Informação Alternativa

União Europeia

30/05/2005

 

Patranhas sobre o voto francês (1)

 

Javier Ortiz

 

Vejam que Zapatero tinha feito o possível por lhes abrir os olhos e lhes deixar as coisas claras, avisando no seu último périplo pelo país hexagonal de que «o não é o desânimo e a tristeza; o sim, o optimismo e a alegria». Dando as costas à sabedoria do presidente do Governo espanhol, a maioria do eleitorado francês votou que não.

 

Talvez porque, cinzento de nascimento, tendo espontaneamente para o pessimismo e a tristeza, era partidário do não, ontem lá como outrora aqui. Resultado depois do resultado? Sinto­‑me mais optimista e, desde então, mais alegre. Estranho paradoxo.

 

Tempo e ocasião vão haver de sobra para comentar em detalhe o sucedido e as suas consequências, mas já, depois das primeiras salvas disparadas desde ontem à noite pelos paladinos do sim – minoritários no eleitorado, mas esmagadoramente maioritários nos meios de comunicação –, parece-me que não está a mais sair-lhes ao passo em alguns dos seus argumentos-álibi principais.

 

Primeira patranha que tratam de vender: “Há que continuar adiante no processo de ratificação da Constituição Europeia porque, conquanto a França mostrou a sua oposição, são muitos mais os europeus que lhe deram o seu apoio”.

 

Falso.  Salvo no caso espanhol, os outros estados que aprovaram o projecto fizeram­‑no através dos seus teóricos representantes políticos, sem permitir que as suas populações respectivas se pronunciem. Mas este é justamente um assunto em que, segundo demonstrou com clareza a experiência francesa, os políticos profissionais não são necessariamente representativos da opinião da população. A ter-se cingido à via parlamentar de ratificação, também a França teria dado a sua aprovação à mal chamada Constituição Europeia.

 

Há ocasiões em que os parlamentos se divorciam de maneira escandalosa do sentir popular maioritário. Recorde-se que aqui vivemos em 14-D de 1988 uma greve geral que foi praticamente total apesar de a sua convocação contar com um apoio parlamentar mínimo. Inclusive no referendo espanhol sobre a Constituição Europeia, o não obteve nas urnas um apoio muito superior ao que tinha no Parlamento.

 

Não é comparável o não francês ao sim da Lituânia, Hungria, Eslovénia, Itália, Grécia, Eslováquia, Áustria e Alemanha, onde a população não foi consultada a esse respeito de maneira directa (em alguns casos, como o da Alemanha, por medo do que pudesse dizer).

 

Amanhã continuarei a abordar outras patranhas que se estão a ouvir muito: “os franceses deram prova do seu egoísmo”, “os franceses votaram, na realidade, sobre assuntos de política interna”, “a França não se resigna à sua perda de liderança mundial”, “haverá que fazer um novo esforço de explicação das virtudes da Constituição e convocar um novo referendo em França”... E alguma mais, se surgir.