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21/02/2006 Ambiente: Bush é acusado de amordaçar cientistas Stephen Leahy Cresce a evidência de que o
governo dos Estados Unidos proibiu vários cientistas de divulgar informação
sobre a mudança climática e outros assuntos ambientais. Em Janeiro, um dos mais
conhecidos cientistas norte‑americanos, James Hansen, acusou o governo
de George W. Bush de impedir que informação sobre o aquecimento global
chegasse ao público. Hansen, director do Instituto Goddard para Estudos
Espaciais da NASA (a agência espacial norte-americana), assegurou que
especialistas sob sua orientação e do Escritório Nacional de Administração
Oceânica e Atmosférica (NOAA) eram amordaçados pelas autoridades. «Isto parece‑se mais
com a Alemanha nazi ou a União Soviética do que com os Estados Unidos», teria
dito Hansen num painel público sobre ciência e meio ambiente realizado no
último dia 10 em Nova York. Durante o outono boreal, autoridades ordenaram a Hansen
que retirasse informação publicada na Internet informando que 2005 poderia
ser o ano mais quente já registrado. Poucos meses depois esse prognóstico foi
confirmado por várias instituições científicas. O governo também teria
proibido jornalistas de entrevistarem cientistas sobre estas pesquisas. O
governo Bush é reticente a reconhecer a ligação entre o grande consumo de
combustível fóssil e a mudança climática, e repudia o Protocolo de Kyoto,
único instrumento internacional que obriga as nações industrializadas a
reduzir as emissões de gases que aquecem a atmosfera. «As coisas estão ainda pior
na NOAA e na Agência de Protecção Ambiental», disse Hansen a um canal de
televisão. A NOAA descartou qualquer ligação entre o aquecimento do planeta e
a temporada de furacões do ano passado, apesar da crescente evidência
apresentada por outros especialistas em mudança climática. Na quarta‑feira,
esse organismo reconheceu que muitos dos seus cientistas discordam dessa
posição oficial. «O governo Bush rejeita o método científico», afirmou Lewis
Lapham, editor da Haper’s Magazine e autor do livro Gag Rule (A lei da
mordaça), que denuncia a censura exercida pelo governo contra os que discordam
das suas posições. «O aquecimento do planeta não entra na sua actual
estrutura de pensamento», afirmou Lapham à IPS. O jornalista disse que os Estados
Unidos parecem entrar numa era onde a fé é mais importante do que os factos e
a discordância é considerada uma traição. Quando se trata de pesquisar, o
governo tem, inclusive, ido mais além da tradicional prática dos políticos de
alterar os números para mostrar os resultados que querem que sejam vistos,
disse Lapham. «Se a ciência não demonstra o que se diz que deve demonstrar,
então eles acreditam que a alteração se deve a Satanás ou ao Partido
Democrata» (oposição), acrescentou. Há dois anos, 60 destacados cientistas
assinaram um documento afirmando que, a menos que os seus pontos de vista ou
a evidência apresentada coincidisse com a ideologia do governo Bush, o seu
testemunho será sempre ignorado ou rejeitado. Desde então, mais de 8.500
cientistas ratificaram essa denúncia. A Union of Concerned
Scientists (UCS, União de Cientistas Comprometidos) acusou o governo de
tergiversar os resultados das pesquisas da Academia Nacional de Ciências, dos
próprios especialistas governamentais e de toda a comunidade académica que
estuda a mudança climática. A UCS elaborou uma convincente lista de
instâncias de interferência política em pesquisas, incluindo a remoção de
cientistas altamente qualificados de comités de assessoramento que tratam
sobre saúde infantil, ambiental e reprodutiva, bem como sobre abuso de
drogas. Estes especialistas foram substituídos por pessoas ligadas ou
contratadas por indústrias sujeitas à regulamentação do Estado. O
financiamento também foi negado a cientistas que se expressaram livremente ou
realizaram pesquisas que podiam contradizer a política da Casa Branca. Cientistas que pesquisam o
impacto ambiental dos motores a hidrogénio ficaram sem financiamento da NASA
depois de num estudo preliminar terem descoberto que esta tecnologia poderia
causar sérios danos ambientais. O governo Bush promoveu e financiou a pesquisa
sobre esse assunto por considerá-lo um futuro substituto para os motores a
gasolina. No começo deste mês, o Escritório de Administração de Terras negou‑se
a continuar a financiar um estudo da Universidade Estatal do Oregon sugerindo
que o corte de árvores não era a melhor maneira de recuperar florestas
destruídas por incêndios. O governo Bush apoia o corte feito pelas empresas
florestais como uma boa prática para a ecologia e para prevenir futuros
incêndios. «A ciência sempre foi
influenciada pelos políticos», disse Stephen Bocking, professor associado de
estudos ambientais na canadense Universidade de Trent. Nos anos 50 e 60, as
empresas químicas persuadiram os governos a financiar pesquisas sobre o uso
de produtos químicos na agricultura. Nas décadas de 80 e 90, muitas dessas
empresas utilizaram a sua influência para conseguir grandes somas de dinheiro
público para pesquisarem sobre cultivos geneticamente modificados, disse
Bocking numa entrevista. A influência das corporações sobre o governo sempre
esteve presente, mas Bocking reconhece que agora é mais forte do que nunca.
Por exemplo, boa parte da investigação estatal em áreas como a agricultura
somente satisfaz as necessidades das grandes empresas. Embora servisse ao bem
público, nem o governo canadense nem o norte-americano gastaram uma adequada
quantidade de dólares em pesquisas sobre os impactos ambientais dos transgénicos,
afirmam os críticos. As tentativas explícitas dos governos em amordaçar os
cientistas que fazem pesquisas estatais não são tão comuns, disse Bocking. «Há
maneiras muito mais subtis de dirigir a pesquisa», afirmou. As decisões sobre
como são financiados os projectos, por quanto tempo e a metodologia
empregada, entre outros factores, influem muito mais nas conclusões finais,
explicou. «Os resultados das pesquisas tendem a reflectir quem paga por elas»,
ressaltou. Isto nada tem a ver com a integridade pessoal dos cientistas, insistiu. A melhor prova disso é que cientistas destacados financiados por empresas farmacêuticas produziram resultados que depois foram invalidados por pesquisadores pagos pelo Estado. A pesquisa estatal é crucial para se contrapor à financiada por corporações, afirmou. E necessita‑se muito mais da primeira. «As decisões sobre qual investigação o Estado financia também deveriam ser tomadas em colaboração com os cientistas e o público», concluiu Bocking. |