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Julho 2005 O absurdo estatuto do Banco Central John Grahl * Nos Estados membros da União Europeia (UE), a alternância dos
partidos no governo permite por vezes fazer marcha‑atrás ou revogar
iniciativas e legislações que fracassaram. Na União, em contrapartida, o
passado torna‑se um “acervo” que tem de ser reafirmado em permanência
e protegido de toda a crítica, por mais justificada que seja. Um exemplo: o
poder total sobre a política monetária atribuído ao Banco Central Europeu
(BCE), instituição que se furta a qualquer controlo político. Muito antes de este regime ter entrado em vigor, as suas disfunções
haviam sido expostas por numerosos especialistas de todas as obediências
políticas. As suas estruturas eram profundamente antidemocráticas, na medida em
que privavam as instâncias eleitas, quer no plano nacional, quer no da União,
de toda a capacidade de intervenção nas políticas macro‑económicas. As
suas prioridades e os seus objectivos eram completamente desequilibrados,
visto o BCE dever concentrar-se na estabilidade dos preços, fossem quais
fossem as consequências no respeitante ao desemprego, às dificuldades
financeiras ou à desorganização do sistema produtivo. Quanto às políticas orçamentais, submetidas ao Pacto de Estabilidade
e Crescimento, estas deviam corresponder a critérios de endividamento
público, se preciso fosse sacrificando qualquer outro objectivo. Pressupunha‑se
que os métodos do BCE, cópias exactas dos do Banco Central Alemão mas em
circunstâncias muito diferentes, tinham todas as garantias de eficácia,
apesar de todas as provas em contrário. Por exemplo, a insistência dogmática
no valor dos agregados monetários como guias da política a levar a cabo,
quando estes indicadores, considerados sem interesse, já tinham sido
abandonados há uma dezena de anos pelos outros bancos centrais. Seis anos de
experiência da união monetária confirmaram a legitimidade destas críticas,
mas apesar disso o conjunto do dispositivo continua a ser sacrossanto para a
Europa oficial. Nos últimos quatro anos, a taxa média de crescimento anual da UE foi
de 1,5 por cento, ou seja, inferior ao do fim da década de 1990, e menos
elevada que a prevista pela “Estratégia de Lisboa” [1]. O nível de actividade
económica nem sequer foi suficiente para estabilizar o desemprego nos Quinze,
que entre 2001 e 2004 aumentou de 7,4 para 8,1 por cento. Embora os novos
Estados membros apresentem taxas de crescimento um pouco superiores, a sua
taxa de desemprego, quanto a ela, é muito mais elevada: 14,4 por cento nos
últimos quatro anos [2]. A resposta invariável do BCE a estes problemas tem consistido em
pedir mais reformas “estruturais”, mais “flexibilidade dos preços e dos
salários”, mais “mobilidade da mão-de-obra”. Mas agora, após os dois referendos
perdidos, e como se tornou cada vez mais difícil invocar a ameaça inflacionista,
brande‑se o perigo da “globalização” para justificar as mesmas
medidas: desregulamentação, pressões sobre os desempregados, deslocalizações
das empresas dos sectores público e privado. No entanto, à escala global, as
economias da zona euro portaram-se muito bem. Em 2004, só a dinâmica
exportadora apoiou o rápido aumento da produção. Em contrapartida, os
mercados internos, em particular os dos bens de equipamento, estagnaram ou
contraíram‑se. Se a busca obstinada da “flexibilidade”, que está no âmago das
políticas europeias desde há mais de duas décadas, permitisse resolver o
problema do desemprego, este já teria sido resolvido. A persistência de uma
alta taxa de desemprego, combinada com as medidas liberais que afectam o
mercado do trabalho, reduziram muito a parte dos salários no produto nacional
bruto da União: de 73,4 por cento em 1962 para 69,2 por cento na década de
1990, atingindo um nível mínimo de 68 por cento em 2004. O enorme aumento dos
lucros que ressalta destes números – de menos de um quarto para quase um
terço –, reforçado por uma fiscalidade favorável ao capital, revelou-se
incapaz de suscitar os investimentos prometidos; durante os quatro primeiros
anos da década, os investimentos nos Vinte e Cinco aumentaram apenas 0,5 por
cento, ao mesmo tempo que baixaram na zona euro (menos 0,2 por cento, em
média). O ano de 2004 foi o primeiro em que progrediram (mais 3,2 por cento) [3]. Num grande número de questões económicas, os responsáveis da União mostram
uma deferência servil para com os Estados Unidos. Toda a Agenda de Lisboa se inspira
na crença ingénua numa “nova economia”, cuja emergência além‑Atlântico
