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30/05/2005 Aos nossos amigos alemães Daniel Bensaid, Francisco Fernández Boi, Alex Callinicos, Domenico Jervolino, Stathis
Kouvélakis, Francisco Louça [Nota da Redacção: Uns dias antes do referendo, a
carta que publicamos a seguir foi enviada aos diários Le Monde e Liberation.
A carta nunca foi publicada. Esta negativa ilustra as misérias da campanha
pelo Sim. Depois da vitória do Não, a carta conserva, ou inclusive aumenta o seu
interesse] Numa tribuna aparecida no Le Monde de 3 de Maio,
intelectuais alemães distintos (entre eles Jürgen Habermas, Günther Grass e
Wolf Biermann), interpelam os seus «amigos franceses», exortando-os a aprovar
o tratado constitucional. Sejam bem‑vindos ao debate francês os nossos
amigos alemães, mas parecem bastante mal informados sobre o seu conteúdo. Sem
dúvida é consequência de que a ratificação parlamentar na Alemanha os privou
de uma controvérsia pública fecunda. Se a França tivesse adoptado o mesmo
procedimento parlamentar, o assunto teria ficado em que 90% dos deputados e
senadores ratificavam o tratado, enquanto o resultado do referendo é, de
momento, incerto. Para os nossos amigos alemães um Não francês «trairia o
progresso e as Luzes» (sic). E por que não o «sentido da História»? A
gravidade das declarações requer algumas precisões. Como apoiantes de um “Não de esquerda”, somos
partidários também da perspectiva de uma Europa social, democrática, aberta e
não limitada às fronteiras incertas da civilização judeo-cristã. Por isso
recusamos um tratado que constitucionaliza uma Europa liberal, prossegue a
demolição das solidariedades sociais e dos serviços públicos, confirma o
mandato do Banco Central Europeu à margem de todo o controle político,
favorece (a falta de harmonização social e fiscal) o dumping social e o
desenvolvimento desigual. Uma União Europeia sem programa social, entregue à
concorrência de todos contra todos, é forçosamente antidemocrática. Liberais
declarados, que conhecem Montesquieu de cor, entusiasmam-se assim por um
mecanismo institucional artificioso em que o poder executivo (Conselho e
Comissão) e o poder judicial (o Tribunal de Justiça) legislam, enquanto o
poder legislativo (o Parlamento) é um ectoplasma consultivo. Os nossos amigos
alemães sabem, no entanto, como influiu na história alemã a unificação
burocrática bismarckiana sobre os entulhos das abortadas revoluções
democráticas. Elevar ao estatuto constitucional um tratado elaborado nas
costas dos povos, sem exercício efectivo do seu poder constituinte, não
produzirá a médio prazo mais do que decepções e ressentimentos. A ideia
europeia sairá também desacreditada. Como tratado entre estados vestido de solenidade institucional, teria sido mais conforme à realidade considerá-lo como um “regulamento interno de acomodamento” segundo a sóbria fórmula de Michel Rocard. Elevá-lo à casta de “Constituição” não tem no entanto só uma função simbólica. Trata-se de constitucionalizar orientações (recolhidas no capítulo III) que correspondem aos poderes eleitos, de forma que uma maioria possa desfazer o que outra fez. Gravando-as numa Constituição praticamente não modificável, espartilha‑se as soberanias populares e proíbem‑se políticas que dariam à lógica das necessidades e do bem comum a prioridade em relação à lógica cruel dos mercados bursáteis, em nome da concorrência «não falseada». Arrastados pelo seu fervor, os advogados do Sim
atribuem a um espírito benfeitor europeu poderes mágicos: a paz, os direitos
sociais, o Airbus,... tudo isso existiria graças à Europa. No entanto, os
direitos sociais não foram concedidos por um fantasma benevolente, mas
duramente conquistados por lutas sociais reais. A paz não é um presente
generoso da Comissão de Bruxelas, mas o resultado de provas históricas
trágicas e de relações de forças saídas da guerra mundial (sem esquecer que a
paz interna relativa de sessenta anos tem como contrapartida a participação
em todas as expedições coloniais e imperiais, em África ou no Golfo). Quanto
ao Ariane e ao Airbus, não são o fruto de uma Constituição por vir, mas o
resultado de cooperações industriais sustentadas por Estados realmente
existentes. Segundo os nossos amigos alemães, o tratado constitucional seria necessário para «equilibrar as relações com os Estados Unidos». Mediante a aceitação da tutela da NATO, ratifica no entanto a subordinação europeia em relação à potência hegemónica estado‑unidense. O seu orçamento militar é mais do dobro do da União Europeia. Pretender reduzir significativamente esta distância conduziria, ou a um relançamento vertiginoso dos défices públicos, ou (é evidentemente a hipótese mais provável) a uma redução drástica dos orçamentos sociais. Se é que existe um novo “desafio americano”, não
poderia ser assumido copiando o seu modelo liberal. Uma resposta à hegemonia
imperial deveria, pelo contrário, ganhar a simpatia e a amizade dos povos
apresentando um verdadeiro modelo alternativo de justiça social e de paz. Se a União Europeia está hoje enferma, não é da
possibilidade de um Não francês (ou holandês) ao tratado constitucional. É
por um defeito inscrito no seu programa de fabrico. O cenário do Acto Único
(em 1986) e do Tratado de Maastricht excluía três importantes acontecimentos.
