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27/01/2006 Ex-presos processam o governo dos EUA William Fisher Quatro ex‑presos nos
Estados Unidos no contexto da “guerra contra o terror” e deportados para o
Egipto mesmo após ficar demonstrada a sua inocência regressaram para
apresentar uma queixa colectiva contra o governo de George W. Bush. Os
queixosos, que actuam em nome de mais de 1.200 muçulmanos e pessoas
originárias do sudeste da Ásia injustamente detidos depois dos atentados de
2001 em Nova York e Washington, acusam o governo de prisão ilegal, abusos e
violações de direitos humanos. Yasser Ebrahim, o primeiro a conseguir
permissão para viajar do Egipto para os Estados Unidos, depôs esta semana na
Justiça de Nova York. Os queixosos afirmam que
foram detidos sem razão e mantidos presos durante meses sem uma acusação
formal, e que sofreram tratamento degradante e desumano numa prisão no
Brooklyn. A permissão de entrada dos acusadores nos Estados Unidos incluiu
rígidos condicionamentos, como restrição de movimentos: eles devem permanecer
confinados em hotéis e não falar com ninguém alheio ao processo enquanto durar
a sua estada em Nova York. Os outros três representantes dos queixosos
chegarão nas próximas duas semanas. Outros quatro deportados também são parte
do processo, mas não devem entrar em território norte‑americano. Os ex-presos denunciam que
foram submetidos à prisão solitária, brutalmente golpeados, incessantemente
insultados e mantidos incomunicáveis, sem contacto com familiares nem
advogados. Um porta-voz do não‑governamental Centro de Direitos
Constitucionais (CCR), que patrocina a causa, disse que as condições impostas
para a volta dos denunciantes são incomuns para um julgamento civil, e que
representam «a paranóia do governo em relação a muçulmanos e pessoas do Médio
Oriente». Entre os acusados mencionados no processo estão o
ex-procurador-geral John Aschcroft, o director do Escritório Federal de
Investigações (FBI), Robert Mueller, bem com funcionários da imigração e de
centros de detenção. O julgamento, iniciado em
2002, tem por objectivo conseguir uma compensação para os demandantes e
punição para os responsáveis. O chefe da equipe de advogados do CCR, Bill
Goodman, disse à IPS: «Pouco depois dos atentados de Setembro de 2001,
o Departamento de Justiça deteve cerca de dois mil muçulmanos, a maioria do
Oriente Médio e sul da Ásia. Nenhum deles foi considerado culpado de alguma
ligação com o terrorismo. Estas pessoas ficaram detidas por muitos meses além
do necessário, em celas solitárias, abusadas física e verbalmente nas
condições mais degradantes. O governo lutou com unhas e dentes para evitar que
a Justiça controlasse o seu processo», explicou Goodman. «Este foi o princípio do que
depois demonstrou ser a nova política norte-americana de detenções
indefinidas sem garantias do devido processo e que incluiu, com frequência, o
uso da tortura. Este julgamento tem por objectivo desafiar e rectificar as actividades
ilegais do governo», afirmou. O processo será reforçado e apoiado por um
relatório elaborado em 2003 pelo Escritório do Inspector Geral (IG) do
Departamento de Justiça. O informe comprova que alguns funcionários da prisão
atiravam violentamente os presos contra a parede, torciam os seus braços e
mãos para causar dor profunda, pisoteavam as suas pernas enquanto estavam
acorrentados e mantinham‑nos sujeitados por longos períodos. O documento do IG também se
refere à existência de gravações de vídeo que mostram como alguns membros do
pessoal destes centros de detenção «utilizaram indevidamente o registro e a
sujeição das pessoas para castigá-las e atormentá-las, e como os funcionários
gravavam as reuniões e as conversações entre os presos e seus advogados, o
que é inapropriado e ilegal». O Escritório Federal de Prisões disse que
demitiu duas pessoas, despromoveram outras duas e suspendeu seis por períodos
de dois a 30 dias. «Para os nossos clientes significa muito que alguém seja
responsabilizado pelas brutalidades a que foram submetidos», disse Matthew
Strugar, advogado do CCR. «Mas acreditamos que a
responsabilidade por estes abusos e tormentos chega até aos escalões mais
altos da cadeia de comando do Escritório Federal de Prisões e sentimo‑nos
muito insatisfeitos porque mais pessoas não foram responsabilizadas» por tais
atrocidades, disse Strugar. Um porta-voz do Departamento de Justiça não
comentou o caso. O jornal The New York Times, que entrevistou Yasser
Ebrahim e o seu irmão Hany no Egipto na semana passada, informou que ambos
viveram em Nova York por muitos anos antes dos atentados de 11 de Setembro.
