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03/06/2005 Que se vayan todos (o não francês à Europa) Georges Labica * PARA UM BALANÇO O resultado do referendo de 29 de Maio de 2005 em França sobre o
projecto de “Tratado estabelecendo uma constituição para a Europa” deu a
vitória aos partidários do Não. Esta vitória, por mais de uma razão, é
notável: – Ela é incontestável ao mesmo tempo pela taxa de participação
(70,26%), que travou a progressão constante do abstencionismo eleitoral, e
pela importante diferença entre as duas respostas possíveis – de quase 10
pontos (Não: 54,87%; Sim: 45,13%) e três milhões de votos –, tendo 84
departamentos em 100 votado Não. – Ela testemunha uma determinação muito grande do eleitorado que se
opôs à constituição, que não cedeu à campanha de chantagem e de ameaça do
caos orquestrada pelas forças políticas coligadas da direita no poder e dos
sociais-democratas (Partido Socialista e Verdes), apoiadas pela quase
totalidade dos meios de propaganda, tanto oficiais como privados. E não se
esqueça que o campo do Sim não teve pejo de chamar em seu socorro acólitos
estrangeiros, de Bruxelas ao Luxemburgo, a Berlim, Madrid, Roma, Varsóvia ou
às capitais bálticas, seguindo nisso o exemplo dado pela... monarquia
francesa em 1792. – Ela situa-se decididamente à esquerda, já que a percentagem do eleitorado
de esquerda (extrema‑esquerda, PCF, dissidentes socialistas e verdes)
representou o triplo do eleitorado de direita (dissidentes do UMP, Movimento pela
França e extrema‑direita). – Ela é popular com apoio de 80% dos operários e dos empregados; 95%
do eleitorado comunista, 93% do de extrema‑esquerda e,
respectivamente, 59% dos socialistas e 64% dos Verdes, embora estas duas
formações, através de consulta interna dos seus apoiantes, se tenham
pronunciado pelo Sim. Basta olhar para um mapa para perceber, para além da
geografia, as clivagens sociais e políticas. O Sim ganhou em sete
departamentos do Oeste (Bretanha, Vendeia), no Leste (metade da Alsácia e a
Alta Savóia), tradicionalmente conservadores, e em somente duas grandes
comunidades urbanas: o Ródano com Lyon e Paris, onde houve quase 70% de votos
favoráveis ao tratado. Note-se que estas duas cidades são dirigidas por
conselhos municipais socialistas, tendo‑se Paris tornado, depois das
expulsões e discriminações ligadas à especulação imobiliária, o gueto dos “bobos”
[termo que designa os “bourgeois bohèmes”, “burgueses boémios”]. – Ela é jovem, com cerca de 60% de menores de 25 anos. Sabe-se que
este sector da população detém o recorde europeu de pessoas à procura de
emprego e que foi através de lutas recentes contra a reforma do ensino que os
alunos dos liceus entraram, com uma bela combatividade, na política. UM VOTO DE CLASSE As razões que permitiram constituir esta “frente de recusa”, segundo
uma expressão cara aos jornalistas, são conhecidas. Numerosas sondagens
pormenorizaram-nas, na sua diversidade, desde o anticapitalismo até ao “soberanismo”.
Não é necessário perder tempo com elas, porque três dessas razões são
dominantes e unânimes: a permanência da crise económica sob a dupla forma da
taxa de desemprego e do agravamento de todas as desigualdades; a rejeição da
formalização constitucional, de algum modo “definitiva”, de meio século de
experiência europeia negativa; a denúncia das políticas neoliberais e, em
pano de fundo, da mundialização do imperialismo. Observe‑se que o argumento infatigavelmente matraqueado por
todos os adeptos do Sim, de uma necessária distinção a fazer entre consulta
sobre a Europa e sanção do governo, não produziu nenhum dos efeitos
esperados. Ao contrário, o eleitorado majoritário estabeleceu perfeitamente a
ligação das práticas políticas nacionais, retomadas sem cessar da “esquerda”
à direita, e a sua institucionalização numa Constituição consagrando o
mercado e a livre concorrência para 25 países, à espera das jogadas
seguintes. Uma tal tomada de consciência não releva da intuição. Ela resulta
do conhecimento, que testemunha ao mesmo tempo o êxito das obras consagradas
à questão europeia, a qualidade dos argumentos e a pertinência dos debates,
do lado do Não, em oposição aos anátemas verbais que não hesitaram em
recorrer à injúria e à grande pobreza de justificações do outro campo. Numa palavra, os franceses não quiseram uma associação de malfeitores.
