|
Informação Alternativa |
|
Europa |
|
05/07/2006 A Opel da Azambuja em Estrasburgo Representantes da fábrica da Azambuja estiveram ontem no Parlamento
Europeu para divulgarem a sua luta. Com eles estiveram igualmente
sindicalistas da Saab sueca – que pertence igualmente à General Motors – e
ainda trabalhadores italianos de uma multinacional de origem norte-americana,
a Eaton, que fabrica válvulas para a indústria automóvel, e que está a tentar
deslocalizar uma fábrica do Piemonte para a Polónia. O convite do Grupo da Esquerda Unitária aliou-se à inclusão, na
agenda do Plenário, do tema das deslocalizações industriais na Europa, também
por iniciativa deste grupo parlamentar. Se bem que o Parlamento não tenha neste domínio – aliás como em
muitos outros – quaisquer poderes, a visita e o debate deram visibilidade
europeia a uma luta que já extravasa as fronteiras do nosso país. Permitiram
ainda confrontar posições e a coerência entre palavras e actos. «QUANDO CHEGARÁ A MINHA VEZ?» O comissário europeu responsável pelas empresas e Indústria, Gunter
Verheugen, não poderia ter começado melhor a sua intervenção: «Lucros por um
lado, encerramento e deslocalização de empresas por outro. Quando chegará a
minha vez? Quando será afectado o meu emprego? Muitos trabalhadores na Europa
vêem‑se hoje confrontados com estas questões». Mas depois... depois
nada, a não ser mais do mesmo. Porque, afinal, «cabe às empresas a decisão de
fecharem as suas portas ou de deslocalizarem as suas actividades». «Nem os
Estados nem a União Europeia podem ou devem interferir – e o caso da Azambuja
não é excepção», rematou. A única novidade do comissário foi a confirmação de que a Comissão
Europeia solicitou ao governo português que investigasse se fundos europeus
foram atribuídos à fábrica. «Se for esse o caso, faremos com que as nossas
condições sejam respeitadas», concluiu. O debate proposto pelo GUE pôde ser agendado porque os socialistas e
os verdes se associaram à iniciativa. O líder parlamentar do PS Europeu fez
mesmo uma intervenção muito dura contra a «crueldade» com que as
multinacionais tratam os seus empregados. Deu mesmo como exemplo, o escândalo
da seguradora mundial Allianz, de origem alemã, estar a procurar despedir 8
mil trabalhadores quando apresenta lucros de 4,4 mil milhões de euros... só
para garantir a distribuição de dividendos entre os seus accionistas. E concluiu:
«as multinacionais têm imensa fantasia para obter fundos e resultados. Mas nenhuma
para fecharem as fábricas». Contudo, só amanhã se saberá se a sua firmeza nas palavras – bem
como a de eurodeputados do PS português – se traduzirá numa posição consistente,
quando quinta‑feira for a votos uma Resolução sobre o assunto. Para
já, o PSE alinhou numa resolução com a direita parlamentar que afasta o caso
concreto da Azambuja do seu âmbito, o que levou a esquerda a não subscrever
esse compromisso e a manter as suas emendas para votos em separado. O HORIZONTE AUTOMÓVEL Os trabalhadores mantiveram encontros com diversos eurodeputados e
puderam expor circunstanciadamente a situação das respectivas fábricas. Na
Eaton do Piemonte, os trabalhadores fazem piquete dia e noite à porta da
empresa para evitar que a administração proceda à deslocalização das máquinas
e ferramentas. Na fábrica Saab, que atravessa uma situação de reestruturação
há vários anos, as idas ao psiquiatra vêm aumentando exponencialmente, bem
como as baixas por stress, que aumentaram 300 por cento nos dois últimos
anos. Mas o que ficou como nota importante foi a extraordinária
solidariedade demonstrada pelos operários da GM em diversas fábricas da
Europa, com várias paralisações de laboração, apesar da concorrência
desenfreada que as multinacionais lançam sobre as suas próprias fábricas para
a obtenção de novos modelos. E também a convicção de que foi esta resistência
transnacional que obrigou a GM europeia a decidir sentar-se à mesa com os trabalhadores
para discutir a situação da Opel da Azambuja. Quanto ao GUE, decidiu realizar ainda este ano uma conferência
internacional sobre o sector automóvel. Em cima das mesas de discussão
estarão os direitos e as obrigações que as multinacionais devem respeitar.
Mas também o debate sobre o futuro do sector e sobre as políticas europeias
que pura e simplesmente não existem porque esse é o interesse da própria
globalização capitalista: ela coloca em concorrência não apenas as fábricas
dos próprios grupos, mas também os países entre si. E assim é fácil perceber porque é que há sempre alguns que nunca
perdem. Mesmo quando, como é o caso da GM, primam pela mais absoluta
incompetência de gestão. No mesmo dia em que estes acontecimentos se davam em Estrasburgo, o Libération
de Paris abria as suas páginas com um destaque sobre a GM – que apresentou
10,5 mil milhões de dólares de prejuízos em 2005 – e a possibilidade deste
gigante de pés de barro vir a cruzar participações com a Renault e a Nissan.
Na origem dos maus resultados não estão os salários dos operários nem as suas
regalias sociais, mas uma gestão prolongadamente incompetente. E no
entanto... quem paga são os mesmos de sempre: 30 mil despedimentos, quase 10
por cento dos trabalhadores desta multinacional, foram despedidos nos EUA. E os boatos ou reais intenções pairam, não só sobre a Azambuja, mas sobre oito outras fábricas no espaço europeu. |