Informação Alternativa

Estados Unidos da América

22/11/2005

 

«A tortura dos presos é consequência directa da cultura

de ilegalidade que foi estimulada pelo presidente Bush»

– Entrevista a Thomas B. Wilner, advogado de uma dúzia de prisioneiros

de Guantánamo e colega de universidade do presidente Bush –

 

Rosa Miriam Elizalde

Rebelión

 

O currículo de Thomas B. Wilner, consultor da firma de advogados Shearman & Sterling, em Washington, situa­‑o como um homem do establishment norte-americano. Antes de tornar num dos juristas mais prestigiados do seu país, estudou na Universidade de Yale e na Escola de Leis de Pensilvânia , as duas melhores e mais caras academias dos Estados Unidos. Em Yale foi condiscípulo de alguns dos actuais protagonistas da política estado­‑unidense: entre outros, do republicano George W. Bush e do democrata John Kerry.

 

Embora desde há anos os seus casos costumem ter alcance público porque foi assessor legal de algumas das companhias mais importantes do mundo com negócios nos Estados Unidos, o nome de Tom Wilner aparece ultimamente com maior insistência nos meios internacionais. É o porta­‑voz de um grupo de advogados norte­‑americanos que representam prisioneiros de diversas nacionalidades, ilegalmente retidos na Base Militar de Guantánamo. Entre os prisioneiros há 12 kuwaitianos, clientes de Wilner, que foram torturados por soldados estado­‑unidenses no Afeganistão e no Paquistão antes de serem enviados para a base em Cuba. Entre as denúncias figuram castigos com correntes, choques eléctricos e sodomia.

 

A semana passada constou nas notícias que um dos prisioneiros que Wilner representa, o professor Fawzi Al Odah, pediu um recurso legal para impedir que continuem a alimentá­‑lo através de tubos [1]. Quer morrer, em protesto pelos maus­ tratos que ele e os seus colegas padecem e padeceram às mãos das tropas dos Estados Unidos.

 

Qual é o estatuto legal em que se encontram os seus defendidos, prisioneiros em Guantánamo?

 

Quando iniciamos o pleito legal, a ideia que tínhamos era apresentar o caso a um juiz federal que decidisse se existe uma base razoável para detê-los como terroristas ou como combatentes inimigos. O governo dos Estados Unidos argumenta que estes prisioneiros não têm o direito de ir aos tribunais. No entanto, o Supremo Tribunal disse o ano passado que sim podiam apresentar os seus casos ao juiz federal, porque Guantánamo está dentro da jurisdição dos Estados Unidos.

 

O governo então alegou que, apesar do direito a ir ao tribunal federal, os prisioneiros de Guantánamo não têm direitos substantivos porque não estão em território estado­‑unidense. Como estão fora da jurisdição dos Estados Unidos – argumenta o governo –, consequentemente não têm direitos que derivam da constituição do país. Neste momento, os tribunais federais estão divididos sobre os direitos substanciais dos prisioneiros. No meio deste litígio interveio o Senado para tratar de reverter a decisão do Supremo Tribunal.

 

Que possibilidades existem de ganhar estes casos?

 

Em Setembro deste ano argumentei em tribunal que o direito ao habeas corpus é anterior ao famoso acrescento das Dez Emendas à Constituição dos Estados Unidos, que se conhece como Bill of Rights e que estabelece os direitos dos cidadãos. O habeas corpus foi incorporado ao Código em 1789, dois anos antes do Bill of Rights. Isto quer dizer que mesmo que uma pessoa não tenha direitos constitucionais substantivos, a ilegalidade da sua detenção pode ser revista através dos seus direitos de habeas corpus.

 

Tenho a confiança de ganhar, porque a lei está a nosso favor. No entanto, preocupa-me muito o que se possa passar no Congresso. Tenho estado a trabalhar até às 12 horas da noite ultimamente, telefonando a congressistas e a senadores para que não mudem a lei.

 

O kuwaitiano Fawzi Al Odah, um dos 12 prisioneiros em Guantánamo que você representa, pediu-lhe uma moção ante um tribunal para que lhe seja retirada a sonda que o alimenta contra a sua vontade. Quem é este homem? Porque chegou a tal desespero?

 

Tem 27 anos. É um professor do Corão. Nunca combateu, nem matou ninguém. Foi ao Paquistão e ao Afeganistão para ajudar os pobres. Uma tribo paquistanesa vendeu­‑o aos Estados Unidos por 5.000 dólares. Isso é uma fortuna no Paquistão. Esteve preso em Kandahar, no Bahrain, e agora em Guantánamo, onde se encontra desde Janeiro de 2002.

 

Nunca teve um julgamento com o devido processo. Disse­‑me e repito as suas palavras textuais: «a justiça americana é uma farsa. Sou inocente. Enquanto não me derem a liberdade, não comerei. Os Estados Unidos dizem ao mundo que tratam bem os prisioneiros de Guantánamo, e que nos dão bons alimentos. Se comesse, estaria a apoiar essa mentira». Isso me diz Fawzi.

 

Faz-me sentir terrivelmente mal ter que ajudar a que o meu defendido morra. O seu pai é um herói para toda a sua família, porque lutou contra Saddam Hussein. Fawzi pediu­‑me que dissesse ao seu pai que «tal como ele é um herói, eu serei um herói».

 

Quando Fawzi me disse isso, eu chorei, porque o meu governo está a negar­‑lhe a justiça, os direitos fundamentais que qualquer ser humano tem.