No dia seguinte à votação, a imprensa do/no poder não encontrou
outras palavras para “explicar” o acontecimento senão as de “inquietude”, de “medo”,
de “angústia” e, para o qualificar, de “impasse”, de “bloqueamento”, de “caos”.
Ora, foram sentimentos bem diferentes que se manifestaram: a cólera,
certamente, tonificante e muitas vezes criadora, mas também o dinamismo, a
esperança no exemplo do Não para os outros povos e em mudanças radicais, e o
prazer. O prazer? Sim, de quem não poderia ser atingido pela indignidade
política. Em primeiro lugar, o prazer dos comunistas (direcção e militantes)
que nesta ocasião fizeram as pazes com a identidade perdida durante a longa
penitência dos compromissos social‑democratas. E, muito mais
importante, renovaram a alegria partilhada de se sentirem de novo actores
políticos. Porque atrás das práticas e das jogadas políticas há personagens,
surge o desejo, à maneira do povo argentino expulsando os seus dirigentes, de
lhes gritar, a esses personagens, “Que se vayan todos”, ou, à
francesa, de ter a felicidade de mandar à merda de uma só vez as tribos
dominantes. Tribos que são: a pretensa “classe política”, presidente,
primeiro-ministro, governo e a santa aliança direita/esquerda que se tinha
constituído no momento da eleição presidencial, a coberto de barrar o caminho
à Frente Nacional; os seus mestres pensadores, gurus cheios de arrogância –
desde o autor declarado do texto do tratado, o ex‑presidente Giscard,
aos Veil, Barre, Badinter, Delors e o joker Jospin; o MEDEF, órgão do
patronato e verdadeiro detentor do poder, as mais altas autoridades morais e “comunitárias”,
católica, judia e muçulmana, até ao movimento “Ni putes, ni soumises” (“Nem
putas, nem submissas”); a quase totalidade dos “fazedores de opinião”, patrões
da imprensa, editorialistas, cronicadores e os seus mickeys servis dos
médias do escrito, do oral e da imagem; os “cães de guarda”, ideólogos Alta
Fidelidade, intelectuais peritos em adulação e especialistas em maquilhagem;
estrelas do cinema e do espectáculo, promovidas a autoridades políticas, uma
situando Marrocos na Europa (Johnny Hallyday), uma outra tratando-nos
publicamente de «cons» (um certo Dave). Onde se revela um novo traço, e não o menor, da vitória do Não, é no
seu conteúdo de classe. Acrescente‑se aos números já dados: 67% de
empregados, 70% de agricultores, 71% de desempregados, 64% de assalariados do
sector público e 56% do sector privado; em termos de rendimentos: 66% de
domésticas cujo rendimento não ultrapassa os 1500 euros; 56% entre 1600 e
3000 euros, 40% entre 3000 e 4500; 26% com mais de 4500 [Fonte: duas
sondagens efectuadas à saída das urnas, ultrapassando o número de pessoas
entrevistadas largamente as quotas habituais]. A invocação verbal e
demagógica da «fractura social» (Chirac) ganhou corpo. Depois do apelo do
lobo, o lobo em pessoa. IMOBILISMO DE CLASSE Em virtude da regra doravante firmemente estabelecida segundo a qual
o exercício da soberania popular traduz-se por “uma mensagem dirigida pelo
povo aos seus dirigentes”, que substitui o “apelo” à decisão e à acção, o “tsunami”
de 29 de Maio, como dizia um colunista grandiloquente, não produziu
rigorosamente nada. A mudança de governo, que de facto reconduziu o precedente,
confirmou, três dias depois, essa outra velha máxima dominante: “é preciso
que qualquer coisa mude para que tudo fique como antes” [Fórmula de Maria
Antonieta recordada por Luchino Visconti em O Leopardo]. Eis o resultado do “apelo”: o Presidente da República, desautorizado
quatro vezes (cantonesas, regionais, europeias, referendo) e caído para 24%
de confiança (3 de Junho), o seu governo e, com todas as probabilidades, a
sua política, incluindo a europeia, mantêm-se. O Congresso (Assembleia Nacional e Senado), que se tinha pronunciado
por 92% a favor do Sim, mantém-se. A direcção socialista em torno de Hollande e a dos Verdes à volta de
Berling adoptam uma atitude análoga. O secretário-geral da CGT, rudemente censurado pelos militantes, não
tem razões para os invejar. Não se espere que, de resto, com os curas de toda obediência aos
médias e aos lacaios mediatizados se passe outra coisa. Com excepção de
alguns valentões regressados à naftalina, todos, ao contrário, entregaram‑se
à tarefa de terrorismo moral e vestiram luto... pelos outros, os seus
adversários vencedores. O patrão do patronato francês tornou-se o patrão do patronato
europeu e o comissário europeu francês e socialista foi elevado ao posto de
chefe da OMC. Para esta atitude pode encontrar-se uma razão, na verdade mais
psicológica do que política, a de que os partidários do tratado simplesmente
nunca imaginaram que podiam perder. Aos seus olhos, o Sim ganhava por si. Não
era senão uma pura formalidade, pelo que se esperava um referendo à
espanhola. «É absolutamente necessário que dê Sim», dizia Jean-Luc Dehaene,
