Informação Alternativa

União Europeia

11/05/2004

 

A campanha pela virgindade

 

George Monbiot

É provável que em breve tenhamos que manter viva a chama da libertação sexual, nós os delinquentes geriátricos. Um grupo evangélico estadounidense anunciou que no próximo mês vai recrutar adolescentes britânicos para a sua campanha contra o sexo antes do casamento. Nos Estados Unidos, mais de um milhão de jovens comprometeram­‑se a isso. «A Grã-Bretanha» – enfatiza o organizador – «está fascinada com a ideia da abstinência sexual» [1]. No meu tempo, semelhante indivíduo teria sido arrojado aos pés dos cavalos, mas agora os jovens acodem à sua chamada. Será que não há limite para a depravação da juventude actual?

Não, se depender do Governo dos EU. A campanha pela abstinência que espera corromper a moral da nossa, outrora, orgulhosa nação – um grupo denominado Silver Ring Thing – recebeu mais de 700.000 dólares de George Bush, como parte da sua campanha para substituir a educação sexual pelos valores vitorianos [2]. Neste ano dobrou o orçamento federal para a educação na virgindade até atingir os 270 milhões de dólares [3]. Em termos de participação, o seu programa funciona. Em outros aspectos, é uma catástrofe.

Ninguém pode pôr em dúvida que milhares de adolescentes na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos sofrem as consequências do sexo antes do casamento. As gravidezes em adolescentes concentram­‑se esmagadoramente nas camadas mais baixas da escala social: as filhas adolescentes de trabalhadores manuais sem qualificação têm dez vezes mais probabilidade de ficar grávidas que as raparigas de classe média [4]. Segundo a UNICEF, a Agência para a infância da ONU, as mulheres nascidas na pobreza têm duas vezes mais probabilidades de permanecer nela se têm filhos demasiado jovens. Têm mais probabilidade de ficar no desemprego, de sofrer depressões e de depender das drogas e do álcool [5].

A frequência das gravidezes e das doenças venéreas em adolescentes neste país e nos Estados Unidos, em geral, atribui-se ao relaxamento moral e ao permissivo Estado de bem-estar. Os adolescentes, hoje, têm problemas – sublinham os conservadores que dominam o debate – por causa da libertação sexual dos anos 60 e 70, e pela boa disposição do Estado para ajudar as mães solteiras.

No domingo, Anne Widdecombe sustentava que a educação sexual tinha "fracassado": os que a promoveram deveriam "calar-se" e deixar o bem-estar das nossas adolescentes nas mãos dos que promovem a campanha da virgindade [6]. Denny Pattyn, fundador do Silver Ring Thing, chama­‑a a «geração do poço negro, que sofre os efeitos catastróficos da revolução sexual» [7]. Estas pessoas têm que dar algumas explicações.

Se aceitássemos a versão dos conservadores, deveríamos esperar que os países em que a educação sexual e o acesso a métodos contra­ceptivos estão mais espalhados fossem os que têm maior índice de gravidezes adolescentes e doenças de transmissão sexual, mas a verdade é que é ao contrário.

Os dois países ocidentais líderes deste desastroso campeonato, os Estados Unidos e o Reino Unido, são aqueles em que as campanhas dos conservadores têm maior força e a educação sexual e o acesso a meios de contracepção se encontram entre os mais fracos.

Os Estados Unidos, segundo mostram as estatísticas do Fundo Demográfico das Nações Unidas, são a única nação rica que se encontra no meio do bloco do Terceiro Mundo, com 53 nascimentos por 1000 adolescentes – um índice pior do que o da Índia, das Filipinas e do Ruanda [8]. O Reino Unido vem a seguir, no posto 20. Os países que, segundo os conservadores, deveriam estar à cabeça da lista, encontram-se ao final. Alemanha e Noruega só têm 11 bebés por 1000 adolescentes, a Finlândia, 8; a Suécia e a Dinamarca, 7; e os Países Baixos, 5 [9].

