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27/09/2005 Nota
sobre a política da água – Texto da intervenção na Audição Parlamentar sobre a Água, promovida em Estrasburgo pelo Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu – Luisa Tovar Agradeço com muita alegria o convite a participar nesta audição, e
felicito a iniciativa do Grupo Confederal da Esquerda Unitária
Europeia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu de realização de uma
audição sobre a água. O acesso à água está cada vez mais ameaçado, assim como as suas
funções fundamentais nos processos ecológicos. As catástrofes associadas à
água têm efeitos mais graves e são cada vez mais frequentes. Há cada vez mais
excluídos da fruição da água em condições adequadas, como alimento, como
factor sanitário, como meio ambiente e como recurso de produção. Os actuais problemas humanos associados à água têm sobretudo o
padrão de inequidade, acompanham o padrão das desigualdades sociais e
económicas e da exploração. Há, em simultâneo, um crescimento das enormes
fortunas associadas aos “negócios da água” e uma apetência e interesses cada
vez mais poderosos pelejando por esses negócios. Negócios tanto mais
lucrativos e que proporcionam um poder tanto maior quanto o acesso à água for
dificultado e o controlo centrado em poucas mãos. Há assim interesses diametralmente opostos: o acesso de todos à
água, a melhoria da sua qualidade e disponibilidade contrapõe-se ao interesse
dos fortíssimos grupos económicos que pretendem monopolizar um recurso tão
mais rentável quanto mais for “escasso”. A dinâmica da água, os processos de utilização e as tecnologias
disponíveis prestam-se à constituição de monopólios regionais. O controlo da água numa região representa um poder enorme. Pelo
domínio do abastecimento público, pela influência em todas as actividades
económicas que utilizam a água como factor de produção, e nas que dependem do
acesso à água e às praias, como a pesca e muito do turismo. Ao regime de monopólio associa-se uma lógica de reembolso rápido de
capitais incompatível com uma perspectiva de longo prazo – deteriorado ou
esgotado o recurso numa região, a exploração deslocaliza‑se ou altera
o ramo de negócio. Estas questões são relativamente recentes, assim como as
multinacionais da água e sobretudo a corrida pela “água da natureza”. Encontram
obstáculos na legislações dos Estados, como a figura de “domínio público”
que, ao invés de ser aperfeiçoada se tem vindo a desfigurar e a desaparecer
no seu sentido de responsabilidade do Estado e de utilização comum. O poder e influência dos interesses nos “negócios da água” tem vindo
a crescer aceleradamente e são estes que dominam actualmente os principais
centros de decisão sobre políticas da água. A intervenção do GUE/NGL tem impedido algumas cedências maiores da
Comissão a esses interesses e são assinaláveis posições do PE como a
imposição do primeiro considerando da Directiva Quadro da Água e a posição
sobre os Serviços de Água no debate da Directiva sobre Serviços de Interesse
Geral. Mas a larguíssima maioria dos cidadãos desconhece completamente
estas posições, assim como só se apercebe dos efeitos das leis após a
aplicação, e não durante o processo de aprovação. E, não havendo acompanhamento pelo PE dos processos de transposição
nem da aplicação das directivas, para além das componentes fortemente
negativas que muitas encerram, dá-se azo a que sirvam de pretexto à
espoliação da água e à exploração das pessoas, como “cavalos de Tróia” que
trazem no bojo as leis perniciosas de cujos custos políticos os governos se
pretendem eximir. É isso que se está a passar agora mesmo em Portugal. No dia 29 de Setembro, a maioria parlamentar prepara-se para aprovar
dois diplomas legislativos a título de “transposição da Directiva Quadro da
Água”. – É revogado o corpo principal da legislação vigente, e as
alterações introduzidas permitem ao Governo vender os rios, as praias, os
portos e as infra-estruturas que actualmente são domínio público hídrico. – Promove-se a formação de monopólios regionais da água, concessionados
por 75 anos, que exploram comercialmente o licenciamento de todas as
utilizações da água, incluindo a poluição. – Não introduzem qualquer alteração no sentido da protecção da água,
promovem pelo contrário o licenciamento desregrado, fazendo depender a
sobrevivência das entidades licenciadoras do rendimento das taxas. – São instituídos mecanismos de encaixe no orçamento de Estado, pela
privatização do domínio público hídrico e cobrança de taxas de utilização,
não se prevendo qualquer reforço de recursos para monitorização, recuperação
da qualidade do meio hídrico, minimização de efeitos de secas e cheias. O processo de participação pública reduziu-se ao pedido de parecer a
um escasso número de entidades às quais foi dado para se pronunciarem o prazo
de 23 de Julho a 10 de Agosto e uma Audição Parlamentar Pública muito
escassamente anunciada e sem presença da imprensa, no dia 14 de Setembro. Embora os pareceres sejam praticamente todos desfavoráveis, tenha
havido sérios protestos de associações, confederações e sindicatos sobre o
processo de participação, e vários milhares de subscritores apresentassem uma
petição para suspensão do processo legislativo, a aprovação está agendada
para dia 29 de Setembro, a pretexto da “urgência de transposição da Directiva
Quadro da Água”. Naturalmente, a aprovação desta lei induzirá de imediato uma queixa
por deturpação e violação da Directiva Quadro da Água, e provavelmente por
várias outras violações, no texto e no processo, das Directivas sobre
Participação Pública. Mesmo acolhidas essas queixas, dificilmente o mal será
emendado. A correcção do direito interno fica mais renhida e difícil depois
desta aprovação... Assim, não se perspectivam quaisquer efeitos benéficos da Directiva
Quadro na melhoria da qualidade da água em Portugal, e, menos ainda, no
acesso à água potável, às fontes naturais, a águas balneares de qualidade, à
fruição de um ambiente sadio, das paisagens ribeirinhas e da biodiversidade
natural. Pelo contrário, os efeitos na prática são tão perniciosos quanto
está a servir de capa e pretexto à mercantilização da água que o PE pretendeu
evitar persistindo na imposição do primeiro considerando. Haverá casos paralelos noutros países europeus. É importante que
sejam conhecidos e publicitados. E notícia é também a oposição das pessoas, a
intervenção no processo legislativo. Creio que o caso de Portugal demonstra que transposição e
implementação das directivas precisa de um outro acompanhamento, ao lado das
populações, e não cingir-se a uma fiscalização administrativa a posteriori
entre governos. Os actuais problemas da água exigem um conhecimento científico
profundo e investigação tecnológica, mas é por motivos políticos que não só
não são resolvidos como se agravam exponencialmente. Há interesses económicos
no seu agravamento e onde esses interesses forem predominantes a privação do
acesso à água e a sua degradação decorrem inevitavelmente dessa supremacia. A Audição sobre a Água mostra a importância que o GUE/NGL atribui a
este tema. Contribuirá certamente para aprofundar a articulação da actividade
dos deputados com as lutas dos cidadãos que em cada Estado defendem o acesso
à água para todos e para despertar a solidariedade com a luta dos Portugueses
contra uma “transposição da DQA” cujos efeitos seriam mais graves e
duradouros que os da terrível seca que afecta agora o nosso País. É o fórum próprio para impulsionar a mudança de política da água
urgente e necessária. Porque só uma abordagem de esquerda, de equidade do
acesso e fruição da água e uma perspectiva ecológica de interacção dialéctica
entre o homem e a natureza pode conduzir à solução dos actuais problemas da
água. Cada vez mais pessoas desejam e lutam por essa mudança. Saibamos agregar mais gente ainda e unir os esforços para consegui-la. |