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07/12/2005 Três questões europeias Ilda Figueiredo Estamos em vésperas de decisões que podem ser graves para o nosso
país. Destacam-se três questões da maior importância: a decisão sobre as
perspectivas financeiras 2007/2013; as negociações no âmbito da OMC, em
Hong-Kong, e a votação da chamada "directiva Bolkestein" sobre a
criação do mercado interno dos serviços. Vejamos mais em particular cada uma destas questões: 1. PERSPECTIVAS FINANCEIRAS Haverá ou não um acordo no próximo Conselho Europeu de 15 e 16 de
Dezembro, o último da Presidência britânica? E se houver, que tipo de acordo
será? Como ficará a situação de Portugal para os próximos sete anos,
sabendo-se que estamos em divergência com a média comunitária há quatro anos
e que, com as actuais políticas recessivas, comunitárias e nacionais, se
prevêem pelo menos mais dois em idêntica situação? Ora, a verdade é que todas as informações que chegam, designadamente
da Presidência britânica, demonstram que só haverá acordo se os
Estados-membros com maiores dificuldades, como os novos Estados-membros e
Portugal, aceitarem novos cortes orçamentais para além da redução que a
Presidência luxemburguesa previa em Junho passado. Mas tão grave como isso é
a repartição, com possível redução para a coesão e fundos estruturais, em
nome de maiores apoios à competitividade e aos centros de excelência que
estão lá na Alemanha, França, Reino Unido e pouco mais. Ou seja, para lá da
concentração capitalista que já está a ser promovida pela via do Pacto de
Estabilidade e pelo aumento da taxa de juro do BCE, os mais poderosos ainda
querem usar o orçamento comunitário para reforçar uma redistribuição
orçamental que seja favorável aos seus grupos económicos, deixando cair o
objectivo da coesão económica e social. 2. CIMEIRA DA OMC, EM HONG KONG De 13 a 18 de Dezembro, as negociações do denominado "ciclo de
Doha", na OMC, terão um ponto alto, embora já se saiba que se vão
prolongar durante o ano de 2006. Igualmente, aqui, o objectivo da União
Europeia, que o Comissário Mandelson não esconde, é conseguir o melhor para
os grupos económico-financeiros mais poderosos, insistindo na liberalização
do comércio internacional, mesmo que, pelo caminho, deixe um rasto de destruição
na agricultura familiar e nas indústrias tradicionais como têxteis,
vestuário, calçado, vidro, cerâmica, agro-alimentares, etc, indiferente ao
direito dos povos a um desenvolvimento equilibrado e à gestão dos seus
próprios recursos, à soberania e segurança alimentar, ao emprego com
direitos. 3. PROJECTO DA "DIRECTIVA BOLKESTEIN" Continua, no Parlamento Europeu, o debate desta conhecida proposta
de liberalização da generalidade dos serviços, incluindo dos serviços
públicos, mesmo sabendo-se que tal proposta teve grande importância na
mobilização dos trabalhadores e outros sectores da população para o voto
negativo nos referendos em França e na Holanda, o que não deixa de ser
sintomático da verdadeira natureza de classe desta dita construção europeia. Na recente votação, na Comissão especializada do Parlamento Europeu,
a maioria conservadora impôs a sua posição e aprovou as grandes linhas
orientadoras da proposta, embora com um ou outro retoque ligeiro. O PSE
absteve-se na votação global, mesmo que em certos pontos tivesse apresentado
propostas menos gravosas. Quanto à UNICE, a organização do grande patronato europeu, de
imediato se congratulou com o resultado da votação, apelando aos deputados
para que apoiem este relatório na sessão plenária do início do próximo ano,
quando o assunto for agendado para debate e votação em Estrasburgo. O que,
desde logo, torna claro o alcance e os interesses defendidos por esta
proposta. Mantém-se, pois, no essencial, o princípio do país de origem para as
empresas, embora se tente clarificar que será aplicado o direito de trabalho
do país de destino e se preveja que os Estados-membros possam solicitar
medidas de protecção para alguns casos nas áreas do ambiente, da ordem
pública e do social. No entanto, ficam muitas dúvidas sobre a aplicação
prática da legislação laboral, da defesa dos direitos dos trabalhadores e da
legislação aplicável para defender os interesses dos utentes dos serviços. Igualmente grave é a não exclusão dos serviços públicos, a que
chamam «serviços de interesse geral», da proposta de directiva, em que
incluem, por exemplo, o negócio da água, o que visa abrir as portas à
liberalização do importantíssimo sector da água e aos negócios que grupos
privados esperam fazer neste e noutros campos. Apenas ficaram de fora
sectores considerados de serviços sociais como cuidados de saúde, o
audiovisual e alguns casos específicos de que se destacam os jogos e
lotarias. Isto significa que se estão a abrir portas para novos avanços nas
liberalizações e privatizações em sectores básicos e serviços públicos
fundamentais e a facilitar ainda mais o "dumping social", com o
fomento da concorrência entre trabalhadores, também em nome da dita
Estratégia de Lisboa e da sacrossanta concorrência. Pela nossa parte – Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda
Verde Nórdica – em que se incluem os deputados comunistas, sempre exigimos
que a Comissão retirasse esta famigerada proposta "directiva
Bolkestein" e continuamos a propor a sua total rejeição. A luta vai continuar e esperamos que com a mobilização dos trabalhadores e das populações na defesa de serviços públicos de qualidade e da garantia de acesso de todos aos direitos humanos fundamentais, seja possível obrigar a Comissão e o Conselho a recuar nas suas propostas inaceitáveis. |