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05/11/2005 Os Estados Unidos têm o seu próprio gulag na Europa Oriental, Afeganistão e Tailândia – O Washington Post revelou a existência de prisões clandestinas – Ernesto Carmona * O Washington Post
informou esta quarta-feira que os EUA têm prisões secretas fora do seu
território, controladas pela Agência Central de Inteligência (CIA), com uns
100 prisioneiros submetidos a torturas proibidas em território estado‑unidense. Cidadãos de nacionalidades variadas considerados “suspeitos” são torturados sistematicamente em prisões secretas da época soviética num país europeu, em instalações similares do Afeganistão, Tailândia e de outros cinco países não identificados. Segundo o diário, «altos Funcionários
estado‑unidenses" pediram‑lhe para não nomear os países da
Europa oriental por temor a represálias. Há presos como Khalid Sheikh
Mohammed, capturado em Março de 2003 no Paquistão, cujo paradeiro é um
mistério, tal como a sorte de outros detidos pelos Estados Unidos sob
acusações de terrorismo que constituem um grande segredo em Washington. A única prisão off shore
dos EUA conhecida até agora era a base naval de Guantánamo, em Cuba. Um porta‑voz
do governo tailandês negou que existissem essas prisões no seu país, segundo
a BBC de Londres. O Washington Post
explicou que os EUA criaram uma rede de instalações depois do 11 de Setembro
de 2001, quando começaram a deter quem consideravam «altos membros da rede
Al-Qaeda». A Amnistia Internacional também denunciou casos de detenção
arbitrária em prisões clandestinas. RECONHECIMENTO INDIRECTO A notícia deu‑se a
conhecer precisamente quando o Senado dos EUA debate à porta fechada porque é
que esse país decidiu invadir o Iraque em 2003 com pretextos falsos, no
âmbito do escândalo produzido pela delação da condição de agente da CIA de
Valarie Plame, cônjuge do embaixador Joseph Wilson, que se negou a emitir um
relatório falso certificando que a Nigéria tinha vendido urânio a Saddam
Hussein. A filtragem da informação
sobre Plame, que constitui um delito gravíssimo nos EUA, saiu do mesmíssimo
escritório do vice-presidente Dean Cheney. Paralelamente, a Venezuela continua
a reclamar a extradição do terrorista de origem cubana Luis Posada Carriles,
protegido por Washington e custodiado numa prisão migratória do Texas por “entrada
ilegal”. O diário acrescentou que mais
de 100 suspeitos passaram por essas prisões secretas em oito países,
conhecidas como “sítios negros”. O matutino disse que não revelou o nome dos
países europeus a petição do Governo dos EUA, que teme que a informação
favoreça os terroristas ou converta essas nações em alvo de possíveis
atentados. A CNN consultou o ministro da
Justiça dos EUA, Alberto González, mas este nada informou e disse que não
podia negar nem confirmar a notícia, invocando razões de segurança e
assegurando que o seu país cumpria as disposições de Genebra sobre o
tratamento de prisioneiros. Também não quis referir-se à situação jurídica de
Posada Carriles, nem aclarou se será outorgada ou não a sua extradição. Limitou-se
a assinalar que «o tema está em estudo nos níveis mais altos do governo». A CIA também se negou a comentar
o artigo do Washington Post, mas outros indivíduos da “comunidade de
inteligência” afirmaram que o governo dos EUA justifica essas prisões em solo
estrangeiro com suspeitos de pertencer à Al-Qaeda, porque se os tivesse
presos em território estado‑unidense os detidos poderiam levar os seus
casos ante os tribunais que poderiam interrogá-los durante longos meses. Para o ex subcomandante
Eugene Fidell, um advogado que preside ao Instituto Nacional de Justiça
Militar, não é ilegal a existência dessas prisões, embora tenha admitido que
no seu interior se poderia estar a violar a lei. «Potencialmente as condições
são medievais», disse Fidell à agência espanhola EFE. ESTREMEÇÃO À CONSCIÊNCIA Antes sabia‑se que em
Novembro de 2002 a CIA matou um prisioneiro na chamada “Mina de Sal”, nome de
código de uma prisão secreta no Afeganistão que agora foi transladada para a
Base Aérea de Bagram, perto de Kabul. O prisioneiro pereceu depois de um
agente da CIA ter ordenado que fosse deixado encadeado ao solo de cimento sem
roupa de resguardo durante a noite. Não se apresentaram acusações contra o
agente. Nesses centros secretos os
agentes estão autorizados a usar técnicas “ampliadas” de interrogatório com
práticas que violam a Convenção da ONU contra a Tortura, como a imersão do
detido em água fazendo-o acreditar que vai asfixiar, segundo se sabe desde
2004. «Esta administração faz a
nossa nação envergonhar-se ao procurar mecanismos pela porta de trás para
fugir às nossas obrigações de prevenir a tortura», denunciou hoje o
congressista democrata Edward Markey. Stephen Hadley, Conselheiro
de Segurança Nacional, disse hoje que George W. Bush «deixou muito claro que os
Estados Unidos não cometem actos de tortura» e que respeita as suas obrigações
internacionais. Afirmou que «os mesmos princípios» regem nas prisões
secretas, confirmando assim que esses lugares existem. O republicano John McCain,
que foi um prisioneiro de guerra no Vietname, apresentou uma emenda que
proíbe o tratamento cruel ou desumano de prisioneiros sob custódia dos EUA em
qualquer parte do mundo. O projecto foi aprovado pelo Senado quase
unanimemente, mas o vice-presidente Dick Cheney e o director da CIA, Porter
Goss, solicitaram que se liberte a CIA dessa obrigação. A aprovação final da
emenda está pendente na Câmara de Representantes, mas até agora conta com o
apoio expresso de apenas 57 legisladores. Avi Cover, advogado da
organização de direitos humanos Human Rights First, acredita que os centros
de detenção são ilegais por si mesmos, sem importar o que se passe lá dentro,
segundo o direito estado‑unidense e internacional. A seu juízo, os EUA
devem informar da sua existência a Cruz Vermelha e permitir visitas dessa
organização para comprovar as condições de detenção, mas nunca nada disso se
fez. O encarceramento de pessoas
sem acesso a um advogado ou a um juiz violaria também as leis dos países onde
se encontram essas prisões secretas. Além disso, os governos europeus que
permitiram as prisões sofreriam a crítica dos seus próprios cidadãos e dos
países da União Europeia. O paradoxo é que as prisões
da era soviética na Europa Oriental foram o cavalo de batalha da diplomacia
estado‑unidense para denunciar as violações dos direitos humanos por
parte da União Soviética, segundo The Washington Post. O diário The New York Times informou em Outubro que a CIA subcontrata aviões com empresas fictícias para transladar secretamente prisioneiros a diferentes lugares do mundo, afirmando que os detidos se encontram em países onde a tortura é o pão de cada dia para os presos. A CIA oculta a propriedade da companhia Aero Contractor numa rede de empresas fictícias que não têm empregados nem nenhuma tarefa senão a propriedade dos aviões, assegurou The New York Times. _________ * Jornalista e escritor chileno. |