|
Informação Alternativa |
|
União
Europeia |
|
24/06/2005 A presidência americana da Europa Rei morto, rei posto quarta-feira, o Parlamento Europeu levantou-se
para aclamar Jean Claude Juncker. O presidente em exercício da União Europeia
tinha acabado de colocar Tony Blair no banco dos réus, revelando, para lá de
toda a diplomacia, os meandros da negociação falhada sobre as Perspectivas
Financeiras da União para 2007/2013. 24 horas mais tarde, o mesmíssimo Parlamento aplaudiria longamente
Tony Blair. Depois de este ter insistido em todas as suas anteriores
posições... Em Bruxelas, abriu a época de saldos para as espinhas dorsais. O FIM DE UMA ERA A crise fez as primeiras vítimas. Em primeiro lugar, Durão Barroso. No
combate de chefes desapareceu do mapa. Pateticamente, concentrou-se sobre o
menor dos problemas actuais – um acordo rápido sobre as Perspectivas
Financeiras. Enquanto Blair falava de política – a dele, claro – Barroso
batia-se pela mercearia. O presidente da Comissão ainda vive na “Europa como
era dantes”. A segunda vítima é o Partido Socialista Europeu. O duplo aplauso a
Juncker e Blair foi socialista. O seu chefe de bancada foi o único a insistir
num Tratado que já só existe na sua cabeça. E foi também o único a descobrir
na intervenção de Blair a vontade de compromisso sobre as directivas mais
liberais que estão em carteira. Na eurolândia, o establishment ainda não percebeu que o tempo dos
acordos mínimos entre governos acabou. Esse foi o regime em que direita e
socialistas se entenderam sobre políticas de liberalismo mais ou menos
temperado. Mas isso foi chão que deu uvas. Morreu a 29 de Maio. O “não” francês iluminou o vazio de liderança, a desorientação e o
esgotamento de uma Europa sem projecto. Foi sobre esse vazio que Blair jogou.
Primeiro, bloqueando acordos no Conselho. Depois, surgindo em Bruxelas como o
timoneiro que quer evitar o naufrágio da nau. A VIA AMERICANA PARA A EUROPA Blair jogou na clareza. Colocou a Europa na cadeira onde 24 horas
antes o tentaram sentar no banco dos réus. Expôs uma visão sem concessões.
Chamou-lhe “modernização do modelo social europeu”. E traduziu o que ela
significa: “europeização” dos sucessos britânicos na desregulamentação do
trabalho. A agenda de Blair é a do liberalismo hardcore imposição, sem
delongas, das directivas de liberalização dos serviços e prolongamento
“asiático” dos horários de trabalho. Em face da globalização “realmente
existente”, o que propõe é que a Europa assuma, sem tibiezas, as regras
laborais que vigoram nos Estados Unidos da América e nos tigres asiáticos. Barroso e Juncker não estão distantes desta perspectiva. Mas
receavam afrontar de peito aberto as razões maiores do “não” francês. A sua
“pausa” era um recuo temporário para contornar a tempestade. E a insistência
nas Perspectivas Financeiras o gesto que salvava as aparências e permitia à
Europa continuar a funcionar como até aqui. Blair não rompe com a escolha que levou a Europa à crise o
social-liberalismo. Interpreta, isso sim, a evidência da crise, e propõe um
remédio draconiano. «Insisto na reforma económica porque a Europa ainda não
percebeu que esta é a urgência», insistiu uma e outra e outra vez. Em
compensação, dispensa definitivamente o Tratado que as urnas derrotaram: «se
acertarmos na política, chegaremos a um Tratado». E sobre as Perspectivas
Financeiras procede a um jogo que lhe interessa: concentrando-se sobre a
distribuição dos recursos existentes, evita o debate sobre a sua escassez...
Blair, como Juncker ou Barroso, desejam uma Europa barata. A diferença é que
o primeiro-ministro britânico desvia o debate da mercearia em nome da
política pura e dura, à americana. EUROPEÍSMO POPULAR DE ESQUERDA Blair merece uma resposta à altura. É essa a discussão que se trava
em Paris no momento em que escrevo, entre representantes de movimentos e
partidos de esquerda de toda a Europa. A vitória do “não”, de per si, não
regula qualquer problema. Cria, isso sim, uma extraordinária oportunidade.
Porque fez emergir um novo protagonista na construção europeia - o povo; deu
dimensão popular relevante ao “europeísmo de esquerda”; e gerou a onda de
choque que acordou as pessoas para a realidade de uma crise larvar na Europa,
que já vinha de longe. Os seis meses de Blair não a podem resolver porque a
sua plataforma é, em si mesma, um programa de crise. Eis o que obriga a
Europa dos movimentos à iniciativa; e à superação da velha “cultura de
resistência” em nome de um projecto europeísta de fasquia alta. A luta por
uma nova Carta Europeia, na base de um processo constituinte democrático,
entrou na ordem do dia. |