vice-presidente da Convenção europeia, em Junho de 2004. «A Europa não é de
direita, a Europa não é de esquerda, é o nosso destino», assegurava o
primeiro‑ministro francês, Jean-Pierre Raffarin. A “desobediência” foi
declarada impossível por Libération e Le Monde. E Nicolas
Sarkozy declarava, com uma lucidez profética: «seria para nós um problema
gigantesco se a França se deixasse levar a dizer Não». E, contudo, ela
deixou-se levar e, quanto ao problema, ei-lo, aí o tendes... [As citações são
extraídas do editorial “Os franceses não têm o direito de dizer Não”, do
excelente “Jornal progressista radicalmente eurocrítico”, La Lettre de BRN,
n.º 9, Abril-Maio de 2005]. PERSPECTIVAS As ilusões, entretanto, não se concretizaram. A palavra de ordem que
avança na América Latina não fez escola entre nós: “eles” não se foram e, ao
contrário, agarram-se como lapas. Convém, pois, avaliar quão repleta de
obstáculos aparece a indispensável continuidade exigida pelas lições do
referendo, ou, dito de outro modo, a via de uma alternativa radical. Que
fazer? Uma questão de premente actualidade. Do lado do Sim, a confusão audível sob a fachada do imobilismo
renunciou prontamente a evocar a ameaça de isolamento da França, «ovelha
negra» da Europa (Jack Lang). Com toda a vergonhosa barrela, já nem se
receia, depois da votação na Holanda, perspectivar uma paragem do processo
que, de passagem, fez pouco caso da decisão favorável da Letónia (02/06). O
exemplo por contágio ou capilaridade do Não, anunciado pelos seus
partidários, já provocou este resultado. Já nem mesmo se coloca a questão de
repetir o golpe da Dinamarca e da Irlanda preconizando um novo escrutínio
(Giscard, Barroso, Junker...). Isto não significa de modo nenhum que o poder tenha falta de
munições. A relação de forças foi abalada pela insurreição “da cidadania”,
mas o poder está de pedra e cal. A solidez dos seus dois pilares não poderia
ser subestimada. O primeiro tem a ver com as forças muito bem cimentadas do
institucional, que valem precisamente pelas instituições, nomeadamente as da
V República, sempre vilipendiadas e em cada ocasião confirmadas; que valem
igualmente pelos partidos e organizações sindicais, por natureza preocupados
em autoconservar‑se e em assegurar a recondução dos seus eleitos.
Obcecados que estão pelo calendário de 2007, são os casos tanto do
reagrupamento da UMP em torno de Sarkozy como do PS em torno de Hollande ou
de um outro pretendente que apresente melhores garantias. O segundo pilar remete para a situação que prevalecia antes do sonho
político de classe operado pela recente consulta, ou seja, o tão celebrado
consenso, outro nome para os braços caídos e a submissão interiorizada aos
dispositivos, baptizados de fatalidades, das políticas neoliberais e do
pensamento único. O caso não é menor: vai ser necessário que o cidadão,
reinvestido como portador da reivindicação igualitária, despoje o
consumidor/espectador/eleitor intermitente, isto no meio das contradições que
ensombram o Não e que irão agudizar-se. De forma clara: agitar o papão da
extrema‑direita ou/e opor uns aos outros os Não PS/Verdes e os Não
PCF/LCR. Cenário possível: o agrupamento sob a bandeira de Laurent Fabius,
cinicamente apresentado pela imprensa mais apoiante do Sim como «o grande
beneficiário do escrutínio» (Le Monde), de toda a família socialista,
ortodoxos e dissidentes, tendo em vista o êxito de uma “esquerda plural”
ressuscitada na próxima eleição presidencial. Por singular paradoxo de um
pretendente convertido, através de alguns “casos”, da liquidação do
socialismo intencional do primeiro governo Miterrand ao combate a favor da “Europa
social” e da “França dos excluídos”, a alternância social-liberal seria
chamada a barrar o caminho à alternativa “vermelha”. Também não é senão um
meio de impedir uma saída semelhante – “a união nas lutas”, como se dizia
outrora, das forças populares – a condição de uma “refundação da esquerda”
(Jean-Pierre Chevènement). Manter a mobilização do “país real” contra “o país legal” (De
Villiers), talvez sim, mas a partir de que propostas? São numerosas as que
foram avançadas pelos diferentes protagonistas da frente do Não e que nem
sempre estabelecem a diferença entre utopia e relação de forças. Assim, a temática quase unanimemente partilhada da vontade de uma “outra
Europa”, “social”, traduzida no apelo a uma renegociação imediata do tratado
constitucional, repousa sobre três pressupostos: sobre qual “outra” Europa
negociar? Uma Constituição, mas a que necessidade obedece ela? Com quem
negociar? Tentar responder a estas interrogações é andar à roda: que linhas de
divisão? Com quais dos 24 países? Qual a missão do negociador francês e quem
lha confiaria (ou imporia)? A nova Constituição, para não voltar à mesma
situação, passaria por uma Assembleia Constituinte? E quem a constituiria?