teria resultado do boom bolsista. Renovadas tentativas de duplicar
mercados do trabalho pretensamente “flexíveis”, promoção do capital de risco,
imitação das estruturas empresariais – foi com uma “exuberância irracional”
que os dirigentes europeus quiseram imitar os Estados Unidos, tanto ao nível
nacional como da União. Mas o estatuto e as missões do Sistema de Reserva Federal Americano
revelam um contraste manifesto com os do BCE, adaptados de olhos fechados
pelo Projecto de Tratado Constitucional. A Reserva Federal é apenas uma
agência governamental entre outras, submetida à vontade do Congresso. Tem de
velar por «manter o crescimento a longo prazo dos agregados monetários e de
crédito, favorecendo o potencial de aumento da produção a longo prazo da economia,
de forma a promover efectivamente os objectivos de nível de emprego máximo,
de estabilidade dos preços e de moderadas taxas de juro a longo prazo». O contraste entre as duas instituições tem consideráveis implicações
nas políticas macro‑económicas. As que são aplicadas nos Estados
unidos não descuram a estabilidade dos preços, mas preocupam‑se, da
mesma maneira, com os níveis da produção e do emprego. Em situações de
recessão duradoura ou de aumento do desemprego, os instrumentos macro‑económicos
são utilizados para relançar a actividade: estimulantes orçamentais do
presidente Ronald Reagan no início da década de 1980; baixa das taxas de juro
da década de 1990; redução dos impostos da presidência Bush. Estas políticas,
sem dúvida criticáveis em muitos aspectos, foram eficazes no respeitante às
taxas de actividade e de emprego, superiores às da Europa desde há vinte
anos. O mesmo se passa com a política social; poderíamos até dizer que o
crescimento faz parte do modelo social norte‑americano, ou que o
crescimento é uma espécie de substituto das políticas sociais. Os americanos
podem muito bem viver e morrer no mercado, mas pelo menos exigem que o
mercado funcione. A observação da sua experiência leva-nos a tomar
consciência da dupla irresponsabilidade dos decisores europeus: exercem uma
pressão contínua com vista a reduzir os subsídios de desemprego e restringir
os direitos dos desempregados; e, ao mesmo tempo, não tomam nenhuma medida
macro‑económica para criar empregos. Será difícil encontrar uma questão política em que os britânicos
sejam mais unidos do que na rejeição do euro. Mesmo entre a minoria muito
empenhada na construção europeia praticamente ninguém defende a entrada na
união monetária. Uma simples comparação com os desempenhos macro‑económicos
da zona euro encerra logo o debate. O actual regime macro‑económico
britânico é encarado como muito mais flexível e pragmático nas políticas
orçamental e monetária. A Comissão censurou Londres com frequência por esta
violar as normas do Pacto de Estabilidade, mas o elevado desemprego existente
na Alemanha, em França e na Itália convence os britânicos de que vale mais
ficarem fora da zona euro e não estarem ligados a tais normas. A ausência do Reino Unido da zona euro põe um problema à união
monetária, porque isso significa que os vastos e muito líquidos mercados
financeiros britânicos recorrem pouco à moeda europeia. Ora, a autonomia de
qualquer sistema monetário depende grandemente da dimensão e da eficácia do
seu sistema financeiro. A enorme expansão da zona euro que decorreria da
participação de Londres facilitaria grandemente a condução duma política
monetária europeia e afrontaria ou limitaria o impacte de perturbações vindas
do exterior, por exemplo, de alterações da política norte-americana. Se os
dirigentes da zona euro se preocupassem de facto com o futuro, tratariam de
rever inteiramente os procedimentos e o conteúdo das decisões do BCE, de
maneira a promoverem o emprego e a actividade económica. O longo período de “preparação” entre o Tratado de Maastricht de
1992 e a introdução da moeda única em 1999 causou sérios danos em vários
países, e de um modo mais geral na zona euro: o respeito pelos critérios de “convergência”
perfeitamente arbitrários adaptados para as finanças públicas e para as taxas
de juro e de câmbio provocou políticas macro‑económicas restritivas e
um aumento do desemprego. A razão de ser de tais sacrifícios nunca foi clara,
porque ela correspondia a impor uma estabilização dolorosa a moedas
destinadas a ser retiradas da circulação. O tratamento reservado aos novos Estados membros da União é ainda
mais ilógico; contrariamente ao franco e ao marco, absorvidos no euro através
do ecu, o zloty polaco, o forint húngaro, etc. vão pura e simplesmente desaparecer.