 

A solicitação de Fawzi tive que apresentar várias moções aos tribunais para que lhe desliguem os tubos por onde o alimentam, contra a sua vontade. Até agora os juízes diferem essa decisão para o Executivo e não intervieram para desligá-lo.

 

Na recente visita que fez ao Panamá, o presidente Bush disse categoricamente que os Estados Unidos não torturam prisioneiros. Por que mente à opinião pública? Que tipo de sanções poderia o presidente do seu país enfrentar se se provar que mente e justifica a tortura?

 

Não sei se George W. Bush sabe o que acontece aos prisioneiros que os Estados Unidos têm. Ele diz que não são torturados. No entanto, não cabe a menor dúvida de que os Estados Unidos têm prisioneiros que sofrem torturas desenfreadas. Cada um dos meus clientes foi severamente golpeado. Utilizaram cães para aterrorizá­‑los e puseram­‑nos em posições de tensão forçada também para torturá-los. Um deles, Saad al-Azmi, foi vítima de hostilização sexual. Alguns deles disseram­‑me que “confessaram” ter pertencido à milícia religiosa taliban ou à rede terrorista al-Qaeda só com o propósito de que cessassem as torturas. Até o próprio FBI admite que é tortura o que eles padeceram.

 

Se Bush não sabe isto, então não é um presidente efectivo. Tem que saber que os Estados Unidos levaram os prisioneiros para Guantánamo precisamente para evadir a lei e criar uma cultura de ilegalidade. A tortura dos prisioneiros é uma consequência directa e lógica da cultura de ilegalidade que o Presidente estimulou.

 

Se George W. Bush ordenou ou permitiu a tortura, violou a lei internacional e poderia ser sancionado. Também violou a lei dos Estados Unidos.

 

Se o Partido Republicano não controlasse o Senado e a Câmara de Representantes, o Congresso já teria tido audiências de impeachment relacionadas com isto.

 

O Pew Research Center de Washington acaba de dar a conhecer o resultado de uma sondagem em que 46 por cento dos norte­‑americanos justificam as torturas. Como é possível que uma sociedade tenha podido semear nas pessoas semelhante opinião?

 

Não li a sondagem e não conheço as perguntas que fizeram para chegar a essa conclusão. Surpreendem-me os resultados desta sondagem e penso que talvez tenham apresentado as perguntas de uma forma equivocada e daí tais resultados, embora sim seja certo que os Estados Unidos perderam o seu caminho depois do 11 de Setembro. Perdemos o nosso sentido dos princípios nos quais se fundou este país.

 

A Administração de Bush utilizou o 11 de Setembro como pretexto para alimentar o medo, para que este penetre a nação inteira. Sacrificou os nossos valores como país para justificar os seus fins políticos. A Administração trata a Al Qaeda como se fosse uma máfia, uma organização, sem compreender que a Al Qaeda é uma ideia e ao sacrificar os nossos princípios, os nossos valores como sociedade, criamos uma sementeira de terroristas que alimenta essa ideia.

 

Quando os Estados Unidos enfrentam o terrorismo à la carte, onde se combate só aquilo que convém, estão a permitir que digam no mundo islâmico que esta é uma guerra contra o Islão — e não contra o terrorismo em si. Em vez de extraditar Luis Posada Carriles (o conhecido terrorista cubano-venezuelano que organizou em 1976 a explosão de um avião civil onde morreram dezenas de pessoas), amparam-no em território norte­‑americano com um recurso migratório. Em vez de reconhecer os seus direitos e actuar em consequência, detiveram ilegalmente mais de 500 pessoas inocentes em Guantánamo. Nos EUA uma pessoa é inocente sob a lei até que se prova o contrário. A situação dos prisioneiros em Guantánamo demonstra uma total ausência de princípios éticos da nossa administração.

 

Em A Família: a verdadeira história da dinastia Bush, escrito por Kitty Kelley, você é apresentado como um ex colega de estudos de George W. Bush na Universidade de Yale. No livro, aparece esta citação atribuída a si: «Georgie, como lhe chamávamos então, não tinha a menor curiosidade intelectual por nenhum tema. Não lhe interessavam as ideias, os livros ou as causas. Não viajava; não lia os jornais; não via os noticiários; nem sequer ia ao cinema… É um tipo que não tem ideia das questões complexas». Mantém esta opinião? Em que aspectos crê que melhorou ou piorou o seu condiscípulo?

 

Mantenho a minha opinião sobre George W. Bush e penso que ele piorou. A maneira como manejou as relações internacionais e nacionais dos Estados Unidos reflecte a sua falta de curiosidade intelectual e a ausência de uma capacidade para compreender temas complexos. Vê as coisas de uma maneira simplista, sem compreender os implicações históricas das suas decisões. Consequentemente, a sua política é muito superficial.

 

Esta falta de inteligência causou muitíssimo dano aos Estados Unidos e ao mundo. Há muitos exemplos. Um, por exemplo, é a incapacidade de Bush para apreciar o que o governo de Hugo Chávez tem de positivo e o que faz pelos pobres do seu país. Não compreende o apoio democrático que tem esse líder, um presidente que foi eleito por uma esmagadora maioria dos venezuelanos.

 

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[1] Para uma contextualização, ler Clive Stafford Smith, Greve de fome em Guantánamo, 29/09/2005 (n. IA).