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13/10/2005 EUA: a barbárie penal Retirado de resistir.info Os organismos humanitários Human
Rights Watch (HRW) e Amnistia Internacional (AI) uniram as suas vozes para
denunciar a situação de 2.225 pessoas que cumprem sentenças de condenação
perpétua em cárceres estadunidenses por delitos cometidos quando eram menores
de idade. Delas, 356 (16 por cento) delinquiram quando tinham entre 13 e 15
anos de idade. No resto do mundo, as referidas organizações de direitos
humanos só encontraram um total de 12 indivíduos em situação semelhante. No
país vizinho, o índice de menores de raça negra condenados à prisão perpétua
é 10 vezes maior que o de brancos. Alison Parker, da HRW,
assinalou que «se são muito jovens para votar ou comprar cigarros, também são
muito jovens para passar o resto das suas vidas atrás das grades». Por sua
vez, David Berger, advogado da AI, considerou que «os menores que cometem
delitos graves ainda têm a capacidade de mudar e melhorar a sua vida». Esta situação judicial e
penitenciária traduz-se em graves atropelos a instrumentos da legalidade
internacional, como a Convenção dos Direitos da Criança, ratificada por todos
os países, com excepção da Somália e dos próprios Estados Unidos. Além disso,
é um agravo ao senso comum, pois pôr na prisão para o resto da sua existência
um ser humano que não acabou de formar-se – e de quem, por isso mesmo, não se
deveria exigir um grau de responsabilidade equiparável ao dos adultos –
implica desconhecer noções básicas da humanidade e da vida. Para além dessas
considerações, o panorama dos reclusos condenados à cadeia perpétua por
delitos de juventude e infância apresenta um retrato fiel da percepção que as
instituições do país vizinho têm da justiça: o propósito final desta não é,
na sua perspectiva, prevenir e erradicar o delito e tornar mais viáveis as
relações entre os indivíduos de uma comunidade, e sim funcionar como uma
maquinaria punitiva para que a autoridade pública cobre a vingança, em nome
da sociedade, pelos agravos dos infractores. Não é necessário dizer que em
semelhante concepção não há lugar para as ideias de reabilitação e
readaptação social dos transgressores, independentemente da idade que tenham
no momento de delinquir. A etiqueta de “compassivo” que se afixa no
conservadorismo governante, de raiz integrista cristã, revela, comparada com
esta realidade, toda a sua hipocrisia. Por coincidência ou não, o tratamento
judicial que os Estados Unidos concedem aos menores infractores encaixa-se na
perfeição com os rudimentos de ideologia que o governo de George W. Bush manifesta,
o mais significativo dos quais é uma visão do mundo maniqueísta, imutável e
elementar, na qual tudo se reduz a uma luta entre o bem e o mal. É revelador, por outro lado,
que o país que se reclama campeão mundial da democracia, da liberdade e dos
direitos humanos mantenha em celas vitalícias indivíduos que cometeram
delitos quando eram crianças ou jovens, e que apenas em Março deste ano o
Supremo Tribunal de Justiça de Washington tenha proibido, numa votação
dividida e muito rente (cinco votos a favor, quatro contra), aplicar a pena
de morte em tais circunstâncias. É significativo, também, que esse país, com
59 justiçamentos em 2004, ocupe o quarto lugar na lista de países que
recorrem com maior frequência a esse castigo desumano, bárbaro e degradante,
só abaixo da China (3.515 justiçamentos no ano passado), Irão (159) e Vietname
(64). É revelador, também, que nos Estados Unidos haja mais jovens negros nos
cárceres do que nas universidades, e que 46 por cento do total dos reclusos
sejam afro-estadunidenses, frente a 36 por cento de brancos, o que representa
uma desproporção num país cuja população se compõe em 82 por cento de brancos
e 13 por cento de negros. Em suma, a justiça e o sistema penitenciário nos Estados Unidos são entidades que se cevam não contra os delinquentes mais perigosos e sim contra os mais débeis: crianças, jovens e negros. _____ * Diário mexicano. |