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União
Europeia/África |
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Outubro 2005 A geopolítica do cinismo Miguel Portas O drama de Melilla exibe o preço da Europa fortaleza. Só o compra
quem quer. Nós não. Esta política parte de uma ideia simples: como a Europa não pode
receber todos os miseráveis do Mundo, o fim das fronteiras internas deve ser
compensado por fronteiras externas inexpugnáveis. À Europa só devem chegar
imigrantes que os países desejem, até para “poderem ser bem tratados”. Este é
o discurso oficial. Que se ajusta ao estado de espírito de opiniões públicas
castigadas pela crise e o desemprego estrutural. Por exemplo, de pouca
adianta explicar que não existe qualquer relação entre os níveis de
desemprego e o peso dos imigrantes nos diferentes países da União... O medo
faz a lei. A ideia de uma Europa invadida pelos pobres é a imagem que a
fortaleza envia aos seus “sitiados”. A realidade é, contudo, bem diferente: a
Espanha aceita anualmente 80 mil imigrantes legais do continente americano.
Fecha é as suas portas a África. E a Itália faz o mesmo a Leste. Shenghen é a
política de imigração à la carte – a África que se dane. Só é boa para
imigração ilegal... em tempo de obras. É a Europa que transforma o Mediterrâneo num muro. A recente legalização de imigrantes em Espanha não atraiu qualquer
nova vaga de subsaharianos a Melilla. Os desgraçados não lêem jornais, nem
sabem dessas coisas. O que a gerou foi uma tenaz: do lado espanhol, novos
meios de fiscalização marítima tornaram, nos últimos meses, impossível a
travessia em barcos de clandestinos; e do lado de Marrocos, a polícia correu
com os ilegais de Tânger e dos montes de Bayounesh, nos arredores de Ceuta.
Estes dois factores fizeram convergir para Melilla alguns milhares de
desesperados que se juntaram às poucas centenas que aí estavam. Rabat
calculou bem. O resultado da tenaz foi a pressão sobre Melilla. O drama que
se seguiu também estava nos cálculos. A Europa desbloqueou novos 40 milhões
de euros para que Marrocos trate da vigilância. Em suma, os sem papéis foram
usados e imolados no jogo euro-mediterrânico. O seu esquema é simples: pagamos a Marrocos, à Tunísia e à Líbia para policiarem fronteiras de “quota zero”. Em troca, assinamos acordos de associação assentes no desarmamento alfandegário. O que até é mais útil para o lado de cá. Quanto a direitos humanos, é um problema deles... |