Informação Alternativa

União Europeia

Abril 2005

 

Grã­‑Bretanha: a escola entregue ao patronato

 

Richard Hatcher *

Le Monde diplomatique

 

Era já conhecida a solicitude de Tony Blair quando se trata de satisfazer os desejos do patronato, solicitude essa que esteve patente, por exemplo, na forma como bloqueou qualquer avanço social nas negociações sobre o Tratado Constitucional. Não se imaginava, contudo, que o primeiro-ministro britânico pudesse ir ao ponto de confiar ao sector privado os serviços prestados ao sistema educativo. Transformando a escola em empresa, o “novo trabalhismo” demonstra uma vez mais que encarna o futuro da Europa liberal.

 

O Conselho Europeu de Lisboa, em Março de 2000, estabeleceu como principal objectivo para a política educacional da União produzir um capital humano rentável ao serviço da competitividade económica [1]. Na Inglaterra (o restante Reino Unido foi menos atingido), continuando o que Margaret Thatcher em seu tempo alicerçou, o governo trabalhista de Tony Blair recorre a três novas alavancas para “reformar” o sistema escolar com base nessa lógica da rendibilidade [2].

 

A primeira é constituída por poderosas agências governamentais como o OFSTED, Office for Standards in Education (Gabinete das Normas Educativas), que procede a rigorosas inspecções nos estabelecimentos escolares, ou a Teacher Training Agency (Agência para a Formação de Professores), encarregada de supervisionar a formação inicial e contínua dos docentes. A segunda alavanca reside na tentativa de reciclagem dos directores das escolas, para fazer deles quadros de direcção firmemente empenhados nos objectivos governamentais. A terceira alavanca, objecto do presente artigo, é o sector privado, apresentado em 1998 um ano após a chegada ao poder de Tony Blair – como «o mais capaz, entre todos, de orientar a mudança e a inovação», citando as palavras de Michael Barber, conselheiro do governo para os problemas do ensino.

 

Sete anos depois, podemos efectivamente constatar que as empresas e os empresários privados, quer se manifestem a título comercial ou gracioso, se tornaram entretanto actores centrais do sistema educativo. Com efeito, o governo baseia-se neles no tocante aos métodos pedagógicos, aos programas ou à administração das escolas. Mostra­‑o, no caso dos métodos, a concessão pelo Estado de um contrato por cinco anos, num montante de 177 milhões de libras (253 milhões de euros), à Capita, a principal empresa do “negócio da educação”. Esta empresa vai empregar vários milhares de consultores para organizar sessões de formação e aconselhar os docentes sobre a maneira de estes aplicarem a Estratégia Nacional para a Aprendizagem da Leitura, da Escrita e do Cálculo no Ensino Básico e a Estratégia para o Nível 3 de Aprendizagem da Leitura e da Escrita no Ensino Secundário.

 

O papel principal do sector privado na gestão empresarial das escolas é também visível na atribuição aos professores de salários baseados no mérito. Foram assim assinados contratos de várias centenas de milhões de libras com um grande número de empresas para a elaboração de critérios de avaliação dos desempenhos dos professores, para o recrutamento de consultores encarregados de formar os directores das escolas, com vista à avaliação dos seus próprios docentes, e também para avaliar estes mesmos directores, com vista a garantir que eles cumpram correctamente as suas tarefas.

 

Uma outra grande fonte de lucros reside na privatização dos serviços existentes nas escolas, muitos dos quais eram até agora da responsabilidade das autoridades locais em matéria de educação (as LEA, Local Education Authorities). Estes serviços abrangem as cantinas, a limpeza e manutenção das instalações, e inclusive prestações que se situam no âmago da actividade educativa, tais como a disponibilização de formadores especializados ou conselheiros pedagógicos. As LEA são os departamentos encarregados da educação nas colectividades locais, cada uma das quais cobre uma cidade ou um condado (com excepção de Londres, que tem 33). Ora, a política do governo de Tony Blair consistiu em obrigar as LEA a transferir para as escolas praticamente a totalidade dos seus orçamentos, devendo agora as escolas comprar um grande número de serviços ao sector privado. Algumas LEA foram muitas vezes objecto de inspecções do OFSTED e tiveram avaliações de “mau funcionamento”, obrigando-as então o Estado a subcontratar todos os seus serviços ao sector privado.