O peso monetário combinado destes países é tão fraco que a sua situação
económica pouca influência terá na zona euro quando dela fizerem parte. Na realidade, a integração técnica dos mercados do crédito a curto
prazo, necessária à sua participação na união monetária, já está feita. Um
longo período de tutela é-lhes todavia imposto, tal como os critérios
arbitrários de taxa de inflação, de taxa de câmbio e de endividamento
público. A pertença à união monetária é subordinada ao masoquismo macro‑económico.
Ao mesmo tempo, é negligenciado o problema de fundo da integração monetária
dos novos membros – a fixação da taxa de conversão com o euro que favorece
altos níveis de exportações e de criação de empregos. Lançado em 1999 a uma taxa de câmbio de 1,16 dólares, o euro tinha
caído para 82 centavos em 2001 devido aos fluxos de capitais para os Estados
Unidos ligados à “bolha” bolsista que estimulava a nota verde. Depois disso,
a explosão dessa bolha e os enormes escândalos financeiros como o da Enron
fizeram o dólar descer muito e o euro subir para níveis sem precedentes. Na
economia mundial, o crescimento e o desenvolvimento são elementos tão
importantes para a determinação das paridades cambiais como a estabilidade
dos preços e o equilíbrio orçamental. Um dólar fraco contribui para isolar a
Europa das perturbações externas, nomeadamente do aumento das cotações do
petróleo, e para alargar significativamente as possibilidades de expansão do
emprego e da actividade. No mundo inteiro, um pouco por todo o lado, os investidores
gostariam muito de possuir activos em euros. Não utilizar essas oportunidades
tem um custo elevado. A persistência da estagnação e a obsessão doentia dos “grandes
equilíbrios” contribuem para enfraquecer o euro, na medida em que há cada vez
menos novos activos europeus disponíveis e, portanto, menos razões para
investir nas economias europeias. A união monetária, tal como foi concebida há quase quarenta anos,
constituía um projecto inovador e optimista: uma moeda comum ia diminuir os
constrangimentos, em particular os resultantes da supremacia do dólar. A
concretização deste projecto na sua forma conservadora, dogmática e antidemocrática
origina constrangimentos, é uma ameaça auto‑imposta às economias da
zona euro, em primeiro lugar à Alemanha, o paralisado gigante da União. Se a
rejeição do Tratado Constitucional permitir pôr em causa o actual regime
macro‑económico, ela constituirá um desenvolvimento positivo para a
construção europeia. _____ * Professor na Metropolitan University de Londres. Membro dos
Economistas Europeus para uma Política Económica Alternativa (Grupo
Euromemorandum). Autor de European Monetary Union: Problems of
Legitimacy, Development and Stability, Kogan Page, Londres, 2001. [1] A “Estratégia de Lisboa”, adoptada no Conselho Europeu realizado
em Março de 2000 na capital portuguesa, tinha como objectivo tornar a União
Europeia «a economia do conhecimento mais competitiva do mundo». [2] Euromemorandum Group,
Beyond
Lisbon: Economic and Social Policy Orientations and Constitutional
Cornerstones for the European Social Model: Euromemorandum 2004 (pdf). [3] Beyond Lisbon,
op. cit. |