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02/06/2005 A constituição europeia e o segredo do regime neoliberal John Brown «Ficam os
intelectuais» (Stalin) Não se avaliou ainda suficientemente em que medida o relatório elaborado por Iossip Visarionovitch Stalin sobre a constituição soviética de 1936 constitui um paradigma do pensamento e da acção de amplos sectores das classes políticas actuais. Neste texto, que pretende situar histórica e socialmente a carta magna do regime, afirma-se: «A classe dos terratenentes, como é sabido, foi já
suprimida graças à vitória obtida na guerra civil. No que respeita às demais
classes exploradoras, compartilharam a sorte da classe dos terratenentes. Já
não existe a classe dos capitalistas na esfera da indústria. Já não existe a
classe dos kulaks na esfera da agricultura. Já não há comerciantes e
especuladores na esfera da circulação de mercadorias. Todas as classes exploradoras
foram, pois, suprimidas. Fica a classe operária. Fica a
classe campesina. Ficam os
intelectuais.» Intriga o estatuto das classes que ficam: por um lado
as classes exploradas que são os camponeses pobres e o proletariado, por
outro a “intelligentsia”, a intelectualidade transformada em classe aliada e
conselheira do proletariado. Curiosa situação esta, pois se afirma algo tão
estranho como que uma classe que só se define pela sua exploração, o
proletariado, pode subsistir como tal tendo desaparecido a exploração e os
exploradores e que um sector social definido pela sua formação e actividade
preponderantemente intelectual se erige em classe à margem da luta de
classes. Em resumo, que há classes – inclusive exploradas – sem luta de
classes e que estas classes cooperam harmoniosamente entre si inspiradas pela
inteligência. Esta imagem do cara a cara entre o proletariado “não
explorado” e a intelligentsia “não exploradora” descreve em boa medida o
funcionamento político da esquerda. A sua influência vai muito além do estalinismo
e cobre o conjunto do pensamento e acção da esquerda oficial, cuja
representação de si mesma é a de uma massa de trabalhadores manuais dirigida
por uma vanguarda representativa cuja legitimidade se baseia num saber: dialéctica
e “economia marxista” para os mais “radicais” ou direito e economia burguesa
para os social-democratas ou social liberais. O poder destes dirigentes sobre
a multidão baseia‑se no seu saber, justifica-se mediante “análise” de
uma racionalidade pretensamente superior à da chusma. Tribunos da plebe ante
as classes dominantes ou vanguardas revolucionárias, os dirigentes desta
esquerda pretendem saber. A forma mais caricatural desse saber são as famosas
“Obras completas” que os diferentes ditadores estalinistas foram compondo em
vida eles mesmos ou com a ajuda de lacaios. Se Lenine tinha as suas obras
completas, como poderiam viver sem elas um Stalin, um Ceausescu ou um Kim Il
Sung? Lenine tomava, no entanto, decisões políticas, às vezes sumamente
arriscadas e com frequência contra a teoria marxista e os seus próprios escritos,
enquanto Kim Il Sung chegou a ser representado pelos seus artistas oficiais
como «o líder querido e estimado do povo coreano escrevendo uma obra clássica».
Fantástica obra clássica esta que não tem que se submeter ao tribunal da
crítica, pois dado o seu autor é sempre já clássica... E é que o saber em
determinados regimes como o estalinista ou o neoliberal – às vezes gerido por
trânsfugas do estalinismo – sim ocupa lugar, muito precisamente o lugar do
poder. O referendo francês sobre a constituição europeia deu
ocasião para comprovar como este poder/saber que não é já nenhuma exclusividade
da esquerda autoritária se exerce na actualidade na democrática e ilustrada
Europa. Em primeiro lugar, os promotores do referendo tanto em França como
nos demais países europeus onde se consulta a população, vêem a consulta como
um mero trâmite. Não se trata de que a população decida, mas de que acate a
constituição como se aceita sem discutir uma verdade científica sobre a
natureza. De que fala a constituição europeia senão do indiscutível, dessa
combinação de mercado livre e direitos humanos que, segundo Fukuyama assinala
o fim da história? De um mercado que segundo a economia neoliberal diz a
verdade sobre os preços e a atribuição dos factores de produção e de uns direitos
baseados, segundo os seus defensores, na natureza humana. Certamente, a
constituição também fala de políticas judiciais e policiais comuns que saltam
qualquer garantia jurisdicional, de luta antiterrorista e de política externa
comum em estreita coordenação com a NATO, mas tudo isto faz parte também da
verdade do mercado e dos direitos humanos, pois constitui a sua condição de
possibilidade. Só numa sociedade segura, livre de elementos perturbadores
tanto internos como externos é possível que os agentes do mercado desenvolvam
plenamente a sua actividade. “Laissez
faire, laissez passer”... Poderíamos completar: “ce qui est normalisé”. Só
o normalizado pela repressão e o controle mancomunados pelos Estados membros
pode circular livremente, com os devidos papéis, pelo mercado interno. O
resto fica de fora ou naufraga nas bateiras ou acaba nos circuitos de
superexploração ou nos cárceres ou nos renascidos campos de concentração para
“solicitantes de asilo”. A verdade natural do mercado e dos direitos humanos
é assim um elaborado construto ao qual se pretende dar um paradoxal valor
normativo, pois só enunciam um dever ser na medida em que reflectem o que é.