 

Convém notar, todavia, que as empresas privadas não são atraídas pela gestão directa das escolas Públicas com vista à obtenção de lucros. Não que isso lhes esteja vedado, porque a lei de 2002 relativa à educação obriga as LEA a abrir concurso no sector privado para a gestão dos futuros estabelecimentos escolares cuja construção já se encontre programada ou para a das escolas que a OFSTED considere que têm “mau funcionamento”. No entanto, desde que o Partido Trabalhista chegou ao poder, em 1997, apenas três escolas públicas passaram a ser directamente controladas por empresas privadas. E isso por dois motivos principais: até agora, as LEA conseguiram evitar abrir concursos e as próprias empresas não estão convencidas de que tais operações sejam suficientemente rentáveis.

 

O governo adoptou ainda uma outra estratégia para tornar as empresas agentes impulsionadores da mudança no sistema educativo: o mecenato. A sua forma mais indirecta, mas mais influente, é o patrocínio das escolas ditas “especializadas”. Trata-se de colégios ou escolas secundárias (alunos dos 11 aos 16 ou dos 11 aos 18 anos) que, além do ensino do Programa Nacional (National Curriculum), se especializam numa disciplina particular: artes, ciências, línguas modernas ou “negócios e empresas”. A justificação adiantada foi a seguinte: as escolas e colégios têm de dar resposta à diversidade de “aptidões” dos alunos, constituindo a panóplia das opções possíveis um alargamento da democracia. A maior parte dos docentes não ficou nada convencido, mas mais de metade das escolas secundárias, aliciadas pela perspectiva de virem a ter financiamentos governamentais suplementares, tornaram-se “especializadas” – e a intenção do governo é que todas acabem por sê­‑lo. Para adquirirem esse estatuto, os estabelecimentos escolares têm de obter 50.000 libras (71.000 euros) de fontes externas, sobretudo das empresas.

 

ESTIMULAR O ESPÍRITO EMPRESARIAL

 

Este dispositivo tem   duas funções: estimular o  espírito empresarial na gestão das escolas e ligar de forma mais estreita estas últimas ao mundo dos negócios. Na prática, muitos patrocinadores são grandes empresas que desejam apresentar-se publicamente como «empresas cidadãs» [3]. Estas grandes empresas não estão interessadas na gestão dos estabelecimentos escolares, embora algumas tenham representantes seus nos respectivos conselhos de administração. Entre estes mecenas é de sublinhar uma grande ausência: a das empresas do “negócio da educação”.

 

A outra forma de mecenato, que vai muito mais longe, diz respeito às chamadas “academias”. Trata-se de novas escolas secundárias do Estado criadas nas zonas socialmente desfavorecidas. Estas “academias” são financiadas directamente pelo governo mas dependem do quadro legislativo que rege as escolas privadas, furtando­‑se assim ao quadro legislativo que os outros estabelecimentos escolares públicos se encontram obrigados a respeitar. Não dependem, por isso, das LEA, dispondo de total liberdade, em particular no que diz respeito aos programas. Até agora foram abertas 17 academias, e o objectivo é haver 200 a funcionar em 2010.

 

Os mecenas têm de pagar 20 por cento dos custos de edificação (cerca de 2 milhões de libras ou 2,8 milhões de euros), pagando o governo os restantes custos de construção da escola (em média, 25 a 30 milhões de libras, 35 a 42 milhões de euros, ou seja, muito mais do que no tocante a uma escola comum), bem como as despesas de funcionamento. Como os terrenos e os edifícios da escola pública existente, actualmente propriedade da colectividade local, são transferidos para a nova “academia”, isso permite que os patrocinadores os adquiram por 20 por cento do seu valor. O patrocinador pode nomear a maioria dos membros do conselho de administração e controlar, por conseguinte, o estabelecimento escolar, nomeadamente no tocante à escolha e promoção dos docentes [4].

 

Além do patronato, o governo incita as Igrejas e as escolas privadas endinheiradas a patrocinarem essas academias. O sítio Internet do governo recenseia as 17 existentes, bem como as suas inovações pedagógicas [5]. Os mecenas são principalmente empresários multimilionários, com motivações diversas mas sem que estas se excluam umas às outras: filantropia, transmissão dos valores do mundo dos negócios, promoção da imagem da respectiva empresa ou busca de influência política. Um deles, Sir Peter Vardy, possui uma grande rede de concessionários de automóveis e é cristão fundamentalista, defendendo que a Bíblia deve ser levada à letra. Na sua academia, o criacionismo é ensinado ao mesmo título que a teoria darwiniana da evolução, sendo ali proibidos os livros de Harry Potter a pretexto de que estes estimulam a crença na bruxaria. Esta academia foi inspeccionada pelo OFSTED, que a seu respeito apresentou um excelente relatório.