A explicação da UNICEF é bastante inequívoca. A Suécia, por exemplo, mudou a sua política de forma radical em 1975: «Abandonaram­‑se as recomendações de abstinência e de praticar o sexo exclusivamente no casamento, a educação contraceptiva tornou­‑se explícita e criou­‑se uma rede nacional de clínicas para jovens, concretamente para fornecer de forma confidencial orientação aos jovens sobre métodos e tratamentos contraceptivos... Durante as duas décadas seguintes, o índice de nascimentos em adolescentes baixou em 80%» [10]. As doenças de transmissão sexual, em contraste com os crescentes índices do RU e EU, baixaram ali uns 40 % nos anos 90 [11].

«As análises da experiência holandesa», continua a UNICEF, «chegaram à conclusão de que a razão subjacente ao sucesso foi a combinação de uma sociedade relativamente tolerante com atitudes mais abertas para o sexo e a educação sexual, que inclui os métodos contraceptivos». Pedidos de contraceptivos lá «não se associam à vergonha ou à culpa» e «os meios de informação estão predispostos a levar a cabo mensagens explícitas» sobre os contraceptivos dirigidos aos jovens [12]. Essas cloacas têm os índices mais baixos de abortos e de natalidade em adolescentes da Terra».

Os EU e o RU, ao contrário, «são sociedades menos inclusivas» em que «oficialmente, pode encontrar-se orientação e serviços sobre contraceptivos, mas numa atmosfera 'fechada' embaraçosa e secreta». O Reino Unido tem uma taxa mais alta de gravidezes em adolescentes, não porque haja mais sexo ou mais abortos aqui, mas pelos «índices mais baixos de uso de contraceptivos» [13].

A catástrofe que aflige muitas adolescentes na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, por outras palavras, não se deve aos professores liberais, a pais liberados, à Fundação Marie Stopes International [Organização Internacional para a prevenção de gravidezes não desejadas e para o controle da natalidade, N. do T.], ou ao Guardian, mas a George Bush, a Ann Widecombe e ao Daily Mail. Às suas campanhas contra a educação sexual desde cedo, à sua oposição ao acesso aos contraceptivos e às suas campanhas contra a inclusão social (a igualdade de rendimentos, o estado de bem­‑estar) que oferece às mulheres jovens melhores perspectivas do que ficar grávidas.

As campanhas a favor da abstinência como as de Silver Ring Thing podem atrasar o início da actividade sexual, mas quando suas vítimas são atraídas ao poço negro (quase todas, eventualmente o são) é provável que só ao redor de um terço usem contraceptivos (segundo o estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Columbia), porque não estão «preparadas para uma experiência a que tinham prometido renunciar» [14].

Um artigo publicado no British Medical Journal revela que o resultado é que esses programas de abstinência «se associam a um aumento do número de gravidezes entre os casais dos jovens que os seguiram» [15]. Sim, leu-o correctamente: a educação na abstinência incrementa os índices de gravidezes em adolescentes.

Se tudo isto fosse conhecido amplamente, os conservadores e os evangélicos nunca se atreveriam a fazer as afirmações que fazem, por isso têm que se assegurar de que não o saibamos. Em Janeiro, o Sunday Telegraph afirmava que os europeus «olhavam com inveja» os índices de gravidezes adolescentes nos EU [16]. Apoiava esta insólita afirmação ocultando, de forma deliberada, as cifras, apresentando as do índice de gravidezes adolescentes por 1000 nos EU, enquanto no Reino Unido o fazia com o total de nascimentos, de maneira que os leitores não pudessem estabelecer a comparação.

Por grande que seja o engano, não é nem a metade de mau do que Bush fez. Quando os seus queridos programas a favor da abstinência fracassaram em reduzir o índice de natalidade entre adolescentes, deu instruções para que o Centro estadounidense para o Controle das Doenças parasse de recolher dados [17]. E obrigou‑os a abandonar os seus projectos para identificar os programas de educação sexual que funcionavam bem quando descobriram que nenhum dos que tinham sucesso era dos que pediam «exclusivamente abstinência» [18].