Como? Se o recurso a um plano de substituição, dito “Plano B”, não é do
domínio da fantasia, a quem é ou deve ser confiado? Às actuais instituições?
À Comissão Europeia do Sr. Barroso? De novo à pena giscardiana? Aos povos
reunidos? Regressa-se assim aos impasses já sugeridos... À escala nacional, a exigência da demissão do presidente da
República parece de facto pouco realista. A da dissolução da Assembleia é apenas
um pouco menos irrealista, em todo caso num futuro próximo, na ausência de
uma debandada do governo recentemente nomeado. Que esperar da convocação das “Sessões
da República”, dos “Estados Gerais” ou do regresso às “Assembleias de
Cidadãos” que não o eram senão no nome? ALGUMAS MEDIDAS São de esperar medidas seguramente menos ambiciosas, mas na verdade
difíceis, tendo em conta os (maus) hábitos adquiridos. O seu número e a sua
natureza, que serão consequência directa de lutas concretas, se não podem ser
pré‑determinadas, são pelo menos passíveis de um recenseamento
provisório a partir do que existe. Citemos, entre outras, ao nível europeu: por um lado, a necessidade
de impedir a concretização de todas as disposições liberais que autorizam os
tratados existentes (por exemplo: a circular dita Bolkestein ou a
independência do BCE); por outro lado, toda a forma de propaganda susceptível
de universalizar a revolução francesa, como se pretendia há dois séculos, ou
o encorajamento maior, franco-holandês, enquanto os outros países não se
pronunciarem, pressionando a adopção por todo o lado da via referendária;
enfim, a denúncia das burocracias sindicais proclamando a adesão ao tratado
de 60 milhões de trabalhadores, o esforço, de facto jamais realmente tentado,
de constituição de uma frente sindical, representativa das forças produtivas
humanas. No plano nacional, porque não existe outro lugar de acção
privilegiado, e em relação estreita com a frente sindical em questão,
impõe-se a vontade proclamada de união dos trabalhadores na e para a
convergência das lutas, lamentavelmente até agora evitada e por vezes
desviada, numa altura em que se multiplicavam conflitos de todas as origens
dizendo respeito a todos os sectores de actividade e a todos os “parceiros sociais”.
O Não protestatário de classe tinha algum outro ancoradouro melhor do que
este? A reafirmação incansável da exigência democrática, quer se trate do
local, do regional, do nacional e do europeu, representa um eixo obrigatório.
Pressupõe a anulação das medidas reaccionárias do governo Raffarin, das
privatizações e deslocalizações, das reformas em curso (aposentações,
ensino), e o respeito das 35 horas. O estabelecimento de alianças equitativas com os países do Sul,
afastadas pelo tratado submetido a sufrágio, ligadas à anulação da dívida,
forma outro eixo. Repita-se que é da natureza do combate pela democracia confundir-se
com o da promoção da igualdade, em todo o lado e para todos, trabalhadores
imigrados, mulheres, jovens, e antes de tudo o direito imprescindível ao
trabalho e às relações de trabalho. Deve ser, enfim, uma campanha continuada, radicalizada, com uma
solidariedade militante com os povos em luta pela sua independência ou
libertação, concretamente da Palestina ao Iraque, da Colômbia à Venezuela, e
por princípio de África à América Latina e à Ásia. O primeiro dever internacionalista exige mais do que nunca a
participação de todas as forças e movimentos que se opõem às acções de
dominação imperialista, em particular às da superpotência dos Estados Unidos.
O Não que seguir por este caminho não terá sido gritado em vão! _______ [*] Da Université Paris
X-Nanterre. georges.labica@u-paris10.fr
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