 

Será o mecenato educativo uma etapa rumo ao controlo das escolas públicas com o objectivo de obtenção de lucros? É uma eventualidade que não podemos excluir, em particular no contexto do Acordo Geral sobre o Comércio dos Serviços (AGCS, em inglês GAT) da Organização Mundial do Comércio (OMC), mas nesse sentido apresentam-se desde já diversos obstáculos. Primeiro, para isso será preciso que os patrocinadores actuais sejam substituídos por outros que tenham como objectivo ganhar dinheiro. E além disso será preciso que tenham a perspectiva de ganhar mais dinheiro nas escolas do que noutros sectores. Ora, nos Estados Unidos, relativamente ao ano lectivo de 2003-2004, apenas 47 empresas tinham contratos de gestão em 417 escolas públicas e, dessas 47, muito poucas obtiveram lucros.

 

A questão da rentabilidade coloca-se no tocante às prováveis consequências que o Acordo Geral sobre o Comércio e os Serviços poderá vir a ter na educação. O alvo principal do lóbi do “negócio da educação” não é a gestão das escolas, é o ensino pós-obrigatório, através de sistemas de ensino à distância ou da criação de campi universitários no estrangeiro. Além disso, na sua maioria, e contra as posições da Comissão Europeia, os governos dos Estados membros da União Europeia parecem estar ainda reticentes quanto a assumir compromissos em matéria de escolaridade obrigatória com base no AGCS. O artigo III-315 do Tratado Constitucional europeu, que está actualmente a ser ratificado, refere ser necessária a unanimidade com vista à negociação e conclusão de acordos comerciais (e não uma maioria qualificada) «no domínio dos serviços sociais, de educação e saúde quando esses acordos possam vir a perturbar gravemente a organização destes serviços a nível nacional e a atentar contra a responsabilidade dos Estados membros no respeitante à prestação destes serviços».

 

Ao abrir o sistema de educação pública ao sector privado, Tony Blair foi muito para além da posição negocial da União Europeia no que diz respeito ao AGCS, mas não vemos esboçar-se nenhum movimento dos círculos de negócios com vista a apoderarem-se das escolas com o objectivo de obtenção de lucros. Para o governo, com efeito, o que realmente conta não são as empresas do “negócio da educação”, sector relativamente fraco da economia, mas sim os interesses dos sectores capitalistas dominantes, dos grandes empregadores, para os quais é o sector público que tem de formar o “capital humano” – mas segundo os seus desideratos [6].

 

É exactamente isso que o Comité Consultivo dos Negócios e da Indústria da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reclama num documento de trabalho [7] apresentado no Encontro dos Ministros da Educação realizado em Dublin a 18 e 19 de Março de 2004: «Em nossa opinião, incumbe ao governo a responsabilidade principal em matéria de formação inicial. Os empregadores e as empresas contribuem para isso trabalhando com o governo e com as instituições educacionais no sentido de lhes prescreverem objectivos claros em função das necessidades do mercado.»

 

O Livro Branco sobre os alunos dos 14 aos 19 anos, publicado em Fevereiro de 2005 pelo governo britânico, corresponde na perfeição a este roteiro. Em vez de manter um tronco comum de matérias até aos 16 anos, esse livro prevê uma orientação para o ensino profissional aos 14 anos, sob a direcção do patronato: «Queremos pôr os empregadores no posto de comando, para que eles tenham um papel decisivo na fixação dos percursos educativos e na definição pormenorizada do conteúdo dos diplomas». Ou seja, uma base de conhecimentos vendidos ao desbarato, sem ciências sociais, sem humanidades, sem línguas vivas e sem artes. Uma espécie de equivalente educativo do salário mínimo – e com lógica, visto ser para aí que essa base há­‑de levar os alunos dos estratos populares...

 

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* Director de investigação na Faculdade de Ciências da Educação, University of Central England, Birmingham (Reino Unido).

 

[1] Louis Weber, O enterro da escola republicana, Le Monde diplomatique, Março de 2005.

[2] Ken Jones, Education in Britain, Polity Press, Cambridge, 2003.

[3] Consultar o sítio do Specialist Schools Trust, agência governamental encarregada da promoção das escolas especializadas.

[4] A respeito dessas academias, ver o sítio do Sindicato Nacional dos Professores Sindicato Nacional dos Professores (NUT) (doc).

[5] Sobre as normas pedagógicas, consultar o sítio do Ministério da Educação e Qualificações (DFES).

[6] BIAC Discussion Paper to the OECD Meeting of Education Ministers on Raising the Quality of Learning for All (pdf), Comité Consultivo dos Negócios e da Indústria (BIAC) junto da OCDE, Março de 2004.

[7] Richard Hatcher, “Privatisation and Sponsorship: the re­‑agenting of the school system in England”, Journal of Education Policy, vol. 20, Londres, 2005.