Yasser tinha uma empresa que fazia sites para a Internet e Hany trabalhava numa
rotisserie. Os dois foram presos no dia
30 de Setembro de 2001 e ficaram detidos cerca de oito meses apesar de –
segundo o processo – um memorando do FBI de 7 de Dezembro assegurar que não
tinham ligação com grupos terroristas. «Quero que seja feita justiça», disse
Yasser ao jornal. «É o mesmo sistema que antes nos prejudicou injustamente.
Mas eu tenho fé neste sistema. Sei que o ocorrido foi um equívoco».
Seguramente, este caso atrairá mais a atenção da imprensa do que outros, pois
agora o governo Bush é acusado de ignorar os direitos constitucionais e as
leis por admitir a vigilância de telefonemas internacionais e e‑mails
por parte da Agência Nacional do Departamento de Defesa. A CCR e a União para as
Liberdades Civis (ACLU) apresentaram uma denúncia judicial na semana passada
questionando a legalidade da autorização de Bush para a escuta telefónica de
cidadãos norte-americanos sem autorização judicial. As duas organizações
dizem que estas acções violam a Lei de Vigilância da Inteligência Estrangeira
(FISA) aprovada em 1978. Essa lei estabelece um tribunal permanente que tem a
função exclusiva de ordenar a vigilância de pessoas nos Estados Unidos,
sejam, ou não, cidadãos. O governo Bush, por sua vez, afirma ter autoridade
constitucional “inerente” para proteger as pessoas em tempo de guerra, bem
como uma autoridade implícita que lhe dá a resolução aprovada pelo Congresso
e que autoriza o presidente dos Estados Unidos a levar adiante uma acção
militar para ganhar a chamada “guerra global contra o terrorismo”. Prevê-se que a Comissão de
Justiça do Senado convoque uma reunião para ouvir declarações sobre a vigilância
de ligações internacionais e da correspondência electrónica, quando
testemunha o Promotor Geral, Alberto Gonzáles, no começo de Fevereiro. Por
outro lado, o jornal londrino The Times informou que, apesar de o
pessoal do exército dos EUA tentar alimentar pela força vários presos em
greve de fome na base naval norte‑americana de Guantánamo, em Cuba,
alguns estão à beira da morte, segundo os seus advogados. O jornal disse que
o estado dos prisioneiros do Iémen que se recusam a ingerir alimentos sólidos
desde Agosto causa particular preocupação. Também se teme pela vida de um
prisioneiro da Arábia Saudita, que foi hospitalizado. Segundo o The Times, o
porta-voz do Grupo de Tarefas Conjuntas de Guantánamo, criado em 2002 pelo
Comando Sul do Exército dos Estados Unidos para operar nesse centro de
detenção e interrogação, não forneceu o número de presos hospitalizados. O
funcionário referiu‑se aos que estão em greve de fome como «desnutridos,
mas clinicamente estáveis». Negou que a vida de algum corra risco iminente.
Quando a greve de fome atingiu o seu apogeu, soube-se que dela participavam
entre 150 e 200 prisioneiros. O advogado Paul Weiss dos Estados Unidos, que
representa três prisioneiros sauditas, disse que recebia informes médicos
semanais alarmantes sobre o estado de saúde de um dos seus clientes, que
agora está no hospital da base. Numa viagem à prisão de Guantánamo no mês passado, os advogados que trabalham com Weiss não puderam visitar o hospital e disseram‑lhes que os seus clientes não desejavam vê-los. «Tememos estarmos perante uma situação de vida ou morte», disse Jana Ramsay, uma das advogadas. «Normalmente alegram‑se ao ver‑nos», afirmou. Os prisioneiros alimentados à força têm uma sonda introduzida no nariz de maneira permanente que desce até ao estômago e que é conectada a um tubo com alimentos. Se não os rompem, diz o exército dos Estados Unidos, é porque consentem em ser alimentados, embora o tubo tenha sido colocado sob coacção. [1] _____ [1] Ler, a este respeito: Clive Stafford Smith, Greve de fome em Guantánamo, 29/09/2005 (n. IA). |