|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
27/10/2005 O caso PlameGate André Levy A Administração Bush atingiu
um recorde de impopularidade. A ocupação infindável do Iraque contrastou com
a inabilidade de resposta doméstica às cheias resultantes do furacão Katrina,
gerando um descontentamento crescente, agravado pelas restantes políticas
anti-sociais, como os ataques ao sistema de Segurança Social. Ao mesmo tempo
que falha nas suas várias frentes, o Partido Republicano exibe feridas nas
suas altas esferas: o congressista Tom DeLay, que assumia a liderança da
maioria republicana na Casa de Representantes, foi forçado a demitir-se após
ter sido acusado judicialmente de violação da lei eleitoral em 2002 no Texas
e por branqueamento de dinheiro. Mas o pior escândalo poderá
estar para vir, podendo derrubar Karl Rove, o consultor político que conduziu
Bush ao posto de governador do Texas e à presidência, e que faz parte do
círculo restrito que comanda a estratégia presidencial. O caso PlameGate
inicia-se em 2003, quando o objectivo próximo da Casa Branca era reunir
elementos para acusar Saddam Hussein de desenvolver armas de destruição
massiva (ADM). O diplomata de carreira, Joseph Wilson [1], foi enviado pela
CIA ao Níger para investigar alegações do vice-presidente Dick Cheney segundo
as quais este país havia vendido urânio ao Iraque no fim dos anos 90. Após
visita ao Níger e inspecção das instalações locais, em Fevereiro de 2002,
Wilson concluiu que tal venda não poderia ter tido lugar. Apesar disso, o
relatório britânico de Setembro fez referência à venda de urânio, e Bush
falou nisso no seu discurso do Estado da Nação em 2003. Como os factos não
condiziam com a ficção, ignoraram-se os factos. Wilson, porém, não ficou
calado e num artigo de opinião, em Julho desse ano, revelou as suas
investigações e acusou Bush de exagerar a ameaça iraquiana. Tal não terá sido
recebido muito bem pelo círculo intímo da Casa Branca. Nesse mesmo mês, o
colunista Robert Novak escreve na revista Newsweek: «Wilson nunca trabalhou
para a CIA, mas a sua esposa, Valerie Place, é uma operativa da agência em
[ADM]. Duas figuras oficiais seniores da administração disseram-me que a
esposa de Wilson sugeriu enviá-lo ao Níger.» Numa óbvia manobra de pressão ou
vingança sobre Wilson, elementos da administração Bush filtraram para a
imprensa a identidade de um agente secreto, cometendo um crime, ameaçando a
segurança nacional que tanto apregoavam defender, e anulando a operacionalidade
de um agente especialista em ADM, uma área aparentemente prioritária. DESCRÉDITO DA CASA BRANCA Em Dezembro formou-se uma
comissão independente de investigação, liderada pelo procurador especial
Patrick J. Fitzgerald, cujas conclusões serão tornadas públicas no final de
Outubro. As primeiras reações de Bush foram claras: qualquer pessoa envolvida
no caso seria despedida. Talvez pensasse que o caso não daria em nada. Mas à
medida que a investigação prossegiu e se amontoavam evidências contra Karl Rove,
o tom foi amoleçendo até se instalar o silêncio. Uma sondagem da ABC deste
Julho conclui que 75% dos inquiridos acham que Rove deve perder o seu posto
se for provado que deu a informação, com respostas maioritárias tanto de
democratas como de republicanos. A investigação tem sido
pontuada por conflitos entre a comissão e jornalistas, mais proeminentemente
Matt Cooper da revista Time e Judith Miller do NYTimes, que
alegaram estar a proteger a confidencialidade das suas fontes. Cooper acabou
por testemunhar indicando Rove como a fonte da sua informação. Miller chegou
a cumprir quase três meses de prisão por se recusar a testemunhar. Esta é a
jornalista cujas reportagens durante o pré guerra contra o Iraque eram
alimentadas por Ahmed Chalabi, o então exilado iraquiano que forneceu
informações falsas também à administração Bush para favorecer o cenário de
guerra. (O Times foi forçado a reconheçer os numerosos erros num
editorial em Maio de 2004.) Após ter sido autorizada pela sua fonte, Lewis
"Scooter" Libby, Miller testemunhou sobre conversas com Libby onde
este terá também indicado o nome de Plame. Libby é nem mais que o chefe de
gabinete de Dick Cheney e um dos mais proeminentes ideólogos neo-cons. Esta fuga de informação para
vários jornalistas demostra claramente que a prioridade da Casa Branca sempre
foi o jogo político para atingir o objectivo concreto de dominar o Iraque, na
ausência de legitimidade e causas objectivas para o fazer. A ser levada às
últimas consequências esta investigação poderá provocar a demissão de dois
maestros da política de Bush e assestar um golpe valente na credibilidade da
Casa Branca. ________ [1] Ver página de Wilson em www.politicsoftruth.com. |