Informação Alternativa

União Europeia

04/06/2005

 

A constituição morreu. Viva a autêntica política

 

Slavoj Zizek *

The Guardian

 

As comunidades Amish praticam a instituição do rumspringa. Aos 17 anos os seus jovens, que até então são submetidos a uma estrita disciplina familiar, são deixados em liberdade. É­‑lhes permitido, solicitado mesmo, que saiam e que experimentem os modos de vida moderna – conduzem carros, escutam música pop, vêem TV e participam em bebida, drogas e sexo selvagem. Depois de um par de anos espera­‑se que tomem uma decisão: voltarão a ser membros plenos da comunidade Amish ou deixá­‑la­‑ão para sempre e se tornarão cidadãos norte­‑americanos ordinários?

 

Mas longe de ser permissiva e deixar aos jovens uma opção verdadeiramente livre, esta solução está enviesada da forma mais brutal. É uma falsa escolha se alguma vez houve alguma. Quando, depois de longos anos de disciplina e de fantasiar a respeito dos prazeres ilícitos do mundo exterior, os adolescentes Amish são lançados nele, é evidente que não podem evitar entregar-se a comportamentos extremos. Querem experimentar tudo – sexo, drogas e bebida. E como não têm experiência em regular este tipo de vida, rapidamente se metem em problemas. Produz-se uma reacção que gera uma insuportável ansiedade, por isso é uma aposta segura que ao cabo de um par de anos voltem ao isolamento da sua comunidade. Não admira que 90% dos Amish façam exactamente isso.

 

Este é um exemplo perfeito das dificuldades que sempre acompanham a ideia de uma “escolha livre”. Enquanto se proporciona formalmente aos adolescentes Amish uma escolha livre, as condições em que eles se encontram enquanto estão a fazer essa escolha tornam a própria escolha não livre. Para poderem fazer uma escolha efectivamente livre deveriam ter sido informados convenientemente sobre todas as opções. Mas a única maneira de fazê-lo teria sido retirá-los do seu enclaustramento na comunidade Amish.

 

O que tem tudo isto a ver com o Não francês à constituição europeia, cujas ondas de repercussão se estão a estender agora por todo o lado, alentando imediatamente os holandeses, que recusaram a constituição numa percentagem ainda maior? Tudo. Os eleitores foram tratados exactamente como os adolescentes Amish: não lhes foi dada uma escolha claramente simétrica. Os próprios termos da opção privilegiavam o lobby do Sim. A elite propôs às pessoas uma escolha que de facto não era nenhuma escolha. As pessoas foram chamadas a ratificar o inevitável. Tanto os média como a elite política apresentaram a escolha como uma opção entre conhecimento e ignorância, entre perícia e ideologia, entre administração pós-política e as velhas paixões políticas da esquerda e da direita.

 

O Não foi descartado como uma reacção míope inconsciente das suas próprias consequências. Foi classificado como uma turva reacção de medo à emergente nova ordem global, um instinto para proteger as tradições do confortável estado de bem­‑estar, um gesto de rejeição desprovido de qualquer programa alternativo positivo. Não é de estranhar que os únicos partidos políticos cuja postura oficial foi o Não fossem aqueles situados nos extremos do espectro político. Além disso, dizem­‑nos, o Não era na verdade um Não a muitas outras coisas: ao neoliberalismo anglo­‑saxão, ao governo actual, ao afluxo de trabalhadores imigrantes, e por aí fora.

 

Contudo, ainda que haja um pouco de verdade em tudo isto, o próprio facto de em ambos os países o Não não ter sido sustentado por uma visão política alternativa coerente é a mais firme condenação possível das elites política e mediática. É um monumento à sua incapacidade para articular os desejos e insatisfações populares. Em vez disso, na sua reacção ante os resultados do Não, trataram o povo como alunos atrasados que não tinham compreendido a lição dos especialistas.

 

Assim, embora a escolha não fosse entre duas opções políticas, nem fosse uma escolha entre a visão ilustrada de uma Europa moderna, disposta a abraçar a nova ordem mundial, e velhas, confusas paixões políticas, quando os comentaristas descreveram o Não como uma mensagem de medo ofuscado, estavam equivocados. O verdadeiro medo com que estamos a lidar é o medo que o próprio Não provocou na nova elite política europeia. Foi o medo de que as pessoas já não seriam tão facilmente convencidas pela sua visão “pós-política”.

 

E assim, para todos os demais, o Não é uma mensagem e uma expressão de esperança. É a esperança de que a política esteja ainda viva e seja possível, de que o debate a respeito do que a nova Europa será e deveria ser esteja ainda aberto. Esta é a razão pela qual nós, da esquerda, devemos recusar as depreciativas insinuações dos liberais de que no nosso Não nos encontramos com peculiares e estranhos aliados neofascistas. O que a nova direita populista e a esquerda compartilham é apenas uma coisa: a consciência de que a política propriamente dita está ainda viva.

 

Houve uma escolha positiva no Não: a escolha da própria escolha, a rejeição da chantagem por parte da nova elite que só nos oferece a escolha de confirmar o seu conhecimento especialista ou mostrar uma imaturidade “irracional”. O nosso Não é uma decisão positiva de começar um debate político autêntico a respeito de que tipo de Europa realmente queremos.

 

No final da sua vida, Freud fez a famosa pergunta “Was will das Weib?” [O que quer a mulher?], admitindo a sua perplexidade frente ao enigma da sexualidade feminina. O imbróglio com a constituição europeia não será talvez testemunha da mesma perplexidade: que Europa queremos?

 

Para o dizer sem rodeios, queremos viver num mundo em que a única escolha seja entre a civilização americana e o emergente capitalismo autoritário chinês? Se a resposta é Não, então a única alternativa é a Europa. O terceiro mundo não pode gerar uma resistência suficientemente forte à ideologia do sonho americano. Na actual constelação mundial, a Europa é a única que pode fazê-lo. A verdadeira oposição hoje não é entre o primeiro mundo e o terceiro mundo. É antes entre o primeiro e o terceiro mundo (isto é, o império global americano e as suas colónias) e o segundo mundo (isto é, a Europa).

 

A propósito de Freud, Theodor Adorno afirmava que o que estamos a ver no mundo contemporâneo com a sua «desublimação repressiva» já não é a velha lógica de repressão do id [infra­‑eu] e das suas impulsões mas um perverso pacto entre o superego (a autoridade social) e o id (as impulsões ilícitas agressivas) à custa do ego. Não está a ocorrer hoje algo estruturalmente similar ao nível político: o estranho pacto entre o capitalismo global pós­‑moderno e as sociedades pré­‑modernas à custa da modernidade propriamente dita? É fácil para o império global multicultural norte­‑americano integrar as tradições locais pré­‑modernas. O corpo estranho que não pode assimilar de forma efectiva é a modernidade europeia.

 

A mensagem do Não para todos nós que nos preocupamos com a Europa é: não, os especialistas anónimos cuja mercadoria é vendida num embrulho liberal-multicultural de cores brilhantes não nos impedirão de pensar. É tempo de nós, cidadãos da Europa, estarmos conscientes de que temos que tomar uma decisão política autêntica a respeito do que queremos. Nenhum administrador iluminado vai fazer o trabalho por nós.

_________

* Slavoj Zizek é o director internacional do Instituto Birkbeck para Humanidades.