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11/11/2005 Agricultura:
subsídios principescos na Europa Julio Godoy O príncipe Albert não é exactamente um pobre camponês. Mas o monarca
do Mónaco figura juntamente com a rainha Elizabeth da Inglaterra entre os
agricultores que mais subsídios cobram da União Europeia. A família real do
Mónaco, pequeno principado totalmente urbanizado na costa do mar Mediterrâneo
e famoso pelos seus casinos, hotéis e praias, recebeu em 2004 subsídios
superiores a 300 mil dólares, em apoio à produção de cereais das suas
fazendas no norte da França. A família Grimaldi não foi a que recebeu os maiores
subsídios, nem os menores. De todo modo, Albert Grimaldi figurou na lista dos
58 agricultores na França mais beneficiados pela Política Agrícola Comum
(PAC) da UE, elaborada pelo Grupo Economia Mundial (GEM). Estes 58 produtores receberam mais de 27 milhões de dólares em
subsídios nesse ano, com valores de 100 mil dólares até mais de 2 milhões de
dólares, segundo o GEM, centro de pesquisas do Instituto para Estudos
Políticos em Paris. Apesar de várias reformas da PAC, os agricultores
franceses recebem cerca de um quinto dos mais de 52 mil milhões de dólares em
subsídios que a UE paga todos os anos ao sector, soma que representa a quarta
parte do orçamento do bloco. A organização humanitária Oxfam Internacional
afirmou que 15% das companhias agrícolas da França ficaram com 60% dos
subsídios europeus dirigidos a esse país. Os pequenos agricultores franceses,
por outro lado, ficaram com apenas 17%. A UE, e particularmente a França, defendem esses subsídios,
questionados pelos países do Sul em desenvolvimento e organizações
humanitárias com actividade no mundo pobre. Segundo os que defendem estas
políticas, a protecção da agricultura é necessária e justa. Estas práticas
proteccionistas são «contribuições estatais para o campo e o manejo da
natureza, a biodiversidade, a comodidade e o bem‑estar das comunidades
rurais, entre outras coisas», disse à IPS o comissário da Agricultura da
União Europeia, Hans Fischler. Mas não fica claro como os elevados subsídios
aos produtores ricos promovem essas metas. «Só em 2003, a UE pagou mais de 177 milhões de dólares em subsídios
para apoiar a irrigação, por isso esse dinheiro não ajudou na preservação da
água, um recurso essencial», disse à IPS o pesquisador Pierre Boulanger, do
GEM. O príncipe do Mónaco está em boa e real companhia. A rainha Elizabeth
recebeu mais de 700 mil dólares em subsídios no ano passado. Mas o benefício
é tanto monárquico quanto republicano: o ministro da Agricultura da Holanda,
Cees Veerman, obteve por essa via 180 mil dólares, e também figura na lista a
própria comissária da Agricultura da UE, Mariann Fischel Boel. Os subsídios
estiveram no centro de um acalorado debate durante anos, tanto dentro da
Europa como entre as nações da Organização Mundial do Comércio. Os países em desenvolvimento, liderados por Brasil, China e Índia,
condenaram reiteradamente os subsídios europeus e norte-americanos aos
agricultores, por considerá-los barreiras comerciais ocultas. Brasília
ameaçou fechar os seus mercados a artigos industriais europeus, como automóveis
e produtos electrónicos, caso a UE continue a subsidiar os seus agricultores.
O principal objectivo da Rodada de Doha de negociações multilaterais de
comércio, aberta pela OMC na conferência ministerial de 2001, é estabelecer
uma redução de tarifas alfandegárias e subsídios agrícolas. Na próxima
conferência ministerial, que acontecerá em Hong Kong no próximo mês, a França
será submetida a uma pressão particularmente forte para aceitar reduções
substanciais nos seus subsídios. O governo francês manteve até agora em segredo a lista de principais
beneficiários dos subsídios, baseado na lei de protecção da privacidade. O
nome do príncipe Albert só surgiu porque ele mesmo concordou em revelar os
subsídios que recebeu. O vice-presidente da Comissão Europeia encarregado de
assuntos administrativos e auditorias, Siim Kallas, ameaçou revelar a lista
de beneficiários franceses, porque, advertiu, a transparência é essencial
para restaurar a confiança dos cidadãos nas instituições comunitárias. Porém, a França rechaça essa possibilidade. «Apoio a transparência,
mas se falamos de transparência na agricultura devemos estendê-la a todos os
assuntos europeus», disse o ministro francês da Agricultura, Dominique
Bussereau. Paris também polemiza com o comissário de Comércio da União
Europeia, Peter Mandelson, que propôs um corte de 70% nos subsídios e corte e
redução das tarifas alfandegárias de 22,8% a 12,2%. Bussereau considerou que
Mandelson estava a exceder‑se nas suas faculdades como negociador e
ameaçou «vetar» as negociações em Hong Kong. «Manter‑nos‑emos
firmes até ao fim», assegurou. |