De um lado, a mundialização liberal implicou uma concentração multinacional
dos capitais mais do que europeia: a União conta com igual ou maior número de
parcerias industriais com firmas americanas ou japonesas que propriamente
europeias. Por outro lado, o afundamento repentino dos regimes burocráticos
da Europa do Leste precipitou a questão da ampliação, carregada de
contradições sociais, mas politicamente inevitável. Enfim, a desintegração da
União Soviética, a unificação alemã, e a ruptura dos equilíbrios precários do
pós‑guerra puseram na ordem do dia uma nova partilha do mundo e uma
nova distribuição das alianças. Misturaram-se assim os ingredientes de uma
crise histórica. Só uma mudança radical de lógica, que dê prioridade às
convergências sociais, democráticas e ecológicas, em relação ao cálculo
egoísta dos ganhos e dos rendimentos bursáteis, poderia resolvê-la. A acreditar nos defensores do Sim, seria este tratado
ou nada: “Não há alternativa!”, gostava de proclamar Margaret Thatcher. Esta
retórica da resignação contribui para desacreditar a política. Estamos, pelo
contrário, não só convencidos de que critérios sociais de convergência (em
matéria de salários, de emprego, de serviços públicos, de protecção social)
constituiriam uma medida de justiça social elementar, mas também de que
seriam o melhor meio de evitar o dumping social. Proporcionariam a base sobre
a qual se poderiam negociar as ampliações. Tais critérios seriam, certamente,
de natureza tal que “falseariam a livre concorrência”. Estariam pois em
contradição com o espírito e a letra do actual tratado. Os nossos amigos alemães inquietam‑se por um NÃO que «isolaria fatalmente a França». A sua solicitação expressa uma visão estática do mundo. Podemos imaginar ao invés que um Não assim romperia o círculo vicioso dos “pequenos passos adiante” e do “mal menor”, que levam com frequência ao pior. Convidaria os povos europeus a converter‑se em actores da sua própria história. Efectivamente, o temido isolamento só vale em relação aos governos e não em relação aos movimentos populares contra a guerra, aos foros sociais europeus, às marchas das mulheres ou dos desempregados. Os governos passam, os povos permanecem. Os nossos
amigos alemães temem um «Não populista à Constituição» e um encerramento dos
«nacionalistas de esquerda num bunker». É conhecer mal os apoiantes do Não de
esquerda. São, numa grande parte, militantes altermundialistas, iniciadores
de euromarchas, animadores dos fóruns sociais europeus. O que pode fazer dar
um tombo ao voto de 29 de Maio é, ao invés, o auge de um Não social e
solidário, e não o Não chauvinista e islamófobo da velha direita. Os nossos amigos alemães conjuram os seus «amigos franceses» a «não fazer sofrer à constituição europeia as consequências do seu descontentamento para com o seu governo». A experiência e o bom sentido dos trabalhadores estabelece no entanto, com razão, uma relação lógica entre as políticas seguidas desde há vinte anos e o tratado de Giscard. Se a constituição proposta é o espírito do liberalismo, a contra‑reforma social vivida quotidianamente é a sua carne, e Chirac-Raffarin são o seu braço secular. A principal linha de divisão opõe doravante um Não de
esquerda a um Sim ecuménico que, segundo confissão de um Jospin ressuscitado,
ilustra a eurocompatibilidade entre a direita liberal e a esquerda liberal.
Se esta esquerda voluntariamente escravizada ao colete de forças
constitucional voltasse ao poder, deveria consequentemente perseverar na via
marcada por Maastricht, Amsterdão, e pelo Pacto de Estabilidade. Há três anos, François Hollande fazia a sua peregrinagem
a Porto Alegre onde o Fórum Social Mundial proclamava outro mundo possível. Há
apenas um ano, o Partido Socialista fazia campanha para as eleições ao Parlamento
Europeu com o slogan de: «E agora, a Europa social». O Sim ao tratado liberal
significaria hoje que outra Europa (para não falar de “outro mundo”) é
impossível. Por muito que François Hollande prometa a Europa social para a Páscoa
ou para os Ramos, não poderá fazer esquecer que a União Europeia contava em
1997 com treze governos socialistas. Nem que Lionel Jospin, um ano antes de se
converter em primeiro‑ministro, atacava o pacto de estabilidade como algo
«absurdamente concedido aos alemães» e denunciava o tratado de Amsterdão como
um «super Maastricht». Quanto a Jacques Delors, que acaba de pôr na batalha
pelo Sim todo o peso da sua experiência, confessava há apenas dois anos,
depois de ter levado o tratado de Maastricht à pia baptismal, não o ter «defendido
com ardor» porque «não estava loucamente apaixonado por ele». Hoje pode‑se
concluir de tudo isto, ou que caiu loucamente apaixonado pelo tratado de Giscard,
que defende com ardor; ou que não está mais apaixonado por ele do que esteve
pelo de Maastricht, mas que no‑lo dirá dentro de dois anos. Daniel Bensaid, filósofo, Universidade de Paris 8 Francisco Fernández Buey, filósofo, universidade Pompeu
Fabra de Barcelona Alex Callinicos, filósofo, Universidade de York Domenico Jervolino, filósofo, Universidade de Nápoles Stathis Kouvélakis, filósofo, King's College de Londres
Francisco Louçã, economista, deputado do Parlamento português |