Bush confiava que não observássemos com demasiada atenção o seu historial como governador do Texas, onde gastou 10 milhões de dólares em campanhas a favor da abstinência com o resultado de que o Texas tem o 4º índice mais alto de infecções pelo vírus da SIDA dos Estados Unidos, e o da menor redução do índice de nascimentos entre jovens dos 15 aos 17 anos [19].

Assim, quando no próximo mês este bando de estrangeiros indocumentados chegar aqui com as suas modernas palestras sobre "virgindade" e abstinência", recomendo­‑lhes, colegas, que fechem à chave as suas filhas e os mandem seguir o seu caminho. Somos a geração dos velhos a quem corresponde velar para que os nossos jovens mequetrefes se mantenham no bom caminho.

 

___________

[1] Boletim de The Silver Ring Thing, Abril de 2004 [pdf].

 

[2] Naddeja Koralage, American Virgins. British Medical Journal, 31 Janeiro de 2004. 328:293.

 

[3] George W. Bush, 20 de Janeiro de 2004, Discurso do Estado da União.

 

[4] UNICEF, Julho 2001. Quadro de índices de natalidade de adolescentes em países ricos. Innocenti Report Card n.º 3. UNICEF, Centro de Investigação Innocenti, Florença.

 

[5] Ibid.

 

[6] Anne Widdecombe, 9 de Maio de 2004. The Libertarian Experiment Has Failed; Abstinence Is the Way Forward [A experiência libertária fracassou: a Abstinência é o caminho a seguir]. The Independent on Sunday.

 

[7] Denny Pattyn, citado por Natalie Clarke, 9 de Novembro de 2003. The New Sexual Revolution [A nova revolução sexual]. Sunday Mail, Queensland, Austrália.

 

[8] Dados do relatório de População do Mundo do ano 2003, do UNFPA, relativos a nascimentos por 1000 mulheres entre 15 e 19 anos, apresentados de forma gráfica.

 

[9] Ibid.

 

[10] UNICEF, Julho 2001, ibid.

 

[11] Ibid.

 

[12] Ibid.

 

[13] Ibid.

 

[14] PS Bearman y H Brucner, 2001. Promising the future: Virginity pledges and the transition to first intercourse [pdf; Promessas do futuro: o compromisso com a virgindade e a transição para o primeiro coito]. American Journal of Sociology, 106 (4), 859-912.

 

[15] Alba DiCenso et al., 15 de Junho de 2002. Interventions to Reduce Unintended Pregnancies Among Adolescents: Systematic Review of Randomised Controlled Trials. Actuacções para reduzir as gravidezes não desejadas em adolescentes: Revisão sistemática das Provas Aleatórias de Controle: British Medical Journal, 324:1426.

 

[16] Olga Craig, 11 Janeiro de 2004. No Sex Please... They're American, And Their Teenage Pregnancy Rates Are at a 10-Year Low. In Stark Contrast, The UK's Record Is the Worst in Western Europe [Sexo não, por favor... São estadounidenses e os seus índices de gravidezes em adolescentes baixaram em 10 anos. Em brutal contraste, o índice no RU é o pior da Europa ocidental]. Sunday Telegraph.

 

[17] Union of Concerned Scientist, febrero de 2004. Scientific Integrity in Policymaking: An Investigation into the Bush Administration's Misuse of Science (A integridade científica na tomada de decisões políticas: Uma investigação sobre a manipulação da Ciência na Administração Bush).

 

[18] Ibid.

 

[19] Advocates for Youth, sin fecha. Science or Politics? George W. Bush and the Future of Sexuality Education in the United States [pdf; Ciência ou Política? George W. Bush e o futuro da educação sexual nos Estados Unidos].