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26/10/2005 Nas fronteiras de Ceuta e Melilla «não existe o estado de direito»: AI Armando G. Tejeda e
Agências
Um integrante
de Médicos sem Fronteiras atende um jovem africano que resultou
ferido ao tentar cruzar a fronteira de Espanha pelo enclave de Melilla Nas fronteiras de Ceuta e
Melilla «não existe o estado de direito», denunciou esta quarta-feira a
organização Amnistia Internacional (AI), que recolheu nessa zona «provas
fidedignas» sobre o maltrato físico que imigrantes norte‑africanos sofrem
às mãos das forças de segurança, tanto espanholas como marroquinas. Uma missão de AI visitou
durante 10 dias a região fronteiriça, onde desde Agosto passado pelo menos 11
migrantes morreram vítimas da repressão das forças de segurança, para «constatar
que Espanha, Marrocos e Argélia violam sistematicamente os direitos humanos»,
assinalou Javier Zúñiga, chefe da equipa que recolheu depoimentos dos
migrantes no terreno. «Tem que se parar já o
trágico, ilegal, cruel e desumano jogo de ping pong com bolas humanas
por parte de Espanha, Marrocos e também Argélia», enfatizou Zúñiga, que
assegurou que as violações aos direitos humanos se produzem de «um e outro
lados da cerca». «Na zona da cerca parece que
não existe o estado de direito», sustentou Zúñiga em roda de imprensa,
juntamente com vários dos especialistas que integraram a equipa e de Arrah
Mary Magdalene, irmã de um jovem camaronês morto no dia 29 de Agosto ao
tentar passar a cerca, mas que não integra a lista dos 11 imigrantes que
oficialmente morreram nessas circunstâncias. A Amnistia denunciou o «quadro
de impunidade» que rodeia os casos de imigrantes feridos ou mortos em
situações «não acidentais» e as «devoluções ilegais» a Marrocos. Segundo Zúñiga, «muitas
pessoas feridas que tinham conseguido entrar em território espanhol foram
devolvidas do outro lado da cerca sem respeitar os requisitos legais e sem
ajuda médica». Acrescentou que a AI tem «provas
fidedignas» de que não se respeitou o direito de asilo e que «muitas das
feridas e fracturas» que apresentam os imigrantes entrevistados pela
organização são consequência de «balas de borracha e coronhadas» de agentes da
Policia civil espanhola que «derrubam de forma brutal» as escadas artesanais
com as quais os subsaarianos tentam saltar a cerca. O médico forense Francisco
Etxebarría explicou que, com toda a probabilidade, algumas das 11 mortes
registradas até agora produziram‑se devido ao impacto das balas de
borracha que os agentes da Policia civil costumam utilizar para reprimir as
avalanches na grade. Etxebarría assegurou que como
resultado dos depoimentos recolhidos e dos imigrantes que puderam ver, não
tem «nenhuma dúvida de que algumas lesões não são um acidente (...) Foram
provocadas por (elementos) anti-distúrbios ou abuso da força». A AI denunciou ademais «sérias
irregularidades» no processo de devolução a Marrocos de 73 subsaarianos detidos
em território espanhol depois de penetrarem em Ceuta e Melilla, já que em
nenhum momento tiveram constância de contar com um advogado», não conheciam
os seus direitos e foi-lhes dito que os enviavam para a península espanhola. Os governos de Espanha e de
Marrocos asseguram estar «a investigar os falecimentos (...) No entanto, a Amnistia
observou que as autoridades de ambos os países se culparam mutuamente pelas
mortes», indicou num relatório a entidade humanitária que pedirá a criação de
uma «comissão independente para investigar as acções das forças de segurança»
na zona da cerca. Sobre o que ocorre do lado
marroquino, Philip Luther denunciou que pelo menos «duas bases militares» são
utilizadas por Rabat para «reagrupar», segundo o léxico oficial, «centenas de
pessoas», entre as quais figuram várias dezenas que têm em seu poder um
certificado do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) como
solicitantes de asilo. «Marrocos não respeita nem as
suas próprias leis nem os seus compromissos internacionais», sustentou
Luther, investigador da AI para esse país do norte de África. Na apresentação deste
relatório, Arrah Mary Magdalene denunciou publicamente que o seu irmão Josef
morreu «depois de uma brutal tareia de um policia civil espanhol» na
fronteira com Melilla. O advogado da mulher já enviou duas cartas denunciando
o caso ao presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero. «O governo espanhol pode
impedir que ocorram mais casos parecidos ao do meu irmão», afirmou a jovem.
«O meu irmão não era um criminoso, não fazia falta dar-lhe uma tareia nem
matá-lo», sentenciou. Por outro lado, as autoridades italianas assinalaram que uns 700 imigrantes indocumentados desembarcaram nas passadas 24 horas na ilha de Sicília, onde ficaram sobrelotados os centros de recepção especial, já que só contam com instalações para dar cabida a 190 pessoas. |