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01/10/2005 Ilha no epicentro do vazio Chipre esteve no centro do debate europeu sobre o início formal das
negociações com a Turquia, previstas para 3 de Outubro. Esta ilha, que foi um
protectorado inglês antes da independência, tem o seu norte ocupado pela
Turquia. Por um capricho dos deuses, a UE permitiu a adesão de Chipre sem
que, previamente, se tivesse resolvido o conflito aí existente. É certo que a
UE contava que o plano gizado pela ONU fosse ratificado pelas duas
comunidades cipriotas – a grega e a turca – em referendo. Mas não foi. A
comunidade grego‑cipriota respondeu de modo diferente do esperado.
Agora, a situação é simples: a Turquia só poderá aderir à UE se reconhecer
todos os Estados que a integram. Isto é óbvio até para Ancara. Mas é muito
mais difícil de fazer. Exige tempo e não o toque de caixa de um ultimatum.
Porque isto também é óbvio, as forças que se opõem a uma eventual adesão da
Turquia, decidiram jogar todos os seus argumentos em Estrasburgo. Foram “quase”
bem sucedidas. Desde que a crise da UE se tornou patente – em consequência do
fracasso do Tratado Constitucional e da ausência de acordo quanto aos
dinheiros europeus – uma aliança heteróclita de forças políticas e Governos
centrou a sua reacção à crise numa ideia simples: não há pão para malucos,
enquanto a casa não estiver arrumada. Esta “frente de rejeição” vai da
direita racista e anti-islâmica às esquerdas soberanistas que vêem em
qualquer nova adesão uma diminuição dos fundos comunitários para os
respectivos países. E pelo meio inclui ainda segmentos relevantes das
direitas e esquerdas moderadas que, à deriva, entendem ser preciso parar
antes que seja tarde. A fronda atravessou todos os grupos parlamentares, sem excepção.
Encabeçada pelo maior partido europeu, o PPE (direita), tentou inicialmente
condicionar o começo das negociações oficiais com a Turquia a um prévio
reconhecimento da República de Chipre. Isso não obteve. Aliás, só por isso
votei a resolução de compromisso subscrita por todos os principais grupos do
Parlamento Europeu. Mas o texto aprovado, ainda assim com significativa
oposição, arrefece as posições que Estrasburgo tomara um ano atrás.
Poder-se-ia dizer que tal endurecimento responderia a retrocessos de Ancara
ao longo do ano. Mas isso não é verdade. Ancara manteve, porque ainda refém
de um exército intratável, o seu bloqueio de espaço aéreo e marítimo a
Chipre. Mas nos últimos tempos o primeiro-ministro turco desdobrou-se em
sinais positivos para Bruxelas. Reconheceu existir uma “questão curda” em
plena capital do Curdistão turco. E patrocinou o primeiro debate académico
realizado na Turquia sobre o genocídio da população arménia às mãos do
exército. Seja como for, o que se discutiu em Estrasburgo não foi a Turquia
ou Chipre, mas a Europa. Chipre foi um mero pretexto para a santa aliança que
prefere, à adesão, uma “parceria privilegiada” com a Turquia. É um eufemismo
na realidade, trata-se de um acordo onde só entra o mercado, mas não as
pessoas. Ou seja, a política e a democracia. Porque este é o projecto, mas ainda não foi desta que mataram as
negociações de adesão, as direitas quiseram a Europa a “falar grosso e de
cima” com Ancara. Para que se percebam os pesos e as medidas, no mesmo dia, o
plenário debateu também a última cimeira das Nações Unidas. Como se sabe, foi
um fracasso com assinatura – a de John Bolton, porta-voz do Império em Nova
Iorque. No mínimo, esperar-se-ia que a altivez revelada com Ancara tivesse
equivalente com Washington. Mas nem preciso de explicar o que sucedeu: foi
chumbada a emenda que assinalava este facto. Assim andam as coisas por
Estrasburgo e Bruxelas. Cheias de dignidade... -x- Mudando de assunto: garante o DN que Miguel Coelho, chefe do PS em Lisboa, afirmou que o PCP tem um acordo de distribuição de pelouros com o PSD, caso Carmona Rodrigues ganhe. É verdade que o PCP tem responsabilidades em executivos municipais de direita. Não deveria, mas tem. No Porto, em Gondomar, em Coimbra ou em Sintra. Mas em Lisboa nunca. Por isso, não são PCP e PSD que têm de confirmar ou desmentir. É o PS que deve provar. Não pode valer tudo na disputa de votos. Um voto conquistado ao adversário com base numa mentira é um desrespeito pelos eleitores. Manuel Maria Carrilho tem feito a mais desastrada das campanhas. Só falta que faça da mentira a cereja no bolo... |