E é que a economia e os direitos humanos não são objecto de decisão política.
Quem ponha em questão esta dupla legitimação ao mesmo tempo pragmática e
altruísta do actual sistema de poder é um orate, um terrorista ou no melhor
dos casos um ignorante. A constituição europeia nada tem que ver com um futuro
federal da Europa sobre o qual seria possível – e inclusive necessária – uma
decisão política dos cidadãos. Se a constituição europeia transfere
soberania, transfere-a para o mercado mediante uma autolimitação concertada
da soberania dos diferentes Estados que contribuem assim para a criação e
perpetuação do mercado único. Isso não significa que se constitua alguma
instância federal com carácter político, capaz de decidir como sujeito de
direito internacional a sua política externa e de defesa, a sua política
monetária ou a sua política comercial. Segundo a constituição europeia e os actuais
tratados, os órgãos europeus são nestes âmbitos respectivamente subalternos à
NATO e ao Banco Central Europeu, o qual é independente do poder político e
dependente do mercado e da OMC. As elites autoproclamadas da Europa neoliberal, os políticos,
os empresários, os meios de comunicação, instituíram-se hoje em
intelligentsia, dentro do marco de uma “economia do conhecimento” da qual
teriam desaparecido a luta de classes e a exploração. Ao que apelam
actualmente quando pedem que se aprove a sua constituição não é à livre
decisão constituinte dos cidadãos, mas à sua competência e ao seu nível
intelectual, pois do que se trata é de que reconheçam o óptimo marco de governança
que lhes é proposto como indivíduos livres e proprietários num mercado “securizado”.
A sociedade do conhecimento não é a do debate e da discussão democráticos,
mas a da demonstração científica baseada na experiência, daí que um grande número
dos Estados da União Europeia tenha optado pela via parlamentar para
ratificar a constituição, com resultados quase soviéticos de 90% ou mais de
aprovação. Que mais se pode esperar quando se propõe à nossa consideração
algo tão evidente como um teorema matemático? Por isso mesmo, as elites
francesas e europeias se viram enormemente surpresas ao comprovar que uma
maioria bastante ampla dos cidadãos consultados nega a verdade e a evidência
e se opõe à constituição. Agora, quando já é demasiado tarde, lamenta não ter
mostrado a prudência de Schröder e outros numerosos dirigentes europeus que
preferiram reservar aos representantes parlamentares a decisão sobre um texto
tão complexo, ou pelo menos a de Zapatero que convocou um referendo mas
impediu em concertação com a direita que houvesse o mais mínimo debate
público sobre o texto. Não se pode, no entanto, negar que o referendo tenha tido um valor
pedagógico: talvez tenha descoberto a uma parte da população francesa o
grande segredo do liberalismo: que os âmbitos de realidade que neste regime
se apresentam como naturais e indiscutíveis e que ficam consagrados na
constituição europeia, são o resultado de uma decisão política e que uma vez
desfeita esta ilusão podem tomar‑se outras decisões noutro sentido.
Que a economia não é uma esfera naturalmente autónoma em relação à política,
mas que a sua pretendida autonomia é o resultado de uma decisão política
camuflada de constatação científica. Que os direitos humanos também não têm
nenhuma vigência natural e só existem quando se traduzem em direitos civis e
políticos efectivos. Por muito que a curiosa frente que vai de Giscard d’Estaing,
Haider ou Gianfranco Fini até ao mesmíssimo Toni Negri, passando por esse
mestre em correcção política que é Zapatero, se empenhe em impor a sua “verdade”
frente à ignorância da chusma, rara vez se viu por estes lados o rei tão nu.
Ânimo, fantasma amigo: continua a percorrer a Europa. |