Unidos. Na Newsweek, McCain –
um veterano da guerra do Vietname, que esteve prisioneiro em Hanói durante
cinco anos, onde foi vítima de tortura – afirma que os Estados Unidos não
deveriam torturar ou tratar de forma desumana os terroristas capturados, o
que, segundo o senador, prejudica o esforço de guerra. Diz mais McCain:
«Segundo a minha experiência, as torturas a prisioneiros frequentemente
produzem má informação para os serviços secretos», porque «sob tortura uma
pessoa dirá qualquer coisa que o seu torturador queira ouvir, seja ou não falsa,
se considera que as suas palavras o livrarão do tormento». Mas George Bush vai, ao que tudo indica, vetar a emenda de John McCain. Bush justifica que a lei McCain limita o seu poder enquanto comandante em chefe das tropas dos Estados Unidos. Limita o seu poder de "proteger os cidadãos dos Estados Unidos e impedir novos ataques terroristas". Limita o poder da guerra suja. Limita o totalitarismo e as armas a que recorreram os totalitarismos de todos os tempos. Limita a barbárie. |