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União
Europeia |
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31/12/2005 Vinte
anos depois 1. Completam-se amanhã 20 anos sobre a adesão de Portugal à CEE.
Pouco importa agora que, nos idos de 70, esta escolha tenha sido feita, entre
outras razões, para enterrar definitivamente as veleidades revolucionárias de
um país alterado. A verdade é que as elites nacionais, por uma vez,
acertaram. Finalmente sem Império, era e é na Europa que o país se deve
reencontrar. 2. A adesão foi popular porque sintonizou o país com o seu desejo de
modernidade. Mas o fosso entre expectativas e realidades cresce a cada dia
que passa. A Europa representou para a iniciativa privada a abertura de
mercados. Mas para os trabalhadores, a promessa de salários europeus e a
garantia de uma vida digna na terceira idade, continua por cumprir. A Europa renovou as aspirações de mobilidade e maior abertura nos
costumes. Mas se o aumento da oferta cultural e dos bens de consumo é uma
evidência, Portugal continua a ser um dos quatro países onde o aborto ainda
constitui crime na Europa. E a mobilidade das pessoas é bem mais penosa do
que a de bens e capitais. A Europa despertou nos mais pobres esperanças sem fim. Mas o balanço
dos fracos entre os fracos só pode ser severo. E o aumento consistente do
desemprego, desde 2000, apenas agrava este juízo. O saldo destes 20 anos é que as obras nas redes de infra‑estruturas
e o crescimento da sociedade de consumo, não tiveram equivalente na melhoria
das condições de vida devidas a grande parte da população. As transformações
decorrentes da adesão foram mais superficiais do que profundas. Betão e
alcatrão mudaram a paisagem. Mas não erradicaram os verdadeiros atrasos do
país. 3. O ponto onde nos encontramos avalia o modo como as elites e os
governos conduziram, com assinalável continuidade, a nossa integração. Umas e
outros aplicaram os fundos comunitários, como o ouro do Brasil foi esbanjado
em novo riquismo. Os fundos não travaram a fuga dos campos em direcção às cidades e ao
litoral. Não renovaram o tecido industrial do país, nem salvaram as suas
pescas. Não transformaram a educação e não fizeram da formação ao longo da
vida uma alavanca para enfrentar com qualificações o Mercado Único e a
globalização. Pior ainda, os fundos comunitários transformaram-se no principal
critério para as decisões de investimento público: se há dinheiro da Europa,
faz-se; se não há, adia-se. Fez-se muito. Só não se fez o que era mais decisivo para o futuro. 4. É indispensável responsabilizar quem decidiu. Quem deu prioridade
às redes de auto‑estradas e não à renovação e modernização do
transporte ferroviário; quem investiu no tratamento de lixos, mas foi incapaz
de promover a energia solar num país de poucas nuvens; quem plantou centros
culturais pelo país, mas não encontra meios para os fazer funcionar; quem
renovou centros históricos, mas continuou a fazer bairros sociais nas
periferias da infelicidade alheia; quem investe em rotundas e circulares, mas
é incapaz de criar centros de acolhimento para imigrantes e sem abrigo, ou
serviços de assistência domiciliária à solidão dos idosos. Nada disto responsabiliza uma Europa de costas largas. Neste
balanço, o que está em causa é uma modernização conservadora, consumista e
novo‑rica, que fez da Europa e dos seus fundos uma ilusão colectiva
destinada a não durar. Os governos de Cavaco Silva, António Guterres e Durão Barroso
encheram o olho, a construção civil e o sistema financeiro. Os autarcas
renovaram mandatos. Mas todos adiaram o país. 5. Também a Europa se encontra em causa neste balanço. Os caminhos
da União são cada vez mais sinuosos, minimais e interesseiros. O progresso
técnico e científico, e o progresso social, mesmo que a distintas
velocidades, deixaram de seguir na mesma direcção. O controlo dos preços e o
Pacto de Estabilidade colocaram em causa o emprego e as aquisições sociais.
Quem andou durante anos a sustentar que “melhor Estado” era “menos Estado”,
apanha agora com a doutrina oficial de hoje: “melhor Europa, menos Europa”...
Mas nem deste caminho se podem isentar os nossos governos. De Soares a Cavaco
e de Guterres a Santana Lopes ou Sócrates, alegremente adoptaram a cartilha
do “bom aluno”, fórmula mágica que trocava a nossa aquiescência a tudo o que
se decidisse, contra o canto dos dinheiros. Portugal jogou pequenino com as
regras que os grandes ditaram. A nossa crise também é tributária deste
europeísmo patrioteiro de mercearia, tão bem comportado quanto palavroso e
vazio. |